Putin vai "reabrir" Chikhany. A cidade onde era fabricado o Novitchok

A cidade russa, situada perto do rio Volga, onde cientistas soviéticos desenvolveram o agente neurotóxico Novitchov, vai ser "reaberta" em 2019

A "cidade fechada" de Chikhany na Rússia onde os antigos cientistas soviéticos desenvolveram o agente nervoso Novitchov, utilizado alegadamente contra ex-espiões no Reino Unido, vai ser reaberta em 2019 anuncia um decreto do Kremlin.

"Vladimir Putin assinou na quarta-feira um decreto que suprime o estatuto de entidade administrativa fechada para a nossa cidade", situada perto do rio Volga, a 750 quilómetros a sudeste de Moscovo, disse à France Presse Ioulia Erchova, porta-voz da administração local.

O decreto presidencial estabelece um prazo de seis meses às autoridades da administração local para a "abertura" de Chikhany, onde ainda vivem 5500 pessoas

"A nossa fábrica que pertence ao gabinete especial do Instituto de Investigações químicas e de tecnologias orgânicas com sede em Moscovo continua a funcionar mas não sabemos o que vai acontecer após a abertura de Chikhany", acrescentou a porta-voz recusando revelar em concreto que substâncias são produzidas na instalação.

O decreto presidencial foi publicado no 'site' oficial do governo russo e estabelece um prazo de seis meses às autoridades da administração local para a "abertura" de Chikhany, onde ainda vivem 5500 pessoas.

O acesso às "cidades fechadas" continua proibido aos estrangeiros e os russos só podem aceder às localidades referenciadas através de uma autorização especial

Atualmente ainda existem cerca de quatro dezenas de "cidades fechadas", um estatuto herdado do regime soviético e que impunha restrições de acesso, movimento e de residência.

O acesso às "cidades fechadas" continua proibido aos estrangeiros e os russos só podem aceder às localidades referenciadas através de uma autorização especial.

Caso Skripal

Chikhany está a ser alvo das atenções mediáticas por causa das declarações de dois cientistas russos que afirmaram ter trabalhado no Programa Novitchok nos anos 1970 e 1980 desenvolvido na cidade situada perto do Volga.

Segundo o governo britânico, o gás nervoso Novitchok foi utilizado para envenenar, no passado mês de março, o ex-agente duplo russo Serguei Skripal e a filha Julia Skripal.

Em julho, o assunto conheceu desenvolvimentos devido ao envenenamento de um casal britânico que se encontrava a pouco mais de dez quilómetros do local onde os Skripal foram atacados.

Os dois cientistas russos reconhecerem ter estado envolvidos nas pesquisas e desenvolvimento do gás nervoso Novitchok.

Leonid Rink, um dos cientistas, acrescentou que "um vasto número de especialistas trabalhou no Novitchok na cidade de Chikhany e em Moscovo".

Por outro lado, Vil Mirzaianov, encarregado dos serviços de contraespionagem no laboratório de Chikhany emigrou para os Estados Unidos em 1995 tendo revelado a existência de Novitchok.

Mirzaianov divulgou a fórmula química do gás nervoso num livro que foi publicado em 2008.

O governo de Moscovo recusa qualquer implicação nos casos de envenenamento ocorridos no Reino Unido e nega que a substância tenha sido fabricada na cidade Chikhany.

Entretanto, a agência de notícias britânica Press Association, que cita fontes ligadas ao processo, noticia esta quinta-feira que a polícia britânica acredita ter identificado cidadãos russos como suspeitos do ataque contra o ex-agente dos serviços secretos Serguei Skripal e da filha com o gás nervoso.

"Os investigadores acreditam ter identificado os suspeitos do ataque com Novitchok através de câmaras de vigilância", disseram as mesmas fontes à agência de notícias britânica Press Association.

As imagens captadas em Salisbury na zona do ataque contra os Skripal foram comparadas com "os documentos de pessoas" que entraram no Reino Unido na mesma altura.

"Os investigadores têm a certeza de que os suspeitos são russos", acrescentou a fonte da Press Association.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O populismo entre nós

O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.

Premium

João Gobern

Navegar é preciso. Aventuras e Piqueniques

Uma leitura cruzada, à cata de outras realidades e acontecimentos, deixa-me diante de uma data que, confesso, chega e sobra para impressionar: na próxima semana - mais exatamente a 28 de novembro - cumpre-se meio século sobre a morte de Enid Blyton (1897-1968). Acontece que a controversa escritora inglesa, um daqueles exemplos que justifica a ideia que cabe na expressão "vícios privados, públicas virtudes", foi a minha primeira grande referência na aproximação aos livros. Com a ajuda das circunstâncias, é certo - uma doença, chata e "comprida", obrigou-me a um "repouso" de vários meses, longe da escola, dos recreios e dos amigos nos idos pré-históricos de 1966. Esse "retiro" foi mitigado em duas frentes: a chegada de um televisor para servir o agregado familiar - com direito a escalas militantes e fervorosas no Mundial de Futebol jogado em Inglaterra, mas sobretudo entregue a Eusébio e aos Magriços, e os livros dos Cinco (no original The Famous Five), nada menos do que 21, todos lidos nesse "período de convalescença", de um forma febril - o que, em concreto, nada a tinha que ver com a maleita.