Pedro Sánchez: "Faltam-me dois anos para governar Espanha"

O secretário-geral dos socialistas espanhóis aborda os problemas do seu partido e da política do seu país numa entrevista dada esta quinta-feira a DN, RTP e Lusa antes de viajar para Lisboa, onde participa amanhã numa reunião do conselho do Partido Socialista Europeu
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Em pouco mais de duas semanas a Catalunha vais a votos. Depois de tudo o que foi vivido nos últimos meses como chegaram a esta situação?

Temos que olhar para o futuro e aprender das lições do passado. O independentismo e a direita do nosso país lançaram um boomerang que atingiu todos. Temos que transcender a dinâmica de blocos, entrar num cenário de diálogo. Muitos catalães não querem estar nem no bloco independentista nem no bloco conservador. Querem o reformista.

Com quem quer estar no futuro governo. Com um partido constitucionalista como o Ciudadanos ou com um amigo mais próximo ideologicamente como a ERC?

Em política temos de saber onde estão as prioridades. Se a prioridade é a independência não nos vamos entender com a ERC. O importante é o programa de governo, que deve ser social-democrata para devolver aos catalães a Constituição e restabelecer a convivência.

O que vai acontecer se a Catalunha escolher o independentismo?

Na Catalunha existe uma corrente de apoio ao independentismo. Trabalhamos, porém, para que Miquel Iceta consiga o maior número de votos. Mas temos de ouvir o povo catalão e atualizar a Constituição espanhola para conseguir uma melhor inclusão da Catalunha no conjunto do país.

Os partidos constitucionalistas podem liderar o próximo governo da Catalunha?

A única pessoa que pode liderar uma mudança que resolva o problema de independência é o nosso candidato Miquel Iceta. Quando conseguir o resultado desejado esperamos que essas forças apoiem o seu governo. A direita questiona o autogoverno e não tem modelo de país.

Aceitaria realizar o referendo?

Sempre defendemos o mesmo: atualizar o Estatuto da Catalunha. Nestes cinco anos, o independentismo baseou o seu projeto em ideias que acabaram por ser uma mentira. Por um lado, disseram que a declaração unilateral da independência ia ser aceite na UE e foi o contrário. Por outro, que não ia representar uma fratura de convivência e agora não se pode falar dentro da mesma família destes temas. E em terceiro lugar, disseram que não ia ter impacto económico e podemos ver a fuga de empresas e o trabalho em risco da classe média trabalhadora.

As sondagens situam o Ciudadanos, com Inés Arrimadas como líder, à frente do PSC. Apoiariam um governo liderado por ela?

Estamos em campanha eleitoral e se nos juntássemos a outro partido teríamos feito uma coligação. O PSOE é o único que apresentou o seu programa para a Catalunha baseado em dois eixos: autogoverno e convivência. A partir daí, podemos ter um entendimento, mas agora ​​​​​​​temos que deixar claro aos eleitores o que cada partido defende.

Aceitariam o referendo pactuado?

Sempre defendemos que os catalães e outros espanhóis votem uma atualização do pacto constitucional, que reordene competências que não sabemos a quem pertencem. A nossa ideia é ter um Estado de estrutura federal. E o direito a decidir é o referendo a uma autodeterminação que não está reconhecida. Queremos dialogar para ver como a Catalunha fica em Espanha. Esta é uma discrepância de fundo com o independentismo e com Podemos, porque estes defendem o referendo pactuado. É uma ideia que fragmenta e vai contra o espírito europeu. Lembro aos portugueses que o que se vive na Catalunha é um movimento reacionário contra os valores europeus, que são favoráveis à integração de soberanias.

A crise catalã prejudicou o PSOE?

Estamos a ser coerentes com a nossa própria história. O PSOE assinou a Constituição de 1978. Aplicar a Constituição é aplicar o artigo 155. Era a resposta imediata para devolver o autogoverno à Catalunha.

Então sente o partido com mais força?

Deveríamos ganhar em votos e deputados ao PP e agora o PSOE tem condições de consegui-lo. Faltam-me dois anos para governar Espanha. Precisamos de uma mudança. O balanço de Rajoy no governo pode resumir-se em quatro pontos: resgate no setor financeiro com subida de impostos, desigualdade, corrupção e a confrontação territorial. É um projeto esgotado. Depois do que aconteceu na Catalunha é importante entender que a Espanha vai ser governada por aqueles que percebam a diversidade do nosso território.

Pelas suas palavras vemos que acredita no fim da legislatura?

Temos de ver o que vai acontecer nestes dois anos, mas é evidente que o governo conta com uma maioria no Parlamento para aprovar o Orçamento do Estado. Mas temos que trabalhar em fazer oposição de Estado, defender o Estado, a pesar do governo, como no desafio secessionista. E também defender o Estado de bem-estar. Propomos uma esquerda de governo alternativa. Vamos apresentar no início do ano o nosso orçamento alternativo, com muitas coisas comuns ao apresentado pelo governo de António Costa, em matéria fiscal e laboral. Queremos ser uma esquerda para reconciliar os espanhóis.

Que mensagem gostava de enviar a Carles Puigdemont?

Uma reflexão: que ninguém fez mais pela aplicação do artigo 155 que aquele que agora está a passear por Bruxelas. Falou-se muito de poder dar à Catalunha o mesmo que tem o País Basco, mais autonomia financeira.

Poderia ser essa a solução do problema?

