118 feridos nos protestos e mais de 1300 detidos em toda a França

O dia ficou marcado por escaramuças em Paris. Os número de pessoas detidas para interrogatório ultrapassa as 1300 em toda a França, a larga maioria na capital. Foram mobilizados 89 mil polícias por todo o país. Em Bruxelas também houve confrontos e polícia usou canhões de água

Só em Paris já foram detidas 920 pessoas para interrogatório, nos protestos dos "coletes amarelos", este sábado, segundo as últimas informações divulgadas pela prefeitura parisiense, citadas pela imprensa. Dos detidos, 551 ficaram sob custódia policial (os números estão a ser atualizados permanentemente).

"A situação está agora sob controlo", disse o ministro do Interior francês, Christophe Castaner, numa conferência de imprensa com o primeiro-ministro Édouard Philippe.

Na conferência de imprensa, por volta das 19.30 em Lisboa, anunciou que 1385 pessoas foram detidas para interrogatório, por toda a França, incluindo 920 só em Paris.

Outros dados, segundo o balanço do Le Monde.

- 118 pessoas ficaram feridas nos confrontos, 17 delas membros das forças policiais. Só em Paris houve 71 feridos

- Ao todo 125 mil pessoas saíram às ruas em protesto em toda a França. Na semana passada terão sido 36 mil

- a polícia confiscou óculos de mergulho, soro fisiológico e capacetes de proteção;

- uma manifestação decorreu de forma calma nos Campos Elísios: apesar de algumas focos de tensão, a situação permaneceu relativamente serena na avenida mais conhecida de Paris, sobretudo comparado com outros protestos;

- a situação era mais tensa nas grandes avenidas de Paris, onde barricadas foram erguidas ao meio-dia;

- e as autoridades reforçaram os controlos nas estações e realizaram buscas sistemáticas junto aos locais de concentração, para evitar os tumultos na cidade, depois de há uma semana, em 1 de dezembro, Paris ter estado a ferro e fogo.

Ao princípio da tarde, de acordo com o relato da comunicação social, sucederam-se as escaramuças entre polícia e manifestantes, mas nenhuma delas deu lugar a confrontos mais sérios. O Libération falava em "calma relativa", o Figaro deu conta do aumento da tensão.

Os manifestantes juntaram-se depois à Marcha do Clima, prevista para a Praça Republique, e que já estava previamente marcada e autorizada para a tarde deste sábado.

"Eles [polícias] estão mais organizados desta vez, as ruas estão bloqueadas nos Campos Elísios, portanto agora vamos juntar-nos à Marcha do Clima", disse Youri, "colete amarelo" vindo de Vosges, em declarações à agência Lusa.

Questionado se não há uma certa contradição entre pertencer a um movimento que começou exatamente contra o aumento do preço dos combustíveis e juntar-se a uma marcha que alerta para o aquecimento global, Youri considerou que não. "O problema é da economia e do sistema, pedir a diminuição dos impostos e ser ecologista é possível. Temos o dinheiro suficiente para fazer com que toda a gente viva bem e para proteger as gerações do futuro, com uma política ecológica mais eficiente", afirmou.

Também em Bruxelas, numa outra manifestação de "coletes amarelos" foram detidas cerca de 70 pessoas, em controlos preventivos das forças policiais belgas. O quarteirão das instituições europeias está completamente bloqueado, segundo a AFP, que cita fontes da polícia local. Houve confrontos e as forças de segurança usaram canhões de água.

Já em Bordéus, onde se reúne o movimento La France insoumise (A França Insubmissa), o seu líder, Jean-Luc Mélenchon, passou na marcha pelo clima, que decorre no centro desta cidade, mesmo em frente ao protesto dos "coletes amarelos". Mélenchon, rodeado de dezenas de jornalistas, apelou à continuidade do movimento de protesto e discutiu com os manifestantes. Segundo o ex-candidato da esquerda ao Eliseu, é possível compatibilizar a ecologia com o socia. E Mélenchon acusou o governo de Macron de "pensar que a preocupação ecológica era um luxo". "Não é", atirou.

