Tillerson: perseguição a rohingyas em Myanmar é inaceitável

Secretário de Estado norte-americano falou mesmo em "limpeza étnica"

O secretário de Estado norte-americano, Rex Tillerson, instou hoje o exército birmanês a pôr fim à "perseguição dos rohingyas", minoria muçulmana cujos membros estão a fugir em massa de Myanmar.

"Devemos apoiar" a dirigente do Governo civil birmanês, Aung San Suu Kyi, "na sua liderança, mas devemos dizer muito claramente aos militares" que "isto é inaceitável", declarou, numa conferência de imprensa com o seu homólogo britânico, Boris Johnson, em Londres.

"Esta perseguição deve cessar, aquilo que foi classificado por muitos como limpeza étnica tem que parar", insistiu.

O chefe da diplomacia dos Estados Unidos considerou que se trata de um "momento fundamental" para a "jovem democracia emergente" e assegurou compreender "a situação complexa em que se encontra Aung San Suu Kyi", prémio Nobel da Paz.

O ministro dos Negócios Estrangeiros britânico apelou igualmente à dirigente birmanesa para usar "a sua autoridade moral" para defender a causa dos rohingyas.

"Ninguém quer o retorno a um regime militar na Birmânia, ninguém quer um regress dos generais. Mas é fundamental que ela diga claramente que se trata de uma abominação e que aquelas pessoas poderão voltar para a Birmânia e que os abusos dos direitos humanos e os assassínios -- centenas, milhares mesmo -- vão cessar", frisou Boris Johnson.

Desde o fim de agosto, mais de 379.000 rohingyas - uma minoria étnica não reconhecida pelas autoridades birmanesas - refugiaram-se no vizinho Bangladesh para fugir a uma campanha de repressão do exército birmanês após ataques de rebeldes rohingyas. Milhares de outros estarão ainda em fuga.

Estima-se que os rohingyas sejam cerca de um milhão e, neste momento, entre 10.000 e 20.000 pessoas dessa etnia, exaustas, esfomeadas e por vezes feridas franqueiam diariamente a fronteira do vizinho Bangladesh, um dos países mais pobres do mundo.

Ali, os campos de refugiados preexistentes estão a soçobrar perante este afluxo, e as colinas desflorestadas à pressa enchem-se de lonas esticadas sobre bambus que servem às famílias de abrigo precário contra as chuvas de monção.

"Há uma falta aguda de tudo, de abrigo, de comida e de água potável", descreveu o representante da UNICEF no Bangladesh, Edouard Beigbeder, recordando a "monumental tarefa" de proteger as crianças, que representam 60% dos refugiados.

Perante a dimensão do êxodo, a ONU já não hesita, desde há alguns dias, em falar de "limpeza étnica".

Na quarta-feira, o Conselho de Segurança exigiu à Birmânia medidas "imediatas" para fazer cessar a "violência excessiva" no estado de Rakhine.

Seguindo-lhe as passadas, o Parlamento Europeu adotou hoje uma resolução exigindo que o exército birmanês "pare imediatamente" de cometer atrocidades.

Nos seus relatos, os refugiados descrevem massacres, incêndios de aldeias, torturas e violações coletivas.

A ex-dissidente birmanesa e prémio Nobel da Paz, Aung San Suu Kyi, está a ser alvo de críticas da comunidade internacional devido à sua posição ambígua sobre esta questão.

A violência e discriminação contra os rohingyas intensificaram-se nos últimos anos: tratados como estrangeiros na Birmânia, um país mais de 90% budista, os rohingyas são a maior comunidade apátrida do mundo.

Desde que a nacionalidade birmanesa lhes foi retirada, em 1982, têm sido submetidos a muitas restrições: não podem viajar ou casar sem autorização, não têm acesso ao mercado de trabalho, nem aos serviços públicos (escolas e hospitais).

Suu Kyi, no poder desde abril de 2016, após as primeiras eleições livres no país em mais de 20 anos, prometeu quebrar o seu silêncio na próxima terça-feira, num grande discurso à nação birmanesa.

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