Polícia americana mata rapper negro que dormia em carro

Um empregado de um restaurante ligou para o número de emergência por causa de um homem que lhe pareceu estar inconsciente dentro de um carro. A polícia veio e matou-o com vários tiros, alegando que tinha uma arma. A família acusa a polícia de racismo.

Willie McCoy tinha 21 anos. No sábado à noite, perto das 22.30, estava dentro de um Mercedes prateado, junto a um restaurante da cadeia Taco Bell, em Vallejo, na Califórnia. Um dos empregados viu-o debruçado sobre o volante e ligou para o número de emergência. A polícia veio e McCoy, que estaria a dormir, acabou morto, atingindo por múltiplos tiros disparados por seis agentes. A justificação para os disparos é de que ele teria uma arma consigo e fez menção de a empunhar.

De acordo com a versão da polícia, dois agentes que compareceram no local viram que McCoy, cujo carro tinha o motor ligado, tinha uma arma -- uma pistola semiautomática -- no colo e chamaram reforços. Enquanto aguardavam, outro agente apareceu no local e os três tentaram abrir a porta do carro, sem sucesso -- estava trancada. Quando chegaram mais três agentes, colocaram um carro à frente do Mercedes para o bloquear, e estavam a colocar outro atrás quando McCoy acordou e os viu. Disseram-lhe para colocar as mãos no ar mas McCoy terá agarrado na arma (ou feito menção de) e os seis abriram fogo contra ele. Não foi ainda revelado quantos tiros terão atingido o rapaz, que morreu no local. A arma que tinha consigo estava carregada, diz a polícia. Na Califórnia, é legal para alguém com licença de porte de arma trazê-la consigo, mas não tê-la à vista.

"Ninguém confia na polícia aqui em Vallejo. Somos um alvo... A polícia está a executar jovens negros com um certo perfil. O Willie ajustava-se a esse perfil: representava o hip-hop."

McCoy, um rapper conhecido localmente como Willie Bo, perdeu os pais muito cedo. O seu irmão Marc, de 50 anos, descreveu-o ao Guardian como tendo tido uma infância difícil e sendo muito ambicioso em relação à sua música. E acredita que a sua morte teve relação com a sua cor: "A polícia está treinada para disparar primeiro, para atacar primeiro. Não respeitam os negros. Mesmo quando têm a pessoa sob controlo e a vida deles não está em risco, continuam a ser aparatosamente desrespeitadores da integridade física. Isto é aceite na América."

Um primo de Willie, David Harrison, vai mais longe: "Ninguém confia na polícia aqui em Vallejo. Somos um alvo... A polícia está a executar jovens negros com um certo perfil. O Willie ajustava-se a esse perfil: representava o hip-hop."

1,2 milhões de indemnização em caso semelhante

As normas da polícia de Vallejo para o uso da força especificam que os agentes estão autorizados a usar "força letal" quando alguém representa uma ameaça iminente de morte ou de risco grave para a integridade física. "Iminente não significa imediata ou instantânea", explicam as normas. Se a pessoa tem uma arma e os agentes acreditam que a pessoa tem a intenção de a usar contra eles, há justificação para usar força letal.

A investigação está em curso e os seis agentes envolvidos foram suspensos. Mas a família de McCoy já contratou um advogado especialista em direitos civis, John Burris, que representa a família de outra vítima mortal da polícia numa situação semelhante -- Joshua Pawlik, um sem-abrigo (branco) de 32 anos que estava a dormir na rua, em Oakland (também na Califórnia) com uma arma na mão e foi também atingido por vários tiros, em março de 2018. Na semana passada, a família de Pawlik processou a polícia por uso excessivo da força.

"Do ponto de vista da segurança, tem de se ter em consideração que a pessoa vai acordar e não perceber quem está ali. Deve haver formas de lidar com isto que não passem por matar a pessoa imediatamente."

Também em Oakland, há quase três anos, outro homem, Demouria Hogg, de 30 anos, negro, foi morto pela polícia quando estava também a dormir no carro, e igualmente, alega a polícia, com uma arma à vista. Os agentes rodearam o carro, tentaram acordá-lo e acabaram por partir o vidro da porta do lado do condutor. Hogg acordou e dois agentes dispararam: um usando um taser e outra com munição real, matando-o. A família de Hogg, que tinha três filhos, processou a polícia e a câmara da cidade acabou por acordar, em 2016, no pagamento de uma indemnização de 1,2 milhões de dólares (um milhão e sessenta mil euros).

Burris reconheceu ao San Francisco Chronicle que tanto no caso de Pawlik como de Hogg a polícia tentou criar um perímetro de segurança e acordar os homens. Mas, acrescenta, "parece-me que, do ponto de vista da segurança, tem de se ter em consideração que a pessoa vai acordar e não perceber quem está ali." Pelo que, considera, a polícia deveria ter em conta a possibilidade de alguém nessas circunstâncias poder ter uma reação sobressaltada. E que se nos três casos a polícia diz que as vítimas levaram a mão à arma, poderão não ter percebido onde estavam, nem que estavam rodeadas por polícias. "A arma está ali, mas isso não deve só por si justificar este tipo de reação tão apressada da polícia. Deve haver formas de lidar com isto que não passem por matar a pessoa imediatamente."

Foi recentemente apresentada na Califórnia uma proposta de lei, apoiada pela ACLU (União Americana para as Liberdades Civis), no sentido de que a polícia só seja autorizada a fazer uso de força letal quando não existirem alternativas não letais. "Queremos certificarmo-nos de que os agentes, quando é possível, usam alternativas não letais. Porque têm muitas possibilidades ao seu dispor", disse Lizzie Buchen, jurista da ACLU, ao San Francisco Chronicle.

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'Motu proprio' anti-abusos

1. Muitas vezes me tenho referido aqui, e não só aqui, à tragédia da pedofilia na Igreja. Foram milhares de menores e adultos vulneráveis que foram abusados. Mesmo sabendo que o número de pedófilos é muito superior na família e noutras instituições, a gravidade da situação na Igreja é mais dramática. Por várias razões: as pessoas confiavam na Igreja quase sem condições, o que significa que houve uma traição a essa confiança, e o clero e os religiosos têm responsabilidades especiais. O mais execrável: abusou-se e, a seguir, ameaçou-se as crianças para que mantivessem silêncio, pois, de outro modo, cometiam pecado e até poderiam ir para o inferno. Isto é monstruoso, o cume da perversão. E houve bispos, superiores maiores, cardeais, que encobriram, pois preferiram salvaguardar a instituição Igreja, quando a sua obrigação é proteger as pessoas, mais ainda quando as vítimas são crianças. O Papa Francisco chamou a esta situação "abusos sexuais, de poder e de consciência". Também diz, com razão, que a base é o "clericalismo", julgar-se numa situação de superioridade sagrada e, por isso, intocável. Neste abismo, onde é que está a superioridade do exemplo, a única que é legítimo reclamar?