Quatro grandes da UE juntos antes de uma rentrée difícil

Atentados da Catalunha levaram a que o terrorismo fosse o tema principal do encontro de hoje em Paris entre Emmanuel Macron, Angela Merkel, Mariano Rajoy e Paolo Gentiloni

O presidente de França recebe hoje em Paris os líderes dos outros três gigantes da União Europeia: Alemanha, Espanha e Itália. O plano inicial do encontro entre Emmanuel Macron, Angela Merkel, Mariano Rajoy e Paolo Gentiloni era discutir temas como migração, economia e defesa. Devido aos atentados da Catalunha, Rajoy anunciou que o terrorismo iria ser o ponto principal da reunião, a última antes da difícil rentrée que está reservada a este quarteto.

Contestação contra Macron

A maioria dos eleitores dizem estar insatisfeitos com a atuação de Emmanuel Macron, de acordo com uma sondagem da Ifop para o Le Journal du Dimanche divulgada ontem. Uma queda dramática para quem foi eleito com 66,1% dos votos há quatro meses. O grau de insatisfação em relação ao presidente é atualmente de 57%, mais 14 pontos percentuais do que em julho.

Desde a sua eleição, Macron tem sofrido uma série de reveses: duros debates no Parlamento, onde tem larga maioria, guerra com os militares por causa de restrições orçamentais (que levou à demissão do general Pierre de Villiers, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas), e cortes no apoio à habitação.

E o que aí vem não será fácil. Com setembro chegam os debates sobre a reforma do subsídio de desemprego, a formação profissional e pensões. E a promessa de que a intersindical CGT irá liderar uma manifestação contra os seus planos para desregular o mercado de trabalho.

Vitória mais curta para Merkel

A um mês das eleições de 24 de setembro, nas quais Angela Merkel tenta obter o seu quarto mandato, uma sondagem divulgada da Emnid ontem mostra que a CDU deverá ganhar com 38%, 15 pontos à frente do SPD de Martin Schulz. Um número confortável para a chanceler, acima dos 32% que as sondagens lhe davam em fevereiro, mas bem abaixo dos 41,5% conquistados pelo seu partido nas eleições de 2013.

Em plena campanha, Merkel tem de lidar com os protestos contra a sua política de porta aberta aos refugiados, particularmente veementes na antiga Alemanha de Leste, onde cresceu. Mesmo assim, Merkel já garantiu que não irá evitar as áreas onde a contestação contra si é mais alta. E que não se arrepende das decisões que tomou em relação aos refugiados. "Repetiria todas as decisões importantes que tomei em 2015", declarou ontem numa entrevista ao Welt am Sonntag.

Além do descontentamento de muitos conservadores por causa da chegada de refugiados à Alemanha, Merkel terá ainda de lidar com o crescimento da AfD, de extrema-direita, que poderá conseguir 10% dos votos. No entanto, e mesmo perante a possibilidade de ter de negociar uma nova coligação governamental (até agora o SPD não deu sinais de querer continuar a sua aliança com a CDU), a reeleição de Merkel parece ser uma certeza.

O pesadelo catalão de Rajoy

A economia espanhola continua a crescer e os analistas acreditam que pode vir a crescer mais de 3% pelo terceiro ano consecutivo. Estas são as boas notícias de Mariano Rajoy, cujo governo se tem escudado na falta de uma maioria para avançar reformas que estão pendentes.

E há a Catalunha. Nas últimas duas semanas, na sequência dos atentados em Barcelona, o primeiro- -ministro tem passado uma mensagem de unidade nacional, nos primeiros dias com a conivência do presidente da Generalitat. Mas agora que a poeira está a assentar, Carles Puigdemont já veio a público garantir que o referendo independentista vai realizar-se a 1 de outubro. O primeiro passo deverá ser dado a 6 de setembro, com o Parlamento catalão a aprovar a lei do referendo. Rajoy avisou que recorrerá ao Constitucional para travar este processo.

Pelo meio há ainda o facto de o PP, apesar de continuar a liderar as intenções de voto, estar a perder terreno para o PSOE desde que Pedro Sánchez voltou a ocupar o cargo de secretário-geral. Outra das fragilidades de Rajoy é o caso Gürtel, processo de corrupção que envolve vários responsáveis do PP. Depois de ter sido ouvido em tribunal como testemunha, está previsto que o primeiro-ministro compareça perante o Congresso na quarta-feira para dar explicações aos deputados.

Gentiloni precisa de um Orçamento

Quando, em dezembro, foi escolhido para ocupar o cargo deixado vago pela demissão de Matteo Renzi da liderança do governo italiano, Paolo Gentiloni sabia que era uma coisa a prazo. Renzi, que também deixara a liderança do PD, deixou claro que queria voltar e em eleições antecipadas. O ex-primeiro-ministro já recuperou a liderança do partido, o mesmo de Gentiloni, mas pode ter de esperar até maio, mês em que termina a atual legislatura. A grande surpresa é que as coisas estão a correr bem a Gentiloni. Uma sondagem Ixè divulgada neste mês mostra que o atual primeiro-ministro é o político favorito dos italianos, com 32% das preferências, sete pontos à frente de Renzi.

Mesmo com a popularidade em alta, Gentiloni tem pela frente um outono complicado, com a aprovação do Orçamento, de forma a evitar um Orçamento por duodécimos e a cumprir as metas europeias, e a "luz verde" para a reforma da lei eleitoral. E há ainda a eleição regional na Sicília, a 5 de novembro, ilha até agora liderada pelo PD.

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