A Eurovisão apanhada no conflito israelo-palestiniano

Com a vitória da israelita Netta no festival da Eurovisão de Lisboa, o do próximo ano será em Israel e ao que tudo indica em Jerusalém. Foi assim em 1979 e 1999, mas a mudança da embaixada dos EUA para a cidade trouxe o tema da capital para a agenda mediática

Onde vai ser o festival da Eurovisão em 2019?

"No próximo ano em Jerusalém", anunciou Netta Barzilai, a vencedora do Festival Eurovisão da Canção, no palco de Lisboa. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu confirmou-o. Sem surpresas. Esta será a terceira vez que Israel é o país anfitrião e já em 1979 e em 1999 o evento se realizou em Jerusalém. A única diferença este ano é o facto de os Estados Unidos terem reconhecido Jerusalém como capital de Israel e de terem transferido a embaixada de Telavive para esta cidade. Trump trouxe o assunto para a agenda mediática.

E não seria melhor fazer o festival em Telavive?

Apesar de poder escolher qualquer cidade para o evento, para Israel essa questão não se coloca. Jerusalém, do seu ponto de vista, é a capital e o seu simbolismo é enorme. No entanto, Telavive é a capital financeira e um importante centro tecnológico e turístico, conhecida pelo dinamismo cultural, a sua agitada vida noturna e por ser gay f riendly. Não foi por acaso que, no regresso a Israel, Netta Barzilai, escolheu apresentar-se em Telavive. Enquanto Jerusalém é a cidade da tradição, Telavive representa a modernidade e o futuro de Israel.

Como foi em 1979 e em 1999?

Em 1979, dado o clima de tensão na região e o receio de ataques terroristas pela OLP, foram tomadas medidas extraordinárias de segurança. A Turquia já escolhera a concorrente mas, devido à pressão dos estados árabes para que um país muçulmano não participasse, acabou por não se apresentar em Israel. Em 1999, já não houve boicotes pois o clima político era diferente. O festival era um bom momento para promover a nova era de "paz". Após a vitória de Dana International, Jerusalém foi apresentada ao mundo como a cidade da liberdade.

O festival será em Jerusalém, mas onde?

Nas duas vezes em que Israel recebeu a Eurovisão, o festival aconteceu no Centro Internacional de Congressos Binyaney Hauma, que tem capacidade para 3100 pessoas. Mas 20 anos depois, as regras da Eurovisão são mais exigentes e o local deverá ter capacidade para, pelo menos, 10 mil espectadores (e mais 1500 jornalistas). Há duas hipóteses: o Teddy Stadium (que poderá receber 30 mil pessoas e é um espaço ao ar livre - mas que pode ser temporariamente coberto) ou a nova Pais Arena (que poderá receber 15 mil pessoas).

E não há impedimentos religiosos?

Em 2019 as semifinais serão a 21 e 23 de maio e a final a 25 de maio. E isso levanta outras questões. O Lag Baomer, feriado judeu que põe termo aos 33 dias de luto após a Páscoa, começará na noite de 22 de maio e terminará a 23 de maio. E a final acontece num sábado, com ensaios durante o dia, e nessa altura do ano o Shabbat só termina às 20.00. Em princípio não haverá problemas. Em 1979 e 1999 também houve protestos de judeus ultraortodoxos mas verdade é que o festival realizou-se como sempre.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O populismo entre nós

O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.

Premium

João Gobern

Navegar é preciso. Aventuras e Piqueniques

Uma leitura cruzada, à cata de outras realidades e acontecimentos, deixa-me diante de uma data que, confesso, chega e sobra para impressionar: na próxima semana - mais exatamente a 28 de novembro - cumpre-se meio século sobre a morte de Enid Blyton (1897-1968). Acontece que a controversa escritora inglesa, um daqueles exemplos que justifica a ideia que cabe na expressão "vícios privados, públicas virtudes", foi a minha primeira grande referência na aproximação aos livros. Com a ajuda das circunstâncias, é certo - uma doença, chata e "comprida", obrigou-me a um "repouso" de vários meses, longe da escola, dos recreios e dos amigos nos idos pré-históricos de 1966. Esse "retiro" foi mitigado em duas frentes: a chegada de um televisor para servir o agregado familiar - com direito a escalas militantes e fervorosas no Mundial de Futebol jogado em Inglaterra, mas sobretudo entregue a Eusébio e aos Magriços, e os livros dos Cinco (no original The Famous Five), nada menos do que 21, todos lidos nesse "período de convalescença", de um forma febril - o que, em concreto, nada a tinha que ver com a maleita.

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Premium

Ruy Castro

Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.