Perante nova crise política, muitos espanhóis preferem novas eleições

DN ouviu apoiantes do PP, PSOE, Podemos e Ciudadanos sobre a moção de censura dos socialistas contra Mariano Rajoy. Começa a ser debatida hoje. É votada amanhã

A sentença do principal processo do caso Gürtel, que investiga uma rede de corrupção ligada ao Partido Popular (PP), não deixou ninguém indiferente. A política espanhola não atravessa o seu melhor momento, são tempos controversos e para muitos espanhóis esta é uma nova oportunidade para fazer uma verdadeira mudança.

A moção de censura ao primeiro-ministro, Mariano Rajoy, que foi apresentada pelo líder do PSOE Pedro Sánchez e hoje começa a ser debatida no Parlamento (sendo votada amanhã), conta com o apoio de muitos cidadãos, com a exceção dos votantes que apoiam o PP - que ainda são muitos.

Há quem queira novas eleições legislativas e peça diálogo entre os partidos para poder formar um governo composto por diferentes famílias políticas. Os eleitores do PP, esses, dizem manter a sua confiança em Mariano Rajoy.

Bases pressionam Sánchez

"A moção é algo que os militantes pedem aos gritos a Sánchez. As instituições estão corrompidas e não podemos permitir que o PP permaneça no governo", afirma ao DN Lola Segurado, de 57 anos, madrilena e militante socialista desde 2003.

Apela à responsabilidade de cada deputado na votação porque "se não se apoiar [a moção], o apoio vai para um governo corrupto". Reconhece que o seu partido também está envolvido em casos de corrupção, mas, sublinham, "foram assumidas as responsabilidades políticas e no PP não".

Lola espera que, caso vença a moção dos socialistas, haja eleições antecipadas. E vê o seu partido com força. "Sánchez foi eleito com maioria e agora temos de estar todos ao seu lado". A mesma opinião tem José Eugénio Roca, de Rivas- Vaciamadrid, reformado, de 67 anos, militante socialista desde 2003. "A moção de censura é necessária, o PP tem a corrupção no seu ADN. Temos de reagir, mexer na árvore, a ver se caem as maçãs podres."

Roca apoia a ideia de eleições antecipadas, mas sabe que o seu partido está quase na mesma situação em que estava aquando das últimas legislativas (ganhou mas sem maioria absoluta).

Gürtel foi a gota de água

"Pode ser que esteja mais forte mas esta moção é feita para dignificar a imagem do país", explica. Pensa que é lógico que Sánchez aproveite a conjuntura e procure promoção política. Com novas eleições e um resultado parecido ao último, "não há outra hipótese a não ser dialogar, deixar de lado as diferenças". E para lutar contra os interesses dos partidos "as bases devem ser mais exigentes com o diálogo".

Marta Cicuendez, de 46 anos, militante do PP desde 1993, está muito indignada. "Estamos a ser acusados pelas redes sociais por coisas que aconteceram há anos", desabafa ao DN. Gosta do primeiro--ministro e apoia-o. Pensa "que vai sair reforçado da moção, pode fazer o papel da sua vida". Não apoia a corrupção e diz que "estão na prisão os que deviam estar".

No caso Gürtel foram condenados 29 dos 37 acusados, entre eles o ex-tesoureiro do Partido Popular. Luis Bárcenas foi condenado a 33 anos de prisão e uma multa de 44 milhões de euros. A Audiencia Nacional decretou a sua prisão imediata por não ter pago a fiança, mas também por risco de fuga. O PP foi condenado a pagar multa de 245 mil euros. Indicou que vai recorrer.

Rajoy, que diz querer ficar até ao final da legislatura (2020), alega que a condenação do partido é civil, não penal, diz que Sánchez não tem moral para falar, dados os casos sob investigação na justiça que envolvem políticos socialistas.

Tal como Mariano Rajoy, Marta Cicuendez questiona: "Ninguém faz nada com os ERES?". Refere-se ao escândalo relacionado com falsos pré-reformados com fundos públicos e que envolve responsáveis do PSOE na Andaluzia.

Marta confia que a moção não vai para a frente e até que o seu partido vai sair beneficiado devido à atitude dos restantes. "Albert Rivera vai apoiar os independentistas?", pergunta numa referência ao líder do Ciudadanos. Este é o partido que, em Espanha, lidera as intenções de voto e, por isso, só apoia uma moção a Rajoy se ela prever a convocação de novas eleições.

Banca perdeu 15,5 mil milhões

Até ao fecho desta edição, Sánchez contava com o apoio do Unidos Podemos, da ERC, do Compromís e da Nova Canárias, o que dá um total de 165 deputados (quando precisa de 176 votos ao todo). Em dúvida - podendo ser decisivo - está o apoio do PDeCAT e PNV (independentistas catalães e conservadores bascos, respetivamente). Estes últimos ajudaram na semana passada a viabilizar o Orçamento, estando Rajoy, em contrarrelógio, a tentar que não apoiem Sánchez.

O eventual "governo Frankenstein", como alguns lhe chamam, já fez que a banca espanhola perdesse em bolsa 15,5 mil milhões de euros.

Natália Alba, de 44 anos, simpatizante dos populares, mostra-se preocupada pela falta de informação dos espanhóis. "Rivera disse que foi o próprio governo que foi condenado. Não é verdade. Os condenados foram pessoas individuais que não estão no governo", sublinha ao DN. Crítica da corrupção, seja em que partido for, defende Rajoy porque "a corrupção do PP vem da época de Aznar".

Ciudadanos vs. independentistas

Adriana, catalã, de 21 anos, é apoiante do Ciudadanos e diz que não compreenderia o apoio de Rivera à moção de Sánchez, sendo que isso implicaria estar do mesmo lado dos independentistas (da ERC e eventualmente PDeCAT).

"Estamos perante uma situação muito grave, isto não acontece noutros países. É verdade que o PP ganhou nas urnas, mas depois da sentença do caso Gürtel devem validar esses resultados", diz, considerando que a melhor solução é ir para eleições antecipadas. "As pessoas desiludidas com o PP devem dizer se ainda confiam no partido."

Pablo, de 27 anos, do Ciudadanos em Madrid Centro, confia em ventos de mudança. "Voto no Ciudadanos porque estou convencido de que as coisas mudam. Vamos pôr os corruptos fora daqui." Para ele é viável a opção eleições e recusa aceitar que o partido que apoia entre num governo liderado por Pedro Sánchez, "de mãos dadas com nacionalistas e populistas".

Um governo para acalmar o país

Depois de militar em vários partidos, José Luís Uriondo, de 66 anos, é filiado no Podemos. Considera que o que está a acontecer "é de uma violência brutal". A moção de censura, "tinha de acontecer", tendo em conta que "cinco dos seis últimos presidentes da Comunidade de Madrid do PP estão acusados".

Considera que "as pessoas estão cansadas e a sentença do Gürtel foi a última gota de água". Tal como o líder do Podemos, Pablo Iglesias, apoia um governo socialista por um tempo para acalmar o país. Mas depois, admite, o melhor é eleições.

Alba Chico, de 37 anos, do Podemos de Moratalaz (Madrid), lembra que a prioridade agora "é pôr o PP na rua". Um partido "corrupto que cria instabilidade".

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