Presidente para uns, razão de combate para outros, Le Pen marca 1.º de Maio agitado em Paris

A menos de uma semana da segunda volta, as preferências dos franceses dividem-se entre o voto em Marine Le Pen e a oposição firme a tudo o que representa a Frente Nacional.

Mais de uma semana depois da primeira volta das eleições, a frente republicana francesa saiu à rua para se manifestar contra a Frente Nacional. Não tanto a favor de Emmanuel Macron, mas contra a possibilidade de ter Marine Le Pen como a próxima presidente do país. Horas antes, a poucos quilómetros de Paris, a líder do partido de extrema-direita fez o seu último comício na capital. Para quem lá esteve, Le Pen é a presidente que a França precisa.

Com uma tradição vincada em França, o feriado do 1.º de Maio serviu para as mais diversas manifestações políticas e sociais. De um lado, Marine Le Pen falou aos parisienses com a moderação que tem caracterizado os seus discursos nesta última fase da campanha presidencial, sem mencionar a saída do euro - o partido propõe agora uma moeda nacional e uma moeda internacional, com o número dois de Le Pen, Philippot a prometer que os franceses vão comprar baguetes em francos daqui a um ano -, dizendo que os estrangeiros são bem-vindos e alertando para os perigos de ter "o maior inimigo do povo, o mundo da finança", leia-se Macron, no Eliseu. Mas com menos de 5% de votos em Paris na primeira volta, o partido não encheu o centro de exposições de Villepinte, nos arredores da capital francesa.

Mesmo sem sala cheia, os gritos de "vamos ganhar" e "nós estamos em casa" (por oposição aos imigrantes que vêm para França) fizeram-se ouvir. Estes cânticos são habituais para Franc, um parisiense de 48 anos que vota Frente Nacional há 30. "Voto Frente Nacional porque amo visceralmente o meu país, mas acho que está completamente decrépito", disse ao DN. Agradou-lhe a mudança entre Jean-Marie Le Pen e Marine Le Pen porque agora o partido "está mais tranquilo" e recusa que o partido seja rotulado de racista. "Basta olhar para a sala. Há pessoas de todas as cores e de todas as religiões. Não podemos é acolher toda a gente e esse é o problema", conclui.

A constatação tem razão de ser. Alguns metros à frente, Marie, filha de pais vindos das antigas colónias francesas em África, está com um grupo de amigos. "Não votei Le Pen na primeira volta, mas votei no outro extremo. Estou aqui agora pela França, quero alguém que defenda a cultura francesa. Sou professora e pergunto-me o que é que vou transmitir aos meus alunos", afirma a professora vinda de Lille especialmente para este evento. A missão da Frente Nacional tem-se centrado em atrair eleitores que tal como Marie votaram na extrema-esquerda na primeira volta e recusam votar em Macron.

Do lado da organização do evento está Davy Rodriguez De Oliveira, luso-descendente (com uma costela espanhola) e número dois da juventude da Frente Nacional. Ter militado previamente na Frente de Esquerda (força liderada por Jean-Luc Melénchon) e ser filho de pais imigrantes não é uma contradição para este jovem de 23 anos. "Há muita gente aqui que veio da esquerda tal como eu. A Frente Nacional é um conjunto de pessoas que quer proteger a nossa civilização, especialmente contra Emmanuel Macron que representa o liberalismo mais absurdo e mais violento", afirma o jovem formado nos bancos da Sciences Po, tal como Macron.

Mas estas realidades são irreconciliáveis com o voto na Frente Nacional para quem se manifestava na Place de la Republique contra a Frente Nacional. Através de várias iniciativas que foram surgindo nas redes sociais, ao tradicional desfile do 1º de Maio, juntou-se uma manifestação de bloqueio à Frente Nacional que juntou centenas de pessoas no centro de Paris. Ao #LePenNON, hashtag escolhida para a oposição à candidata de extrema-direita nas redes sociais, juntaram-se bandeiras europeias, cartazes e palavras de ordem que apelavam contra a abstenção na segunda volta.

"Já nem falo de projetos políticos ou questões económicas. Estamos a bater-nos pelos nossos valores e quando eles estes estão em causa, é preciso lutar. Sei que vai haver uma abstenção de protesto, mas isso põe-nos em perigo. Nada está ganho", disse ao DN Magali, parisiense de 31 anos , enquanto esperava que a manifestação arrancasse até à Bastilha. Magali votou Jean-Luc Mélenchon na primeira volta, mas diz que votar em Macron não é sequer uma opção, é uma obrigação porque votaria "sempre" contra Le Pen. O candidato da extrema-esquerda não apoiou nenhum dos candidatos, deixando ao critério dos seus eleitores (quase 20% da primeira volta) quem apoiar na segunda volta. Segunda mais recente sondagem Ipsos, Macron ganhará a segunda volta com 62% dos votos, mas 29% dos eleitores de Melénchon ainda estão indecisos.

A decisão de transferir o voto de Benoît Hamon, escolha da primeira volta, para Macron também é óbvia para Mallorie e Camille. As duas jovens de 26 anos são namoradas e pretendem casar-se daqui a pouco tempo. A vitória da Frente Nacional pode pôr em perigo os seus planos. "Temos medo de tudo, haverá mais desigualdade, especialmente contra as minorias. Nós podemos ser diretamente afetadas caso haja a revogação do casamento entre pessoas do mesmo sexo", afirma Mallorie, afirmando que foi a manifestação de 21 de abril de 2002 contra Jean-Marie Le Pen que a fez despertar pela primeira vez para a política e a fez inscrever-se mais tarde no Partido Socialista. "Estamos aqui para dizer que o que se passou na primeira volta não é normal e que a Frente Nacional não se pode banalizar", concluiu a jovem.

Essa é também a opinião da maior parte dos sindicatos franceses que apelaram ao voto no concorrente de Marine Le Pen para impedir que a Frente Nacional chegue ao poder. A manifestação ficou ainda marcada por um incidente causado por cerca de 150 encapuzados, que se crê pertencerem a um grupo anarquista. o lançamento de cocktails Molotov por parte dos manifestantes levou à utilização de gás lacrimogéneo por parte das forças de forças de segurança. Quatro polícias ficaram feridos nos confrontos.

Do seu lado, Macron promoveu também um comício em Paris tendo adiantado à BBC que o perigo da saída da França da União Europeia é real caso não haja "reformas profundas" no projeto europeu. No entanto, recusou voltar atrás na lei do trabalho - tal como tinha sido pedido por Melénchon - e está cada vez mais ao ataque em relação à Frente Nacional, dizendo que o partido "é anti-França". Macron e Le Pen encontra-se agora na quarta-feira para o último debate das presidenciais.

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Anselmo Borges

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