Polícia desmantela dois campos de migrantes em Paris

As cerca de mil pessoas que viviam nos dois campos vão ser colocadas em abrigos e a sua situação será alvo de "exame completo e aprofundado".

As autoridades francesas procederam esta manhã ao desmantelamento de dois campos de migrantes ilegais em Paris: o do canal Saint-Martin, onde viviam cerca de 550 mil pessoas, e o da Porte des Poissonniers, junto ao metro da porte de la Chapelle, que acolhia cerca de 450.

"973 pessoas que ocupavam vários acampamentos na via pública foram colocados em abrigos", indicou a câmara de Paris, especificando que entre elas havia "58 pessoas vulneráveis", isto é, casais, mulheres isoladas, famílias e menores isolados. Os migrantes foram transferidos de autocarro para abrigos e a sua situação será alvo de "exame completo e aprofundado".

Esta é a 36.ª operação do género organizada em três anos na capital francesa, a segunda em menos de uma semana. Há cinco dias foi desmantelado o maior acampamento de Paris, o de Millénaire, onde viviam mil pessoas. Os migrantes foram encaminhados para estruturas de acolhimento.

A retirada dos migrantes começou por volta das 6.30 (5.30 em Lisboa) no acampamento junto ao canal Saint-Martin, onde segundo a AFP tinham sido identificadas durante o fim de semana cerca de 550 pessoas.

Oriundos essencialmente do Afeganistão, os migrantes estavam instalados há vários meses neste local, perto da praça da Batalha de Estalinegrado onde vários acampamentos selvagens foram destruídos e reconstruídos em várias ocasiões no ano passado. Em maio, um migrante tinha morrido afogado no canal.

Yahye, um sudanês que viu recusado o pedido de asilo, dormia junto ao canal há dois meses e esperava o autocarro que o devia levar "para um acampamento, uma casa, um estádio", disse em francês à AFP. "Será melhor do que aqui", afirmou, mesmo não sabendo o destino.

A evacuação de um segundo campo, junto à estação de metro da Porte de la Chapelle, a norte de Paris, ocorreu também esta manhã. Segundo os dados da prefeitura d'Ile-de-France e a da polícia, cerca de 450 pessoas viviam neste local.

Futuro dos migrantes

Segundo a AFP, os migrantes que foram retirados de ambos os acampamentos vão ser colocados em estruturas adaptadas à sua situação administrativa: requerentes de asilo, recém-chegados ou ainda os que são conhecidos em francês como "dublinés", isto é, aqueles que já estão registados noutro país da Europa para o qual podem ser reenviados. O nome vem da convenção de Dublim, que estabelece que os migrantes devem pedir asilo no primeiro país da União Europeia a que chegam.

"É bom que as pessoas sejam alojadas. Mas tememos que muitos acabem nos CRA [Centro de Retenção Administrativa]. Muitos são 'dublinés' registados noutro local da Europa e sentimos o desejo de os mandar de volta", indicou à agência francesa Yann Manzi, da associação Utopia56, que acompanhou as operações num dos acampamentos.

É bom que as pessoas sejam alojadas. Mas tememos que muitos acabem nos CRA [Centro de Retenção Administrativa]

Batalha política em Paris

Os acampamentos de migrantes têm servido de arma política entre o governo francês e a câmara de Paris, liderada pela socialista Anne Hidalgo.

O governo acusava o município de não assumir a "responsabilidade política" de pedir a evacuação dos campos. Já a câmara rejeitava essa responsabilidade, apelando ao governo que respeitasse as suas "obrigações legais" no acolhimento de refugiados.

Estas operações têm lugar quando vai começar a ser discutida no Senado francês a lei do ministro do Interior, Gérard Collomb, que endurece as condições de asilo e de imigração.

Este fim de semana, o novo governo italiano defendeu ainda que Itália não pode ser "o campo de refugiados da Europa". O novo ministro do Interior é Matteo Salvini, líder da Liga Norte, anti-imigração.

Crise migratória

Desde 2015 que a Europa enfrenta uma crise migratória, após os conflitos na Líbia e na Síria. Mais de um milhão de pessoas de África e do Médio Oriente, assim como do Afeganistão, procuraram entrar no continente via Turquia ou cruzando o Mediterrâneo.

Em França, muitos migrantes acabaram nos acampamentos no porto de Calais, no norte do país, que foi desmantelado pelas autoridades nos finais de 2016. Muitos outros migrantes juntaram-se em Paris e na região sudeste, próximo da fronteira com Itália.

Cerca de 60 migrantes morreram desde sábado ao largo da Tunísia e da Turquia, tentando chegar à Europa. Quase 50 corpos foram retirados das águas ao largo da Tunísia durante o fim de semana, no naufrágio mais mortífero no Mediterrâneo desde 2 de fevereiro.

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