Poema de partido no governo compara migrantes a ratos

Chanceler austríaco exige que parceiros de coligação de demarquem de mensagem publicada num jornal do Partido da Liberdade

É descrito como um 'poema' e fala dos perigos da mistura de culturas e de como os imigrantes se têm de adaptar ao estilo de vida de quem os recebe ou voltar para as suas terras. Tudo isto enquadrado por metáforas onde os imigrantes são descritos como ratos. Um texto de um dirigente regional do Partido da Liberdade da Áustria (o FPÖ),partido de extrema-direita que faz parte do governo, deixou o primeiro-ministro austríaco revoltado.

O chanceler Sebastian Kurz, que também lidera os conservadores do Partido Popular Austríaco e até assentou a sua campanha em medidas anti-imigração, foi violento a rotular o texto de "repugnante, desumano e profundamente racista" e já exigiu aos parceiros de coligação que se distanciem da sua mensagem.

"Texto é repugnante, desumano e profundamente racista"


As comparações com a mensagem dos nazis na Alemanha das décadas de 1930/40 são inevitáveis: na altura, também os judeus eram comparados a ratos. Mas as coincidências não se ficam por aí. O poema O rato da cidade foi publicado no fim de semana da Páscoa num jornal do FPÖ de Braunau am Inn, cidade na fronteira com a Alemanha onde Christian Schilcher, autor do texto, é vice-presidente da câmara e onde nasceu Adolf Hitler.


No texto, Schilcher defende que quando se misturam culturas diferentes "é como se as estivéssemos a destruir". "Assim como nós vivemos aqui, também outros ratos o devem fazer, que como convidados ou migrantes, devem partilhar o nosso modo de vida ou ir rapidamente embora", diz o dirigente regional do FPÖ num dos versos.

"Assim como nós vivemos aqui, também outros ratos o devem fazer, que como convidados ou migrantes, devem partilhar o nosso modo de vida ou ir rapidamente embora"

Palavras que foram duramente criticadas pelo primeiro-ministro austríaco, que não ficou convencido com um pedido de desculpas de Christian Schilcher, que garante que o seu objetivo era apenas o de apontar "algumas questões específicas" e não "insultar ou magoar alguém". Em 2015, mais de 90 mil pessoas pediram asilo na Áustria.


Ainda assim, Sebastian Kurz, o chanceler de 32 anos que desde 2017 lidera um governo de coligação e que já tomou medidas para reduzir os apoios sociais a migrantes, exige que os seus parceiros de coligação se distanciem deste poema "abominável".

Do lado do FPÖ, a resposta veio através do presidente do partido e vice-chanceler austríaco, Heinz-Christian Strache, que escreveu no Facebook que "esta campanha" mostra apenas que os adversários estão "especialmente nervosos" com as eleições europeias de março. Strache que no fim de semana se viu envolvido noutra polémica, depois de o Partido Social Democrata da Áustria o ter acusado de partilhar nas redes sociais um artigo de um site de extrema direita, acusações que o vice-chanceler nega.


No final do ano passado, o chanceler austríaco anunciou que a Áustria se iria retirar do Pacto Global pela Migração por considerar que o acordo pode estabelecer as bases para que esta seja considerada um direito humano. A Áustria não quer que o pacto seja utilizado para modificar legislação nacional ou internacional, defendendo também que não pode levar "a uma mudança de competências dentro da UE".


Kurz disse que o pacto, que não é vinculativo nem estabelece um direito à migração, tem pontos que Viena recusa e que teme possam ser "uma ameaça à (sua) soberania nacional". Entre as críticas ao documento da ONU, em cuja elaboração técnica a Áustria participou, Kurz indicou que poderá limitar as atividades das forças de segurança para deportar migrantes, falando ainda de "ideias que poderão conduzir" a uma falta de diferenciação entre migração legal e ilegal, migração laboral e asilo.

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