Puigdemont garante ter caído numa armadilha de Madrid

Em Genebra, ex-presidente da Generalitat disse arrepender-se de ter suspendido a independência. Em Barcelona, manifestação reuniu milhares de catalães não independentistas

Milhares de catalães desfilaram ontem ao princípio da tarde por Barcelona para reivindicar o "fracasso do processo independentista", pedir um governo catalão "para todos", assim como "unidade e seny", - uma palavra catalã que se pode traduzir por sensatez. Enquanto isso, em Genebra, o ex-presidente da Generalitat Carles Puigdemont continuava os esforços para internacionalizar a questão, dizendo arrepender-se de suspender a declaração unilateral de independência e admitindo ter caído na "armadilha" de Madrid.

É a segunda vez que o ex-presidente sai de Bruxelas, onde se autoexilou para não responder às acusações de rebelião, sedição e peculato na organização do referendo de 1 de outubro e consequente declaração unilateral de independência. As mesmas acusações que mantêm dois dos seus antigos membros do governo detidos em Madrid. "Uma demonstração de normalidade democrática em Espanha seria deixarem sair os presos e que nós pudéssemos voltar", disse Puigdemont no debate no Festival de Cinema e Fórum de Direitos Humanos na Suíça, após a projeção de um documentário sobre o processo independentista.

Ao jornal Tribune de Genève , Puigdemont disse estar arrependido de ter suspendido a declaração de independência, alegando que o fez porque lhe foi sugerido por Madrid para abrir a porta ao diálogo. "Lamentavelmente, era uma armadilha, já que não houve nenhuma reação positiva do governo. Se pudesse voltar atrás não suspenderia a proclamação de independência", disse. Já ao Le Temps considerou "inusual" o facto de Madrid ter negociado com os bascos da ETA, mas ser incapaz de dialogar com os catalães. "É inaceitável."

Horas antes, convocados pela Sociedade Civil Catalã (SCC), os catalães tinham-se saído à rua. "A Catalunha merece um governo sem imputados, sem rebelião e sem corrupção", disse o líder do Ciudadanos, Albert Rivera, que desfilou na frente da manifestação em Barcelona. "Nós queremos um governo para todos os catalães, não apenas para os independentistas. Um governo que deixe finalmente para trás o pesadelo do processo separatista", indicou Alex Ramos, presidente da SCC. Esta associação estimou em 200 mil os presentes, mas segundo a polícia de Barcelona não foram mais de sete mil.

Ao lado de Rivera desfilou o ex-primeiro-ministro francês Manuel Valls, que nasceu em Barcelona. "A Europa precisa da Espanha tal como está, unida. Romper os estados e fazer uma Europa das regiões num mundo globalizado com grandes potências é acabar com o projeto europeu", disse à Catalunya Ràdio, rejeitando a hipótese de uma medição europeia para resolver a situação. Valls disse ainda estar convencido de que, em França, nunca seria aceite um referendo independentista e que se houvesse um processo separatista, o governo atuaria e os responsáveis "seriam condenados pela justiça francesa".

A situação política está bloqueada na Catalunha desde as eleições de 21 de dezembro, que voltaram a dar aos partidos independentistas a maioria no Parlamento catalão. Contudo, com os seus dirigentes exilados ou detidos, estes partidos não conseguiram ainda eleger um novo presidente da Generalitat. O Ciudadanos, que venceu as eleições catalãs mas não tem votos para governar, está entretanto à frente das sondagens em Espanha. Segundo o estudo da Gad3, para o La Vanguardia, o partido de Rivera tem 27,3% de intenção de voto, contra 23,8% do PP de Mariano Rajoy. Os socialistas de Pedro Sánchez têm 22,1%, enquanto o Unidos Podemos de Pablo Iglesias fica-se pelos 16,7%.

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