"Pedro Sánchez é a reencarnação da geração socialista de Felipe González"

Josep Borrell foi presidente do Parlamento Europeu e agora é conselheiro de Pedro Sánchez. Atual líder do PSOE integrou este veterano socialista na sua "equipa de mudança". Se os socialistas chegarem ao governo será o futuro ministro dos Negócios Estrangeiros de Espanha

Qual tem sido o seu contributo para o projeto de mudança de Pedro Sánchez?

O Pedro teve a amabilidade de pedir a minha colaboração pela minha experiência europeia. Quer reforçar a implicação de Espanha na Europa porque nos últimos anos esteve ausente. [Mariano ] Rajoy não dedicou tempo nenhum à Europa e não podemos esquecer que grande parte dos problemas de Espanha vão ter de se resolver com a Europa.

O que mais mudou no PSOE?

Eu faço parte da chamada velha guarda do socialismo. Participei nos governos de transição. E sim, muitas coisas mudaram desde então. O partido fez algo muito inovador, escolher o secretário-geral nas chamadas primárias. Quer dizer, através do voto direto dos militantes. Foi uma mudança importante, com muitas resistências dentro dos socialistas, que preferiam o modelo antigo. Eu sou absolutamente a favor de democratizar a vida interna do PSOE.

E a Espanha também mudou muito?

A sociedade espanhola, como a europeia, sofreu o grande impacto da crise que acabou com as classes médias, aumentou as desigualdades e radicalizou a política. É normal que tudo isto acabe por desembocar em mudanças nas estruturas políticas. O bipartidarismo foi substituído por um leque de mais partidos. Mas é curioso ver como a palavra social-democracia continua a ter muita importância para a grande maioria dos partidos.

Pedro Sánchez é um bom líder para os socialistas?

Pedro Sánchez é a reencarnação dos jovens socialistas que chegaram ao governo em 1982 na equipa de Felipe González. Uma geração com vontade de mudança, força, convicção. Também éramos muito novos e antes de chegar ao governo estivemos nas câmaras municipais, como Pedro Sánchez, que foi vereador em Madrid.

Complicaram-se muito as coisas para o PSOE com a candidatura conjunta do Podemos e da Esquerda Unida na coligação Unidos Podemos?

A priori, é uma candidatura que parece que vai somar mais votos [do que os socialistas], mas isso ainda está por ver. A soma pode ser menor. Existe uma grande volatilidade do eleitorado, há 30% de indecisos, que ainda não sabem em quem vão votar. Muitas pessoas da Esquerda Unida, mesmo a ganhar votos com a coligação, têm reticências de aparecer unidas ao Podemos. Neste momento, nenhuma sondagem é fiável; elas são necessárias, sem dúvida, mas deixam muitas dúvidas.

Há pessimismo no PSOE nesta campanha eleitoral?

Não sinto isso. Nós, socialistas, vemos esta campanha como uma nova oportunidade de explicar melhor as nossas propostas. Tenho-me queixado da importância que se está a dar aos acordos pós--eleitorais, quando o importante é o que cada partido quer fazer pelo país. Para misturar dois líquidos antes devemos conhecer as propriedades de cada um. O azeite e o vinagre, por exemplo, não os conseguimos misturar. Os cidadãos deveriam poder escolher segundo as propostas de cada partido e não segundo os acordos que vão fazer. Nesta campanha ninguém fala de assuntos muito sérios, como o financiamento da Segurança Social, o projeto europeu ou os compromissos que Espanha deve cumprir com Bruxelas. Parece que estamos num jogo de matrimónios por correspondência. Temos de ver primeiro a força de cada partido depois das eleições e só em seguida analisar as propostas de cada um para ver quem se pode juntar.

Pedro Sánchez tentou dialogar com o Podemos e o Ciudadanos para formar governo. Acha que juntar estes dois partidos era uma boa solução?

O objetivo era ter uma alternativa progressista ao Partido Popular e com todos os nossos votos conseguíamos isso. Mas o Podemos não quis e estamos onde estamos. Eles pensaram que numas segundas eleições [estas de dia 26] conseguiriam mais votos, vamos ver se tinham razão ou se estavam enganados.

Vimos mais partidos sentados no Congresso dos Deputados. Houve mais diálogo?

Muitos estiveram a fazer figura de corpo presente. Para alguns importava mais tomar posições mediáticas do que o diálogo. Todos sabiam que se iria acabar por dissolver o Congresso e procuraram mais encenar do que construir.

Falou do problema catalão. Vai ser um dos desafios da próxima legislatura?

Vai ser sem dúvida um deles. É preciso desbloquear a situação catalã. O independentismo intoxicou-se com uma propaganda anti-Espanha, que não teve réplica. Não se deu a informação verdadeira às pessoas. Na Catalunha deu-se informação incorreta. Os socialistas propõem uma reforma da Constituição que permita resolver o problema que existe.

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