Parto do princípio de que a situação na Catalunha tem muito a ver com o descontentamento social, que foi utilizado pelo independentismo para ampliar o seu espaço social. Os políticos espanhóis devem resolver esse problema, como estão a fazer os políticos portugueses, quando aumentam o salário mínimo, baixam os impostos aos trabalhadores, etc. Temos que resolver a enorme dívida social. Primeiro devemos fazer isso e depois perceber que a Constituição deve servir para a regeneração política nacional. Também é o momento de fazer uma leitura das qualidades e defeitos do sistema autonómico, analisar o financiamento, as câmaras, o Senado… Mas no sistema de financiamento autonómico a Catalunha deve permanecer no regime comum.

Cumprem-se dois anos do governo de António Costa. Que balanço faz do seu mandato?

Está a ser muito positivo e esperançoso, não só para os portugueses, mas também para o conjunto da Península Ibérica e da Europa. Demonstra que quando governa a social-democracia é ​​​​​​​possível a coesão social e o crescimento económico. Está a aumentar o salário mínimo, a baixar os impostos da classe trabalhadora e a subir os dos que mais ganham. Demonstra que as políticas de esquerda são possíveis.

O que está a aprender com ele?

Podemos tirar grandes lições. Os partidos de esquerda, quando apostam nas políticas sociais, são capazes de se entenderem. E ainda não o conseguimos em Espanha.

Houve algumas dificuldades no Executivo de Costa como vimos na aprovação do último Orçamento do Estado ou na gestão dos incêndios. Acredita que o primeiro-ministro português vai chegar a final da legislatura?

Se comparamos os apoios sociais que tem a social-democracia agora no conjunto da UE, as sondagens dão mais de 40% ao Partido Socialista de António Costa. Depois das últimas eleições municipais a esquerda é quem está a governar. Seria um erro se os partidos de extrema-esquerda não fossem a favor do que a maioria quer. O que está a acontecer em Portugal é um oásis inspirador na Europa. É preciso tirar grandes lições de como foi gerida esta crise nos últimos anos: coesão social e desenvolvimento económico têm de ir lado a lado e é o que António Costa fez. E é inspirador também para Espanha, onde governa um bloco conservador que baixa os impostos aos grandes grupos económicos, oferece amnistia fiscal aos defraudadores e sobe os impostos aos trabalhadores.

Tentou para Espanha uma solução à portuguesa. O que correu mal?

Quando as esquerdas antepõem a agenda social aos outros temas é possível o entendimento. Em Espanha está a acontecer em algumas câmaras municipais e em algumas Comunidades autonómicas. E porquê não no governo?. Unir a esquerda é uma das metas do PSOE.

O que fracassou na esquerda?

Houve esquerdas mais preocupadas em fazer oposição ao PSOE e não ao PP. Na crise de liderança do PSOE vimos que a cidadania espanhola voltou a confiar em nós. Somos uma força tranquila para uma mudança. A social-democracia democracia é dar segurança num mundo instável.

Acredita que os partidos vão conseguir um consenso para a mudança da Constituição espanhola?

Temos um compromisso com o presidente do governo: criar em seis meses uma comissão para abordar um novo pacto de convivência. Há temas importantes a tratar como a luta contra a corrupção, a participação dos jovens na política. E consolidar a autonomia, não é falar de mais autonomia, mas falar de uma melhor autonomia. Nesta crise, Rajoy demonstrou ficar sem projeto e espero que não fique sem palavra. Deve refletir se quer ser o presidente do seu partido ou o presidente do seu país.

Esta sexta-feira estará em Lisboa numa reunião do Conselho do Partido Socialista Europeu. O socialismo e a social-democracia já não atraem os eleitores?

Penso que continua a ser a principal ideologia no continente europeu, às vezes com mais apoios, às vezes com menos. É preciso recuperar a coerência e a credibilidade dos europeus. Em Espanha, fizemos um congresso em maio e surgiu um novo PSOE, onde foi reivindicada a autonomia do partido, somos a alternativa de governo ao PP. Uma das grandes lições do socialismo do governo de Costa é que a partir do governo se pode recuperar a credibilidade perdida durante a crise que perdeu a social-democracia.

O que aprendeu durante os meses que esteve fora da liderança do partido?

Sempre que se vive uma situação traumática o importante é saber lidar com a encruzilhada: escolher entre comodidade ou compromisso e entre convicção e conveniência. Eu optei pelo compromisso e pela convicção. Isso implica uma recuperação da social-democracia em Espanha que se vai ver nos resultados das eleições em 2019.

A crise dentro do PSOE continua?

Muita coisa que disseram que ia acontecer no PSOE não aconteceu. Disseram que o PSOE ia desaparecer e voltou com mais força. Que ia partir Espanha e acabou por ser um partido que garantiu a integridade territorial do país. E não partilhamos a mesma visão de Espanha com o PP. Pablo Iglesias identificou a causa do secessionismo com uma causa de esquerdas e foi um erro. Vivemos um tempo histórico e Costa apercebeu-se muito bem disso, onde a causa das esquerdas e a causa dos centristas coincide.

Como é a sua relação com Mariano Rajoy?

Correta. Entendemo-nos todos num momento crítico, como o que vivemos na Catalunha. E há confiança, espero que esta não se perca. É importante sublinhar que depois dos momentos vividos desde o 1-O todos os atores políticos, e nomeadamente Rajoy, devem estar conscientes da responsabilidade que temos em recuperar a convivência entre os catalães e o conjunto dos espanhóis.

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