Putin face aos Estados Unidos nas Nações Unidas

A Rússia votou a favor da intervenção para derrubar os talibãs, foi crítica da invasão do Iraque e vetou qualquer resolução contra o regime de Bashar al-Assad. Na Líbia, Medvedev e Putin desentenderam-se.

De 2001 à atualidade, quatro cenários de guerra e posições diversas do homem forte russo quanto aos planos norte-americanos.

Afeganistão

> Os ataques de 11 de setembro de 2001 e a reação dos EUA para perseguir a Al-Qaeda e derrubar o regime talibã no Afeganistão registaram-se quando Vladimir Putin estava há 16 meses na presidência e a braços com a guerra na Chechénia, tendo o presidente russo apoiado a guerra ao terrorismo dos americanos. Após a maioria dos países da Ásia Central ter declarado apoio ao derrube dos fundamentalistas islâmicos, Moscovo juntou-se ao fornecer armas à Aliança do Norte, ao abrir corredores aéreos para ajuda humanitária e ao partilhar informações. Com a queda dos talibãs, votou na ONU a favor da missão de segurança internacional, a ISAF, comandada pela NATO. Mas desde cedo os russos exigiram o fim da presença militar no Usbequistão, Tajiquistão e Quirguistão. E a partir de 2005 exigiram um calendário para a retirada da ISAF.

Iraque

> O contexto é muito diferente. O Iraque é um dos países enumerados por George W. Bush como fazendo parte do "eixo do mal", que patrocinam o terrorismo ou que prosseguem uma política de armas de destruição maciça. O presidente norte-americano defende a doutrina de ataque preventivo e o país a aplicá-lo é o Iraque. No Conselho de Segurança das Nações Unidas, o secretário de Estado norte-americano Colin Powell advoga a urgência de uma guerra contra o regime de Saddam Hussein, tendo denunciado o fabrico de armas químicas e biológicas e uma ligação a Osama bin Laden. A Rússia opôs-se - tal como a França, a China e a Alemanha. Esta última presidia então ao Conselho de Segurança da ONU. Vladimir Putin classificou a invasão de "grande erro político", horas após os primeiros mísseis caírem no Iraque.

Líbia

> O antigo aliado da União Soviética Muammar Kadhafi viu o presidente russo Dmitri Medvedev dar luz verde à zona de exclusão aérea imposta à Líbia em 2011 (ao abster-se da resolução do Conselho de Segurança). A decisão foi tomada para proteger os civis ameaçados por Kadhafi, declarou Medvedev. "O que se passa resulta do comportamento chocante das autoridades da Líbia e dos crimes cometidos contra o próprio povo." Putin, então primeiro-ministro, mostrou-se contra a resolução que permitia proteger os civis "por todos os meios necessários": "Faz lembrar as chamadas medievais para as cruzadas", disse. Um mês depois, Moscovo acusou a NATO de violar o mandato da ONU - os bombardeamentos foram decisivos para o fim do regime e para a morte do ditador. Segundo uma investigação da New Yorker, este foi o momento de viragem de Putin face aos EUA.

Síria

> Maior aliado de Damasco, Moscovo mostrou desde o início que tudo faria para defender os interesses do regime de Bashar al-Assad e os da própria Rússia. A começar pela base naval de Tartus que, apesar de pequena, é de importância geoestratégica para o Kremlin. Daí que desde outubro de 2011 até hoje, os russos vetaram uma dúzia de propostas de resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas. As duas primeiras propostas condenavam as graves violações dos direitos humanos, outras relacionam-se com o uso de armas químicas por parte das forças armadas sírias, como a proposta vetada na terça-feira. Em 2013, Moscovo acordou com Washington que a Síria entregaria todo o arsenal de armas banidas à Organização para a Proibição de Armas Químicas, tendo evitado um bombardeamento norte-americano. Então como agora, a Rússia terá uma última palavra a dizer sobre o futuro daquela região.

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Henrique Burnay

Discretamente, sem ninguém ver

Enquanto nos Estados Unidos se discute se o candidato a juiz do Supremo Tribunal de Justiça americano tentou, ou não, há 36 anos abusar, ou mesmo violar, uma colega (quando tinham 17 e 15 anos), para além de tudo o que Kavanauhg pensa, pensou, já disse ou escreveu sobre o que quer que seja, em Portugal ninguém desconfia quem seja, o que pensa ou o que pretende fazer a senhora nomeada procuradora-geral da República, na noite de quinta-feira passada. Enquanto lá se esmiúça, por cá elogia-se (quem elogia) que o primeiro-ministro e o Presidente da República tenham muito discretamente combinado entre si e apanhado toda a gente de surpresa. Aliás, o apanhar toda a gente de surpresa deu, até, direito a que se recordasse como havia aqui genialidade tática. E os jornais que garantiram ter boas fontes a informar que ia ser outra coisa pedem desculpa mas não dizem se enganaram ou foram enganados. A diferença entre lá e cá é monumental.