Que crise política é esta agora em Espanha?

PSOE de Pedro Sánchez apresenta moção de censura contra governo do PP de Mariano Rajoy, mas Ciudadanos de Albert Rivera quer legislativas antecipadas e ameaça baralhar as contas dos socialistas

Porque quer o PSOE censurar Rajoy quando viabilizou o seu governo através da abstenção em 2016?
Depois de nenhum partido ter maioria clara nas eleições de 2015 e depois de 2016, o PSOE decidiu viabilizar o governo minoritário de Mariano Rajoy através da abstenção. Nesse contexto, Pedro Sánchez demitiu-se, mas mais tarde veio novamente a ser eleito secretário-geral do PSOE. Dada a instabilidade na Catalunha, onde os independentistas organizaram um referendo ilegal e têm desafiado a autoridade do governo central de Madrid, Sánchez manteve um certo entendimento com Rajoy sobre a autonomia, nomeadamente na aplicação da Constituição, através do artigo 155.º. Mas agora, com a sentença do caso Gürtel, o partido de Sánchez vai apresentar uma moção de censura contra o governo do Partido Popular de Mariano Rajoy. O anúncio foi feito um dia depois de conhecida a sentença, que somou 351 anos em penas de prisão para 29 dos 37 acusados e uma multa de 245 mil euros para o PP de Rajoy. O partido indicou que vai recorrer e o primeiro-ministro diz que a responsabilidade imputada ao PP é civil e não penal.

Mas o que é o chamado caso Gürtel?
Gürtel é o nome da operação que investigou um esquema em que empresários ligados ao PP pagavam comissões ou subornos para ganharem concursos públicos. Francisco Correa, o líder da rede, foi condenado a 51 anos de prisão. Gürtel é, aliás, a tradução em alemão do apelido Correa. O ex-tesoureiro do PP, Luis Bárcenas, foi condenado a 33 anos de cadeia. O ex-juiz Baltasar Garzón, que em 2012 foi inabilitado de exercer durante 11 anos por ter ordenado escutas ilegais entre os advogados e os arguidos do Gürtel, disse sobre o assunto, em declarações à La Sexta, que "a justiça é lenta como um elefante, mas no final cumpre a sua missão".

Quem apoia a moção de censura do PSOE?
O Ciudadanos de Albert Rivera (que tem 32 deputados no Parlamento espanhol) não apoia, pelo menos para já, porque a moção dos socialistas não fala em novas eleições. O partido, que tem as suas raízes na Catalunha, exige novas eleições, pois neste momento é a formação política que lidera as intenções de voto nas sondagens em Espanha. O Podemos de Pablo Iglesias (líder que está sob fortes críticas pela aquisição de uma vivenda no valor de 600 mil euros) está a favor da moção e não apresenta condições a Sánchez. Nem sequer fazer parte de um governo liderado por si. Aliás, foi Iglesias que, logo na quinta-feira, desafiou Sánchez a fazer cair o governo de Rajoy. Outros partidos pequenos poderiam e de cariz regional apoiar também moção.

Quantos votos são necessários para a moção dos socialistas ser aprovada?
A maioria absoluta no Parlamento espanhol situa-se nos 176 deputados. No total são 350. O PSOE tem apenas 84 (mais um da Nova Canárias). Do lado do Unidos Podemos (Esquerda Unida, Podemos de Pablo Iglesias e Compromís) teria 71, da ERC 9, do PdeCat 8, do PNV 5 e do EHBildu 2. Seria uma geringonça de 180 deputados. Rajoy acusou Sánchez de querer governar a todo o custo e com qualquer um. "Um dia ainda o veremos aliado do senhor Carles Puigdemont", ex-presidente da Generalitat da Catalunha, atualmente exilado em Berlim. Os partidos vão ainda realizar reuniões para decidir o que fazer efetivamente.

Espanha pode ir de novo para eleições?
Se ganhar a moção de Sánchez, pelos vistos, não. Ele ficará a governar no lugar de Rajoy. Se Rivera apresentar outra moção e essa passar (cenário algo difícil) poderia haver novas eleições em Espanha. Se Rajoy as convocar também. Mas esta sexta-feira, o primeiro-ministro espanhol já disse que tenciona cumprir o seu mandato até ao fim. O clima de guerra política está, definitivamente, de regresso a Espanha. Por causa dele, Rajoy não vai este sábado a Kiev ver a final da Liga dos Campeões entre o Real Madrid e o Liverpool. E Sánchez não vai ao Congresso do PS na Batalha.

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Anselmo Borges

"Likai-vos" uns aos outros

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