Putin anuncia retirada da Síria, mas estende influência na região

Moscovo mantém presença em bases sírias e quer receber encontro do regime de Damasco com opositores. No Cairo e em Ancara, reforça posição e ultima negócios

Setenta mil quilómetros quadrados de território sírio libertado e 32 mil terroristas abatidos nos últimos sete meses. Foi com estes números alardeados pelo comandante das forças armadas russas na Síria, Sergei Surovikin, que Vladimir Putin foi recebido ontem na base aérea de Hmeimim. A visita surpresa do presidente russo, incluída na primeira de três etapas pelo Médio Oriente num só dia, serviu para anunciar que "parte significativa" do contingente militar vai regressar a casa.

"O objetivo da luta contra criminosos armados na Síria, que exigia meios de grande envergadura das forças armadas, foi alcançado na sua totalidade e brilhantemente. Em cerca de dois anos, as forças armadas russas, em colaboração com o exército sírio, derrotaram o mais perigoso grupo de terroristas internacionais. Por isso, tomei a decisão de que uma parte significativa do contingente militar na Síria regresse à Rússia", declarou, perante as suas tropas.

Na quinta-feira, as forças armadas russas haviam anunciado a "libertação total" do território sírio do Estado Islâmico, se bem que ainda persistam várias bolsas de jihadistas espalhadas pela Síria, como o próprio presidente reconheceu ontem. Há três semanas, o presidente iraniano Hassan Rouhani já tinha declarado a vitória sobre o Estado Islâmico.

Segundo o comandante Surovikin, 23 aviões e dois helicópteros acompanham a saída de pessoal , que é composto por uma unidade de forças especiais, uma unidade antiminas, médicos do hospital de campanha ou polícias militares, sem especificar que forças permanecem na Síria. Putin informou que a base aérea situada na província de Latáquia e a base naval de Tartus vão manter-se em mãos russas. O líder russo disse que o seu país nunca esquecerá os mortos causados pelo terrorismo e avisou os grupos islamitas: "Se os terroristas voltarem a levantar a cabeça atacaremos com uma força nunca antes vista."

O presidente sírio Bashar al-Assad recebeu o homólogo russo na base aérea e, como há três semanas, quando voou até à residência presidencial de Sochi, para se reunir com Putin, voltou a mostrar-se agradecido da forma mais efusiva que o protocolo permite. "Os sírios nunca esquecerão o que os militares russos fizeram. O seu sangue misturou-se com o sangue dos mártires do exército sírio", afirmou.

Para Vladimir Putin estão agora "reunidas as condições para um acordo político sob a égide das Nações Unidas". Nessa perspetiva, o russo planeia a realização de um novo encontro - desta feita na Rússia - que reúna o governo sírio e oposição para se tecer as bases de uma nova constituição.

O porta-voz da oposição síria em Genebra, Yahya Aridi, não demorou a reagir: "Qualquer passo, qualquer iniciativa que possa contribuir para a paz na Síria (...) é bem-vinda." Já o anúncio da saída de militares russos foi visto com ceticismo a Ocidente. "Os comentários russos sobre a retirada das suas forças nem sempre correspondem a uma verdadeira redução de tropas, nem afetam as prioridades norte-americanas na Síria", disse o porta-voz do Pentágono, Eric Pahon. Um diplomata europeu que não quis ser identificado comentou à Reuters: "Já vimos esses anúncios antes, que acabam por ter menos significado do que poderia parecer inicialmente. A contribuição mais significativa que a Rússia pode fazer para promover a paz na Síria é pressionar o regime de Assad a se envolver seriamente em Genebra [nas conversações de paz]."

Política e negócios

Na segunda paragem do dia, no Cairo, Putin advertiu que quaisquer passos dados no dossier israelo-palestiniano sem um acordo entre as partes são contraproducentes e desestabilizadores. Declarações do presidente na capital egípcia, ao lado do líder egípcio, Abdel Fatah al-Sisi. A viagem ficou marcada pela assinatura de um contrato para a construção de uma central nuclear no Egito, um projeto no valor de 25 mil milhões de euros. Foi discutida a utilização de bases militares pela força aérea russa, bem como a criação de uma zona industrial russa, investimento no valor de 6 mil milhões de euros.

A última paragem do dia de Putin foi Ancara e também teve na agenda a Síria, Jerusalém e negócios. No oitavo encontro deste ano com o anfitrião Recep Erdogan, foi negociada a venda do sistema de defesa antiaéreo S400, que Moscovo instalou na Síria.

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