Putin ordena tréguas em Ghouta. Suspeitas de ataque químico

Os combates serão suspensos diariamente a partir de hoje durante cinco horas por motivos humanitários. Capacetes Brancos denunciam uso de gás de cloro pelas forças de Assad

Vladimir Putin ordenou ontem a instauração a partir de hoje de uma "trégua humanitária" diária em Ghouta Oriental, enclave de forças rebeldes nos arredores de Damasco onde na semana passada morreram pelo menos 521 pessoas na sequência de ataques das forças fieis ao regime de Bashar al-Assad. Esta decisão do presidente russo foi anunciada 48 horas depois de o Conselho de Segurança da ONU ter adotado uma resolução na qual é pedido um cessar-fogo de 30 dias em todo o território sírio.

"Por ordem do presidente russo, e com o objetivo de evitar perdas entre os civis de Ghouta Oriental, uma trégua humanitária quotidiana será instaurada a partir de 27 de fevereiro, das 09.00 às 14.00", referiu o ministro russo da Defesa. Serguei Choigu adiantou que serão criados "corredores humanitários" para permitir a retirada de civis da região, onde os ataques de artilharia do regime sírio continuavam a registar-se ontem, provocando a morte a 17 civis, de acordo com o Observatório Sírio dos Direitos do Homem (OSDH).

De acordo com dados divulgados ontem pelas Nações Unidas, operações militares mataram pelo menos três dezenas de pessoas em Ghouta Oriental nas 48 horas anteriores. "As Nações Unidas mobilizaram-se e estão prontas para apoiar de imediato os comboios de ajuda para várias áreas de Ghouta Oriental assim que as condições o permitirem, bem como centenas de evacuações médicas", disse, por e-mail, Linda Tom, uma porta-voz humanitária da ONU em Damasco.

A organização Capacetes Brancos, os voluntários da Defesa Civil síria, acusou no domingo à noite as forças de Assad de usar gás cloro nos seus mais recentes ataques contra Ghouta Oriental, dando conta, através do Twitter, da morte de uma criança e uma generalizada dificuldade em respirar entre os civis, incluindo dois dos seus membros. A oposição síria fala em pelo menos 18 pessoas que tiveram de receber assistência respiratória no hospital, apresentando sinais consistentes da "exposição a gás de cloro". A França afirmou ontem que a Rússia tem de usar a sua influência junto do governo sírio para garantir o cumprimento do cessar-fogo nacional acordado pela ONU e avisou a Turquia de que as tréguas também se aplicam às suas operações contra os militantes curdos na região de Afrin.

Dois dias após a resolução do Conselho de Segurança da ONU que pede um cessar-fogo de 30 dias em todo o país, o exército sírio e os seus aliados continuaram os ataques contra o enclave rebelde de Ghouta, enquanto a Turquia enviou equipas especiais de polícia para Afrin (Noroeste da Síria) para uma "nova batalha" contra as Unidades de Proteção Popular. "O presidente enfatizou que a trégua humanitária aplica-se a toda a Síria, incluindo a Afrin, e que deveria ser implementada em todos os lugares e por todos sem demora", declarou o Palácio do Eliseu após um telefonema entre Emmanuel Macron e o seu homólogo turco, Recep Tayyip Erdogan. O ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Jean-Yves Le Drian, viaja hoje para a Rússia para tentar encontrar pontos comuns com Moscovo de forma a garantir a implementação do cessar-fogo, adiantaram ontem fontes diplomáticas.

Ao final da manhã, o líder da diplomacia russa, Serguei Lavrov, havia dito que o cessar-fogo na Síria exigido pela ONU só será possível quando todas as partes concordarem nas formas de o aplicar em todas as regiões em guerra no país. "Aqui dificilmente há espaço para interpretações, nem pode haver interpretações sobre a quem se estende a trégua proposta", frisou Lavrov, após um encontro com o seu homólogo português. "O cessar-fogo não afeta de nenhuma maneira as ações levadas a cabo pelo governo sírio, com o apoio da Rússia, contra todos os grupos terroristas", prosseguiu. Augusto Santos Silva, por seu turno, manifestou-se "preocupado e até indignado" pelas notícias de frequentes violações do cessar-fogo.

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