Presença da Coreia do Norte ainda incerta nas Olimpíadas

Pyongyang respondeu positivamente a proposta para negociações com Seul. Mas permanecem incógnitas sobre participação.

Coreia do Norte confirma presença de uma delegação nas negociações agendadas para a próxima semana com a Coreia do Sul, para discutir a participação nas Olimpíadas de Inverno em fevereiro e "outras questões"; Seul e Washington concordam em adiar manobras militares que iriam coincidir com o período das provas desportivas - tudo parece caminhar para uma real redução das tensões na península coreana. Mas ontem surgiu uma interrogação suscetível de pôr em causa esta perspetiva e, ao mesmo tempo, revelar as reais intenções do regime de Pyongyang.

A interrogação prende-se com as sanções em vigor contra a Coreia do Norte e a extensão destas, que abrangem praticamente todas as áreas, à exceção de "propósitos humanitários". Desde logo, isto significaria que a generalidade dos altos dirigentes de Pyongyang, todos eles na lista de sanções do Conselho de Segurança das Nações Unidas, não poderia viajar para Pyeongchang, onde decorre a maioria das provas, escrevia ontem o diário Chosun Ilbo. O que poderia ser pretexto para um recuo norte-coreano. Da elite dirigente, apenas Kim Yeo-jong, irmã do líder do regime, Kim Jong-un, não é alvo de sanções, escrevia o mesmo jornal.

A viagem - e os custos - dos atletas norte-coreanos é também outro problema. A companhia aérea norte-coreana, Air Koryo, é alvo de sanções e não pode realizar voos comerciais para a Coreia do Sul. O governador da província onde decorrem os Jogos ofereceu-se para os transportar num navio de cruzeiro e custear a permanência em Pyeongchang. O que levanta outro problema: uma participação em provas desportivas não se enquadra no conceito de "propósitos humanitários", com elementos do governo de Seul a mostrarem alguma reticência sobre o modo como a questão pode ser ultrapassada. A própria viagem dos atletas encerra problemas. O recurso a um navio de cruzeiro poderia significar que a empresa sua proprietária passaria a ser alvo de interdição de navegar para portos dos EUA e do Japão. Talvez, por isso, já foi sugerido que, num gesto inédito, a delegação de Pyongyang entrasse no Sul através da zona desmilitarizada. A opção restante seria uma viagem através da China, indica o mesmo diário.

Finalmente, a questão dos custos da delegação de Pyongyang. Segundo o Chosun Ilbo, o Comité Olímpico Internacional estaria disponível para providenciar verbas nesse sentido e Seul estará a estudar formas de custear a presença dos atletas do Norte, sem que isso possa ser interpretado como um apoio financeiro a Pyongyang. No passado, o Norte ameaçou boicotar competições desportivas no Sul, se este não pagasse a estada dos seus atletas.

As interrogações surgidas sobre a presença do Norte nas Olimpíadas de Inverno (tema das negociações na próxima terça-feira em paralelo com "outras questões", como indicou ontem um porta-voz do Ministério para a Unificação, em Seul) coincidiram com o anúncio de que Pequim vai endurecer as restrições nas relações comerciais com Pyongyang. Nomeadamente, reduzindo as exportações de petróleo e também as importações que realiza do Norte. Ao mesmo tempo, nos EUA e no Japão, insistia-se que a pressão vai manter-se sobre o regime de Kim, apesar dos mais recentes acontecimentos.

Ler mais

Exclusivos

Premium

João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.

Premium

Rogério Casanova

Três mil anos de pesca e praia

Parecem cagalhões... Tudo podre, caralho... A minha sanita depois de eu cagar é mais limpa do que isto!" Foi com esta retórica inspiradora - uma montagem de excertos poéticos da primeira edição - que começou a nova temporada de Pesadelo na Cozinha (TVI), versão nacional da franchise Kitchen Nightmares, um dos pontos altos dessa heroica vaga de programas televisivos do início do século, baseados na criativa destruição psicológica de pessoas sem qualquer jeito para fazer aquilo que desejavam fazer - um riquíssimo filão que nos legou relíquias culturais como Gordon Ramsay, Simon Cowell, Moura dos Santos e o futuro Presidente dos Estados Unidos. O formato em apreço é de uma elegante simplicidade: um restaurante em dificuldades pede ajuda a um reputado chefe de cozinha, que aparece no estabelecimento, renova o equipamento e insulta filantropicamente todo o pessoal, num esforço generoso para protelar a inevitável falência durante seis meses, enquanto várias câmaras trémulas o filmam a arremessar frigideiras pela janela ou a pronunciar aos gritos o nome de vários legumes.