Porque foi a Bélgica atacada por terroristas?

A Bélgica é um Estado federal com assimetrias económicas, linguísticas e políticas, o que pode por vezes dificultar o trabalho das autoridades na luta contra o terrorismo

No day after dos atentados que fizeram 32 mortos e foram reivindicados pelo Estado Islâmico (EI) muitos procuram tentar encontrar resposta para a pergunta: porque foi a Bélgica atacada, na sua capital, Bruxelas, cidade considerada o coração da Europa por aí abrigar algumas das mais importantes instituições da União Europeia?

Ataques planeados antes ou ato de vingança?

Na primeira linha de análise surgem as motivações dos terroristas. Foram os atentados no aeroporto de Zaventem e na estação de metro de Maelbeek ações previamente planeadas ou um mero ato de vingança pela prisão, na sexta-feira, em Bruxelas, de Salah Abdeslam, apresentado como o responsável pela logística dos atentados que a 13 de novembro fizeram 130 mortos em Paris?

"O mais provável é que os ataques já estivessem a ser planeados e, devido a certas detenções, tudo tenha sido acelerado porque os terroristas sabiam que iam ser capturados", declarou, à BBC, o professor Dave Sinardet, da Universidade Livre de Bruxelas.

Na segunda-feira, a procuradoria belga divulgou a fotografia de um novo suspeito de ter participado nos atentados de Paris, Najim Laachraoui, de 24 anos. No dia seguinte deram-se os atentados. Najim foi um dos suicidas.

Autoridades em causa, belgas e franceses criticam-se

Descontando o facto de ser extremamente difícil controlar todos os potenciais terroristas que compõem células adormecidas e podem ser ativadas em minutos, há quem questione agora se as forças de segurança e as autoridades belgas terão falhado.

"É notório que há deficiências ao nível dos serviços de segurança. Durante anos não pusemos energia suficiente nos assuntos de segurança e da ameaça terrorista", acrescentou à BBC Sinardet, lembrando que, no passado, também as autoridades espanholas, britânicas ou francesas foram incapazes de evitar atentados (em Madrid, Londres e Paris).

Em declarações à televisão LCI, o ministro das Finanças francês, Michel Sapin, considerou que as autoridades do país vizinho foram ingénuas e deixaram sem controlo bairros como o de Molenbeek, ao qual muitos terroristas tinham ligações e onde a maioria da população é muçulmana.

"Não sei se é da Bélgica como tal, mas penso que houve uma vontade ou uma ausência de vontade por parte de responsáveis políticos, talvez por quererem agir bem, talvez por causa do sentimento de que para permitir uma melhor integração é preciso deixar as comunidades desenvolverem-se, mas isso pode ser também uma forma de ingenuidade." O responsável pela pasta das Finanças no governo francês acrescentou ainda: "Quando um bairro está em perigo de comunitarização nós sabemos que é preciso agir."

Já na semana passada, enquanto o presidente francês, François Hollande, se congratulava com a prisão de Salah Abdeslam, quatro meses após os ataques de Paris, o deputado de direita Alain Marsaud declarava, à iTele, que o terrorista "ou era muito hábil ou os serviços de segurança são uma porcaria, o que é o mais provável". Antigo magistrado antiterrorista, o eleito pelo partido de Nicolas Sarkozy, declarou-se "incomodado com a incapacidade dos belgas ao longo dos últimos anos em resolver o problema". Reagindo a estas afirmações, o ministro dos Negócios Estrangeiros belga, Didier Reynders, criticou que se tente arranjar "bodes expiatórios"e fez questão de sublinhar: "Temos de abrir os olhos dos dois lados da fronteira para os problemas da radicalização em certos bairros de Bruxelas e de Paris".

Viveiros de terroristas ou bairros multiculturais

Tendo sido um porto de abrigo para organizações terroristas como o GIA argelino, a Bélgica tem vindo crescentemente a ser associada a episódios de terror. Dois dias antes dos atentados de 11 de setembro de 2011 nos EUA, os dois homens que mataram o líder da oposição contra os talibãs entraram com passaportes belgas no Afeganistão. A primeira mulher ocidental a cometer um atentado suicida no Iraque, em 2005, foi a belga Muriel Degauque. O terrorista que em agosto tentou atacar um comboio de alta velocidade que ligava Amesterdão a Paris, o marroquino Ayoub al-Khazzani, apanhou o comboio em Bruxelas e tinha ficado em Molenbeek. Isto só para citar três exemplos.

