Puigdemont diz que "gostaria muito" de vir a Portugal

Ex-presidente do governo catalão regressou este sábado à Bélgica. Deixou recados a Pedro Sánchez, pediu a libertação dos chamados presos políticos e manifestou a vontade de fazer um périplo por países da UE

O líder independentista assumiu este sábado em Waterloo, na Bélgica, que "gostaria muito" de incluir Portugal na lista de um possível périplo pela Europa.

"Portugal é um grande país, gostaria muito", disse em declarações ao DN, no final de um encontro/comício, naquela cidade da região francófona da Bélgica, admitindo que, nesta fase, "ainda não tem planeada" uma tal visita.

Carles Puigdemont referiu-se ainda a Portugal como um país "com uma grande visão do mundo, que admira muito", deixando porém por esclarecer se os seus líderes estão entre os que critica, quando se diz desapontado com o "silêncio" da Europa.

"Fiquei muito desapontado com o senhor [Jean-Claude] Juncker e com outros líderes europeus, não por causa das opiniões deles sobre a independência da Catalunha, mas pelo silêncio a propósito das violações dos direitos fundamentais, naquela relevante parte da União Europeia", disse, frisando no entanto que "não espera que o governo de um qual quer país, seja qual for, nem mesmo a Bélgica, se envolva numa questão que não lhes diz respeito".

"Eles têm uma opinião, dentro do seu país. Mas, sobretudo, além das ideias que tenham sobre a República Catalã, há um compromisso muito claro, que conheço desde o início na Bélgica e conheci muito claramente na Alemanha, que é o compromisso com a democracia, com o verdadeiro Estado de Direito e pelos princípios fundamentais da democracia", disse.

O ex-presidente do governo catalão prometeu "continuar a viagem à volta da Europa", vincando que a ideia é viajar até ao último recanto do nosso continente, para defender a causa justa do povo catalão, a causa da democracia, da liberdade e da autodeterminação", agindo de acordo com o estatuto de "homem livre".

"Vou agir no quadro dessa liberdade, que a União Europeia me dá, de me poder deslocar, falar, exprimir-me. Eu quero agir como isso que sou, um homem livre, com os meus ideais políticos, com os meus deveres e sem a necessidade de solicitar asilo político", disse, vincando que é "um europeu livre, não apenas em todo o espaço da União Europeia, como em todo o mundo, exceto em Espanha".

Waterloo, Cava e independência

Carles Puigdemont insistiu este sábado na "libertação de todos os presos políticos", em Espanha, bem como a autorização de "regresso a casa dos políticos exilados".

O antigo presidente falava a partir da varanda da denominada "casa da democracia", onde se tinha instalado em fevereiro deste ano, pouco antes de se deslocar a Helsínquia, na Finlândia, e de ser detido numa área de serviço, no norte da Alemanha.

O discurso era aguardado por várias dezenas de apoiantes catalães em Waterloo e até por alguns vizinhos que assistiam com curiosidade. "Haja alguma coisa que nos traga animação ao "quartier" (bairro)", comentou um dos moradores, com o DN. "Isto é muito sossegado, mas o que precisamos aqui é de algum "vin" espanhol".

Não será mais Cava (o espumante da Catalunha)? "Ah, "Oui", Cava, gostamos muito de Cava. Conhecemos muito bem, porque bebemos". A conversa ganha um tom sério, quando a pergunta é sobre a independência. Sendo uma questão que não é alheia à Bélgica, o que lhe parece quando uma parte do país se quer desintegrar da outra? "Isso... eu não percebo. "Pourquoi on ne peut pas tous vivre ensemble?" (porque é que não podemos todos viver juntos?).

Houve, porém, quem viesse da Holanda, "de propósito, para receber Puigedemont, o presidente legítimo da Catalunha", como o caso de Miquel Marzabal Galano, um catalão que escolheu Amesterdão para desenvolver o seu trabalho como artista plástico. Para ele o regresso de Puigdemont à liberdade "este é um pequeno passo na independência", já que "por agora, continua tudo muito encalhado".

Outra das apoiantes, imigrante "há mais de 25 anos" afirmou ao DN que no dia do referendo sobre a independência de uma república catalã, a 01 de outubro de 2017, viajou para a Catalunha, para acompanhar a mãe à mesa de voto.

"Ela votava numa escola da periferia de Barcelona onde esteve tudo calmo, mas foi uma tensão todo o dia, ora diziam que vinha a polícia e não se podia votar, ora diziam que já não vinha e já se podia votar, que tensão", comentou, recordando o dia em que grupos anti-motim da Guarda Civil espanhola atacaram à bastonada - e até com recurso a balas de borracha - os eleitores que votavam num referendo declarado inconstitucional pela justiça de Espanha.

"É por isso que estou hoje aqui, pela autodeterminação do nosso povo. Queremos a independência desde que nascemos e vamos tê-la", disse.

Apoio a Sánchez não é "cheque em branco"

No dia em que regressou à Bélgica, Carles Puigdemont, que falara à imprensa de manhã em Bruxelas, deixou um sério aviso ao atual primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez: o apoio dos deputados catalães à moção de censura com que o socialista derrubou o governo do PP de Mariano Rajoy "não foi um cheque em branco".

O ex-presidente da Generalitat pôde regressar à Bélgica depois de o juiz espanhol Pablo Llarena ter retirado o mandado de captura europeu contra si. Isto depois de a justiça alemã ter recusado extraditar Puigdemont para Espanha com base nas acusações de rebelião e sedição, algo que o poderia levar à prisão durante 30 anos, mas apenas pelo crime de gestão danosa. O juiiz criticou, inclusivamente, a "falta de compromisso" dos seus colegas alemães.

Agora que a Catalunha recuperou a autonomia, com o levantamento do artigo 155.º da Constituição espanhola, desde que Quim Torra - fiel de Puigdemont - tomou posse como líder da Generalitat, o ex-presidente catalão começou a falar em cobrar a Sánchez o apoio prestado pelos independentistas para derrubar Rajoy.

Sánchez, que governa em minoria um governo apenas do PSOE, depende do apoio de outros partidos para aprovar o que quer que seja. Mas, até agora, o primeiro-ministro espanhol sempre disse que não aceita falar de autodeterminação da Catalunha porque isso não está previsto na Constituição de Espanha.

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