Queriam explorar o mundo de bicicleta. Acabaram por ser mortos pelo Estado Islâmico

Casal norte-americano abandonou o quotidiano nos EUA para explorar o planeta em duas rodas. Jornada teve início a 23 de julho de 2017 e terminou a 29 de julho deste ano em tragédia.

Jay Austin e Lauren Geoghegan tinham um objetivo de vida: dar a volta ao mundo de bicicleta. Através do blogue simplycycling.org, o casal ia partilhando as suas aventuras vividas nos quatro cantos do planeta.

Cansados da rotina a que estavam sujeitos em Washington, nos Estados Unidos, resolveram abandonar os seus empregos para se focarem neste projeto. "Existe magia lá fora, neste grande e belo mundo", escreveu Jay Austin, duas semanas antes de partir nesta viagem com a namorada.

Ambos são licenciados pela universidade norte-americana de Georgetown, em Washington, onde Lauren trabalhava no gabinete de candidaturas. Por outro lado, Jay trabalhava no departamento de habitação e desenvolvimento urbano.

Depois de se formarem, cada um fez projetos de vida diferentes. Jay passeou de scooter pelos Estados Unidos, conheceu a Europa de comboio, esteve uns dias na Namíbia e conheceu a Índia. Por outro lado, Lauren passou um verão em Beirute, no Líbano, a aprender árabe, e estudou espanhol em Madrid.

"Cansei-me de passar a maior parte do tempo à frente de um retângulo brilhante, de pintar os melhores anos da minha vida apenas em tons de bege e cinzento. Sinto falta dos vários pôres do Sol a que virei as costas. Demasiadas tempestades ficaram por ver, demasiadas brisas ficaram por notar.​ Sei que há outra forma de viver. Tenho explorado isso e agora é tempo de me comprometer", disse Jay, que adotou uma alimentação vegetariana e construiu a sua própria casa com apenas 13 metros quadrados. Apelidou a estrutura de The Matchbox (caixa de fósforos), tendo em conta o tamanho minúsculo da mesma. As paredes tinham um revestimento de ímanes, para que fosse possível afixar objetos metálicos nas paredes.

Conta o The New York Times que esta jornada teve início a 23 de julho de 2017. Ainda segundo o mesmo jornal norte-americano, o casal tinha uma série de planos que conseguiu cumprir:ver os elefantes no Botswana, ir às praias de Nungwi, no Zanzibar, acampar no Malawi e conhecer a vila de Sary-Tash, no Quirguistão.

Depois de voarem até à África do Sul, seguiram de bicicleta até ao norte de África, passaram pela Europa e rumaram à Ásia, de onde depois pretendiam ir para a Austrália e as Américas.

No dia 319 da aventura foram brindados com gelados oferecidos por um habitante do Cazaquistão. Ao 342.º dia, depois de montarem a tenda de campismo, foram convidados por uma família para irem assistir a um concerto ao ar livre. E no dia 359 receberam um ramo de flores de duas jovens do Quirguistão. Mas também tiveram de lidar com furos nos pneus, cães raivosos, granizo e doenças devido ao frio. Dificuldades que, segundo o casal, foram superadas por momentos de ligação humana.

Tudo corria bem, até que no dia 29 de julho, enquanto se juntavam a um grupo de outros cinco ciclistas, foram abalroados por uma carrinha Daewoo. O condutor inverteu a marcha e ainda voltou a passar por cima deles.

O ataque foi reivindicado pelo Estado Islâmico, que dois dias depois divulgou um vídeo com cinco homens identificados como sendo os atacantes, sentados perante uma bandeira da organização terrorista. Além do casal, também morreram neste ataque um ciclista da Suíça e outro da Holanda. Houve ainda três feridos que tiveram de receber assistência médica.

Segundo o ministro do Interior do Tajiquistão, os cinco atacantes saíram da viatura e executaram o grupo de ciclistas com pistolas e facas.

Mais tarde, através de um comunicado, a embaixada dos EUA no país confirmou que as autoridades abateram um suspeito e detiveram outros três.

"Neste momento no Tajiquistão", foi a última mensagem publicada no blogue do casal.

O casal não tinha receio quanto ao percurso que ia fazer. "Iremos estar atentos a avisos e alertas e vamos sempre escolher os caminhos com menor risco, mas não vamos evitá-los de todo (obviamente, será impossível). A vida é quase sempre aborrecida e pouco aventureira em quase todos os lugares do mundo e não vamos excluir países simplesmente porque algo aconteceu ou porque o governo norte-americano e o governo de determinado país não se dão bem", escreveu o casal no blogue.

Num dia normal chegavam a pedalar 40 a 60 quilómetros. Tinham um orçamento de oito mil dólares (6900 euros) por ano.

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