Qual o plano de May para o brexit? 74% dos britânicos não sabem

Sondagem mostra falta de informação em temas das negociações como imigração e comércio. Londres pressionada por Dublin e Bruxelas para ser ter estratégia mais clara

O primeiro-ministro irlandês definiu ontem bem o sentimento que reina entre os britânicos sobre a posição de Londres em relação ao brexit. "O tempo está a acabar, já passaram 20 meses desde o referendo e ainda não sabemos o que o governo britânico quer que o brexit represente", declarou Leo Varadkar, que esteve ontem em Belfast com Theresa May. "O Reino Unido deve sair a UE em março de 2019. É daqui a pouco mais de um ano e penso que precisamos de clarificação e urgência de Londres".

Uma sondagem do The Independent publicada ontem mostra que 74% dos britânicos dizem que os planos da sua primeira-ministra em relação ao brexit "não são claros" e apenas 17% afirma que percebe as intenções do governo. E esta falta de clareza parece afetar as mais variadas áreas das negociações entre Londres e Bruxelas - 82% dos britânicos dizem nãos saber quais são os planos para a fronteira da Irlanda do Norte, 75% mostram ter o mesmo sentimento quanto à imigração e 74% refere não saber qual é a estratégia comercial de Londres.

De referir ainda que a mesma sondagem revelou que 52% dos eleitores pensam que a economia britânica vai sofrer com a saída da União Europeia, sendo que apenas 26% acha o contrário.

Na sexta-feira, Michel Barnier, o negociador-chefe da Comissão Europeia para o brexit, avisou o Reino Unido que um período de transição pós saída "não é um dado adquirido", dizendo que Londres tinha objeções "substanciais" à oferta da UE e que partes desta não estavam abertas a negociação. "Para ser muito franco, tendo em conta estes desacordos, a transição, neste momento, não é um dado adquirido. O tempo é curto, muito curto, e não temos um minuto a perder se queremos alcançar o acordo", disse.

Falando após o final de mais uma ronda de negociações, Barnier referiu que a integridade do mercado único, o papel do Tribunal da Justiça e a aplicação dos direitos fundamentais dos cidadãos não são negociáveis. Este responsável sublinhou também que o Reino Unido deve aceitar e respeitar todas as regras e condições comunitárias até ao fim do período de transição, uma vez que este foi um pedido seu, assim como as consequências da decisão de abandonar a UE. "As posições europeias, do meu ponto de vista, são justas", defendeu, mostrando-se crítico quanto à intenção do governo britânico de não aplicar o conjunto de normas do período de transição aos cidadãos que cheguem ao país depois de 30 de março de 2019, data da saída oficial do Reino Unido da UE.

Barnier confessou-se ainda surpreendido pelo anseio do governo de Theresa May de ter direito de veto nas novas regras votadas entre a saída oficial da UE e 31 de dezembro de 2020, caso estas lhe sejam desfavoráveis, e de querer pronunciar-se sobre temas de justiça e assuntos internos comunitários. "É o momento de fazer escolhas e esperamos, com expectativa e atenção, quais serão as do governo britânico", realçou.

Já o ministro britânico para o brexit confessou-se surpreendido com as declarações de Barnier sobre o período de transição, tendo em conta o "intenso trabalho que foi feito esta semana". "Estamos à procura de um período limitado em que se mantenha o acesso aos mercados de ambos nos termos atuais", defendeu David Davis.

"Hoje eles reconheceram que é necessária uma maneira de resolver disputas e infrações", prosseguiu o governante. "No entanto, ao mesmo tempo, eles descartaram a insistência do Reino Unido em ter salvaguardas razoáveis para garantir que nossos interesses sejam protegidos. Não é possível ter os dois lados".

Num esforço para clarificar a posição britânica em relação ao brexit, Theresa May e quatro membros do seu governo irão proferir nas próximas semanas um total de seis discursos, noticiou ontem o Financial Times. O ministro das Finanças, Philip Hammond, tido como um principal opositor dentro do governo a um hard brexit não faz parte desta lista de oradores - Theresa May, David Davis, Liam Fox (ministro do Comércio Internacional) e Boris Johnson (ministro dos Negócios Estrangeiros), todos conhecidos como defensores do brexit, e David Lidington (adjunto de May), um pró-europeu.

De acordo com o Financial Times, a escolha de oradores é demonstrativa das tensões sobre o tema brexit existentes dentro do governo de May e do próprio Partido Conservador. O gabinete da primeira-ministra defende que estes seis discursos irão mostrar que o governo é uma frente unida em relação ao futuro do Reino Unido após da saída da União Europeia.

Embora Downing Street negue a existência de divisões dentro do governo e do partido, a verdade é que têm surgido vários nomes dados como potenciais sucessores de Theresa May à frente de ambos. Uma sondagem publicada este domingo no The Independent mostra que Jacob Rees-Mogg, um acérrimo defensor do brexit, está a aumentar de popularidade, sendo agora o segundo favorito (7%) como "melhor primeiro-ministro" se May sair, logo depois de Boris Jonhson (13%).

O crescendo de popularidade do deputado conservador permitiu-lhe ultrapassar nomes mais sonantes como Philip Hammond (5% das preferências dos eleitores), Ruth Davidson (5%), a líder dos conservadores na Escócia, a ministra da Administração Interna, Amber Rudd (4%), e David Davis (3%). Mais de metade dos eleitores (51%) dizem estar insatisfeitos com a liderança de May, com 33% a elogiarem a atuação da primeira-ministra.

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