Putin acusa EUA de tratarem Rússia como tratam o Irão

Falou três horas e 42 minutos. E foi muito crítico para quem fala de conluio entre a campanha de Donald Trump e o Kremlin.

Desfeita a dúvida sobre nova candidatura à presidência da Federação Russa, Vladimir Putin dedicou-se ontem na habitual conferência de imprensa anual em Moscovo, a ridicularizar a oposição, envolvendo-se numa troca de palavras com Ksenia Sobtchak, a filha do antigo presidente da Câmara de Sampetersburgo, Anatoli Sobtchak, onde o dirigente do Kremlin iniciou a carreira política na primeira metade dos anos 90.

Mas se as questões internas predominaram na conferência de imprensa, que durou três horas e 42 minutos, as questões internacionais tiveram também lugar de destaque.

Da guerra civil na Síria à queda, em 2010, do avião em que seguia o então presidente da Polónia, originando uma resposta irritada de Putin, que se limitou a dizer "estar na hora de virar a página". Os polacos responsabilizam os russos pela morte de Lech Kaczynski e de outros altos dirigentes políticos e militares que seguiam no Tupolev 154, quando este se despenhou.

Se a queda do Tupolev 154 teve o condão de irritar Putin, que mudou rapidamente de assunto, as notícias sobre o envolvimento russo nas presidenciais americanas de 2016, levaram-no a tecer longos e elaborados comentários. No tema, Putin teve palavras duras sobre o comportamento de alguns setores da sociedade e das instituições americanas. Foi nomeado um procurador especial para investigar a possível e furtiva influência russa na campanha eleitoral e o Congresso procura determinar se houve alguma forma de conluio entre a campanha de Donald Trump e círculos políticos ou outros da Rússia.

"Espiomania"

Putin chegou a comparar o modo como hoje se fala do seu país nos EUA ao modo como é tratado o Irão ou a Coreia do Norte. Notou que as sanções impostas à Rússia são muito semelhantes às que visam os regimes iraniano e norte-coreano, o que classificou como "bizarro", atendendo a que Washington espera que Moscovo influencie estes dois regimes num rumo menos anti-americano.

Para Putin, o que se pretende com as investigações sobre "factos inventados" é "minar a legitimidade do presidente Trump" e impedir que opere a normalização das relações". O dirigente do Kremlin, que disse tratar o homólogo americano pelo primeiro nome tal como Trump o trata a ele, insistiu na ideia de que "espiomania" nos EUA "mina as relações bilaterais".

Falando sobre as presidenciais de 2018, em que se apresenta como independente, e na resposta a uma pergunta de Ksenia sobre a interdição que pesa Alexei Navalny em se apresentar a estas eleições, Putin comparou o opositor a Mikhail Shaakashvili. O antigo presidente da Geórgia, que chegou ao poder no quadro de um processo de contestação pacífica, hoje está envolvido na política ucraniana, exigindo a demissão do presidente Petro Porochenko. "É isso que pretende - termos dezenas de Saakashvilis à solta nas ruas do país? Quer novas tentativas de golpes de Estado? Já passámos por isso tudo", afirmou o dirigente russo, referindo que a "esmagadora maioria dos nossos cidadãos não o quer".

Ainda na resposta a Ksenia, que formalizou recentemente a sua candidatura às eleições do próximo ano, apresentando-se como porta-voz de "todos aqueles que estão contra", Putin garantiu que "o nosso ambiente político deve ter mais competição como já sucede no campo económico" e "quanto mais cedo, melhor". Mas o dirigente russo, no poder de forma ininterrupta desde 2000, ora como chefe do Estado ora como primeiro-ministro, disse não ser sua a tarefa de "ajudar os opositores".

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