Esta comuna de Molenbeek, uma das 19 de Bruxelas, é considerada problemática (a par da de Shaerbeek) e tem cerca de 90 mil habitantes, sendo 80% muçulmanos, refere um artigo de Jason Burke no 'The Guardian'. Aí a taxa de desemprego é superior a 25% e, no caso dos jovens, será ainda maior. Um artigo do mesmo jornal britânico, de novembro, refere que se "o Estado belga fizesse um esforço maior para integrar as comunidades migrantes, o potencial de radicalização seria significativamente mais pequeno". Mas dado que alguns dos envolvidos nos atentados de Paris e Bruxelas nem teriam grandes problemas a nível financeiro (o irmão de Abdeslam, Brahim, teve um bar em Bruxelas), também o argumento de que a pobreza pode levar à radicalização cai por terra.

O papel das mesquitas, formais, informais ou radicais, que em novembro o primeiro-ministro belga, Charles Michel, chegou a ameaçar encerrar, também parece ser discutível numa altura em que o envolvimento com o Estado Islâmico por parte de muitos dos combatentes europeus se dá por via da internet e das redes sociais, como o Facebook. Abdelilla, uma assistente social que há mais de 20 anos trabalha em Molenbeek, afirmou, ao 'The Guardian', que as mesquitas nem são um grande problema e que a mãe de um combatente morto na Síria em 2015 nem sequer frequentava mesquitas. Já o papel dos pregadores, muitos deles de origem estrangeira, poderá ser diferente. Àquele jornal, Montasser AlDe"emeh, investigador em Molenbeek que aconselha atuais e antigos combatentes, disse conhecer clérigos que estão a pregar agora e estiveram na Síria em 2015. "Imagine-se o que estão a dizer."

A Bélgica será, neste momento, o país que mais militantes fornece a grupos terroristas per capita: entre 450 mil e 562 num país que tem 11,3 milhões de habitantes (640 mil são muçulmanos). Segundo contas do investigador belga Pieter van Ostaeyen, a maioria juntou-se ao Estado Islâmico (que domina grandes partes dos territórios da Síria e do Iraque) e uma minoria aliou-se à Frente al-Nusra e à Al-Qaeda. Oitenta morreram, muitos em recentes batalhas ocorridas na parte oriental da Síria.

Um país disfuncional que já esteve 541 dias sem governo

Sendo um Estado federal, a Bélgica é algo diferente de outros países da União Europeia: encontra-se dividida em duas regiões - a Flandres e a Valónia - com cinco províncias cada e uma espécie de distrito federal onde se localiza a capital, Bruxelas. Os belgas falam três línguas: no Norte fala-se flamengo e no Sul francês, havendo ainda uma pequena região do Leste onde se fala alemão. Desde a sua criação, a Bélgica vive numa assimetria económica, ideológica e política entre a rica região da Flandres e a empobrecida da Valónia. Os nacionalistas flamengos trazem sempre que podem à baila a questão da independência. Após as eleições legislativas de 2010, em que os nacionalistas da Nova Aliança Flamenga ficaram em primeiro, uma crise política deixou o país 541 dias sem governo efetivo (ultrapassando o recorde do Iraque). Alberto II, na altura rei dos belgas, sucedido em 2013 pelo filho Filipe, chamou sucessivamente os líderes partidários para tentarem um acordo.

O facto de haver tantas divisões e subdivisões no país não facilita o trabalho das forças de segurança. Só em Bruxelas, nota o jornal britânico 'The Guardian', existem seis zonas policiais distintas, e antes ainda eram mais. A juntar a isto, refere o artigo, o facto de o aparelho de segurança ter relativamente poucos elementos (tendo em conta a população), e o facto de a circulação de armas ser considerada relativamente fácil também não ajuda. Enquanto país fragmentado e disfuncional, a Bélgica pode ter-se tornado, sem querer, um porto de abrigo para jihadistas.

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Adriano Moreira

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Este livro de D. Ximenes Belo intitulado Missionários Transmontanos em Timor-Leste aparece numa época que me tem parecido de outono ocidental, com decadência das estruturas legais organizadas para tornar efetiva a governança do globalismo em face da ocidentalização do globo que os portugueses iniciaram, abrindo a época que os historiadores chamaram de Descobertas e em que os chamados navegantes da fé legaram o imperativo do "mundo único", isto é, sem guerras, e da "terra casa comum dos homens", hoje com expressão na ONU.