"Porto Rico parece que foi atingido por uma bomba"

Eneida delValle é produtora do National Geographic, vive em Nova Iorque, mas nasceu em Porto Rico, onde tem grande parte da família. Quando o furacão Maria deitou abaixo as comunicações e o cenário fez temer pelo pior, Eneida conseguiu um voo para regressar à ilha e tentar encontrar os familiares. Foi à procura da avó, dos tios e dos primos. Encontrou um rasto de destruição que não pensava ser possível.

Qual era o cenário quando chegou?

Assim que saí do aeroporto era só água, corpos, o cheiro era horrível. Já não há árvores, não há animais, nada está limpo. Parece que Porto Rico foi atingido por uma bomba. Os corpos enterrados no cemitério foram expostos pelas inundações, o sistema de esgotos está a transbordar, há galinhas afogadas por todo o lado, mosquitos. Não é apenas um desastre ambiental, é o risco de epidemias.

Como foi do aeroporto para ver a sua família?

De táxi. Perguntei ao condutor se tinha água potável e disse que não, que estava a racionar. Dei-lhe duas garrafas de água e ele começou a chorar. Não há água potável em lado nenhum, as pessoas andam a beber água da chuva.

Onde é que vão buscar gasolina?

As bombas de gasolina estão a racionar o combustível, que foi o que causou aquelas filas gigantes, por dificuldades de pôr os camiões a reabastecer as bombas. A minha prima esteve quatro horas na fila e quando estava a chegar a sua vez a gasolina acabou. Teve de ir para outra estação esperar mais três horas.

Qual era a situação quando chegou a casa da sua família?

Na casa da minha avó, parte do edifício está destruído, as janelas explodiram. O apartamento da vizinha está inundado. Quando entrei, havia muita gente nas escadas porque as fechaduras não estavam a funcionar e as portas tinham de ficar abertas. Estavam lá de guarda, é uma comunidade idosa, têm receio.

E comida?

A minha avó já não tinha nenhuma. Ela está no sexto andar, para pessoas mais velhas e doentes subir escadas é difícil. Os idosos de cadeira de rodas estão presos nos apartamentos porque não conseguem ir a lado nenhum. E já estão assim há uma semana.

Ou seja, sem possibilidade de irem buscar comida, água ou ajuda?

Sim. O problema é que o furacão Irma aconteceu antes do Maria e deitou abaixo a eletricidade. Já lá vão três semanas. Quando cheguei ela não tinha água, comida ou eletricidade. Bati à porta e quase teve um ataque cardíaco. Ela e os vizinhos estavam a racionar a água.

Eneida DelValle

Conseguiu levar provisões?

Não tinha a certeza se ia arranjar um táxi, por isso ia preparada para caminhar pela autoestrada desde o aeroporto. Como trabalho com o NatGeo tenho equipamento de caminhada e levei uma mochila de montanha que dá para 25 quilos. Pus roupas, comida e água. Felizmente havia táxi, porque teria sido uma caminhada de três horas.

Como estão as comunicações?

As torres da AT&T funcionam em pontos esporádicos. Há duas mega-autoestradas que circundam Porto Rico, mas as estradas secundárias estão bloqueadas. Queda de árvores, inundações, lama, não se consegue passar. É por isso que muita gente não está a receber ajuda.

Que tipo de ajuda federal encontrou?

Nenhuma. Ninguém apareceu no complexo onde vive a minha avó, ninguém foi ver se as pessoas estavam vivas. As histórias que o governo federal está a contar não são verdade. Não estou a dizer que não havia pessoal militar lá, mas eu não vi ninguém. A mayor de San Juan, quando disse que não estava a receber ajuda, estava a dizer a verdade.

Porque é que a reação foi tão parca?

Tenho dito isto mil e uma vezes: apesar de os porto-riquenhos serem cidadãos dos EUA, ninguém na América nos considera compatriotas.

Quase metade dos americanos não sabe que porto-riquenhos são cidadãos.

E a metade que sabe chama-nos spik, o equivalente a preto. A situação de Porto Rico é algo que as pessoas não entendem. A política que os EUA estabeleceram é que destruiu a ilha. Os EUA são parcialmente responsáveis pela dívida acumulada desde 2006 [ano em que terminaram benefícios fiscais para as empresas que operavam lá]. Agora recusam-se a ajudar uma ilha de cidadãos americanos que pagam impostos. As pessoas não sabem história. E não apenas os americanos, também os latino-americanos. Nem consigo explicar o ódio que têm aos porto-riquenhos.

O que deveria ter sido feito?

O governo americano devia ter enviado logo homens para o terreno. Quem ajudou foram os porto-riquenhos e latinos no continente, pessoas como a Jennifer Lopez, Marc Anthony, eu própria. O mayor de Nova Iorque foi o primeiro a enviar polícias.

Espera que algo melhore agora que o presidente já visitou a ilha?

Não.

Mas pareceu ser bem recebido...

Atirou rolos de papel às pessoas, foi insultuoso. Não sei porque é que houve gritos e aplausos, a única coisa que me ocorre é que lhes pagaram para isso, tal como fizeram no Arizona - houve um casting para pessoas irem ao comício do Trump e pagavam 100 dólares. Se uma pessoa está cheia de fome e não consegue ir ao ATM, faz o que for preciso.

Foi prometida mais ajuda também.

A ajuda que as pessoas estão a receber vem de celebridades e expatriados. O Fat Joe arranjou cinco aviões cheios de mantimentos e o Jay-Z foi vital para ajudar a levantar esses voos. O Ricky Martin foi a Loíza, o Daddy Yankee ajudou.

Fala-se de migração de massas de Porto Rico para o continente, é possível?

Já aconteceu antes, durante a recessão de 2008. Foi uma razia nos "cérebros", cerca de 500 mil porto-riquenhos abandonaram a ilha, incluindo médicos, enfermeiros, biólogos, químicos. Agora há muita gente a tentar sair.

Poderá haver algum efeito duradouro?

O que este furacão fez foi unir os porto-riquenhos como nunca vi antes. Se continuar assim será fantástico. Também pode educar as pessoas, para saberem mais sobre Porto Rico. Espero que algo mude, mas não vejo o governo federal a fazer nada. Porto Rico é estratégico para os EUA, por isso mantém esta situação.

Los Angeles

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