Os "coletes amarelos" voltam a sair este sábado às ruas em Paris, numa ação que levou as autoridades francesas a adotarem múltiplas medidas preventivas, designadamente o reforço policial nas ruas, que envolve a mobilização de 89 mil agentes por toda a França, dos quais 8 mil na capital francesa e 12 blindados.

Segundo o jornal Le Monde, o Ministério do Interior antecipa um nível de violência "pelo menos igual" ao de 1 de dezembro, particularmente em Paris. Os serviços de segurança detetaram a crescente mobilização de grupos de extrema-direita e extrema-esquerda. As redes sociais estão repletas de pedidos de violência física.

Uma delegação de representantes, incluindo figuras como Benjamin Cauchy e Jacline Mouraud, reuniu sexta-feira com o primeiro-ministro Édouard Philippe, para tentar encontrar soluções para um impasse negocial que se arrasta há quatro semanas, mas esse gesto não foi acompanhado pela desmobilização da ação de protesto, que começou por ser contra os aumentos dos combustíveis.

A delegação de representantes do movimento "coletes amarelos" tinha feito ao longo da semana vários apelos para que uma quarta manifestação não ocorresse este sábado em Paris, para evitar novos distúrbios e confrontos com a polícia.

Para prevenir a o efeito de nova manifestação, das ruas do centro de Paris, desapareceu quase todo o mobiliário urbano, com receio de que possa ser usado como armas pelos milhares de manifestantes que hoje tomarão de assalto a zona dos Campos Elísios.

Nas proximidades desta longa avenida, já houve confrontos e a polícia usou gás lacrimogéneo. De acordo com relatos nas redes sociais, como o de uma produtora da Sky News, o recurso a este tipo de gás pelas forças policiais tem sido mais frequente.

Outros manifestantes ajoelharam-se, junto à Porte Maillot, adotando a posição que lembra a de dezenas de jovens estudantes que foram obrigados a permanecer ajoelhados, com as mãos atrás da cabeça, depois de detidos pela polícia, na localidade de Mantes-la-Jolie, na quinta-feira, e que suscitou acesas reações por toda a França.

De acordo com a reportagem da agência Lusa, em Paris, os "coletes amarelos" antecipam um dia de violência. "Não vamos desistir até haver alguma modificação verdadeira e nos darem mais dinheiro. Os polícias não têm agido bem nos últimos sábados e a violência chama a violência. Custa-me, mas digo já que não vamos resolver nada sem violência", disse Pascal, "colete amarelo" vindo da Normandia à agência Lusa esta manhã nos Campos Elísios.

"Polícias não têm agido bem nos últimos sábados e a violência chama a violência. Custa-me, mas digo já que não vamos resolver nada sem violência"

Mesmo assim, o ambiente esta manhã é bastante diferente do cenário dos sábados passados na principal avenida parisiense. Tal como o Ministério do Interior tinha avisado, a estratégia da polícia mudou e há controlos aleatórios na avenida à utilização de veículos blindados na rua.

Quando chegou à avenida esta manhã, Jérôme, lusodescendente e "colete amarelo" vindo de Amiens, disse à Lusa que, com tantos controlos, sentia que lhe tinham tirado o direito de se manifestar.

"Viemos para mostrar que não desistimos. Mesmo com os controlos, não temos medo. Eles querem fazer-nos medo para não nos manifestarmos. É como se nos tirassem os direitos de nos manifestarmos, isto não é uma manifestação", afirmou Jêrome, que já esteve em Paris há 15 dias para protestar contra o Governo, queixando-se que lhe apreenderam os óculos e a máscara com que contava proteger-se.

Com maior controlo no bairro dos Campos Elísios, Arco do Triunfo e Palácio do Eliseu, residência oficial do Presidente francês, durante o resto do dia é normal que os manifestantes circulem pela cidade com alguns ajuntamentos importantes na Praça da Bastilha e na zona de Porte Maillot, ponto de chegada a Paris.

"Acho que à tarde vai degenerar e, se não for aqui, vai ser noutro sítio qualquer. Vamos mudar de sítio, Paris é demasiado grande para a situação não se degenerar", concluiu Jêrome.

[última atualização às 19:50]

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