Pedido de Rajoy para Sánchez: "Deixe governar quem ganhou"

Rajoy num ato do PP em Salamanca

Líder do PP fala pela primeira vez na hipótese de uma abstenção do PSOE para permitir a sua reeleição. Considera "letal" uma eventual aliança entre os socialistas e o Podemos

"Deixe governar quem ganhou as eleições. Quem tem mais votos, mais apoio e a confiança maioritária de todos", lançou ontem o líder do Partido Popular (PP), Mariano Rajoy, num pedido aos socialistas para que se abstenham e lhe permitam continuar na chefia do governo. É a primeira vez que coloca esta hipótese, tendo antes sempre defendido a tese de um acordo a três, que inclua também o Ciudadanos. O apelo surge depois de o secretário-geral do PSOE, Pedro Sánchez,

não ter conseguido os apoios necessários no Congresso dos Deputados para formar governo.

"O PP e o Ciudadanos não é suficiente. O PSOE e o Ciudadanos também não. Mas um pacto a três é. Há uma coincidência nos grandes temas", disse Rajoy, enumerando por exemplo a unidade e soberania nacionais, a igualdade dos espanhóis, a política europeia ou a luta contra o terrorismo. Mais tarde no discurso, num ato do partido em Salamanca que mais parecia um comício de campanha, Rajoy deixou a porta aberta, pela primeira vez, à abstenção dos socialistas.

Mas mesmo com a abstenção dos 90 deputados do PSOE, o PP (123 eleitos) precisaria do apoio do Ciudadanos (40 representantes) ou mais abstenções para poder governar em minoria (precisa de mais "sins" que "nãos" entre os 350 deputados). O partido de Albert Rivera tem contudo um pacto com o PSOE, que envolve mais de 200 medidas, que se mantém apesar da fracassada investidura de Sánchez.

Ontem, as equipas de negociadores de ambas as formações estiveram reunidas, acordando que vão dialogar "conjuntamente" com o resto das forças políticas. Este cenário põe de lado qualquer hipótese de entendimento entre os socialistas e o Podemos, de Pablo Iglesias, que fez um ultimato ao PSOE: ou eles ou o Ciudadanos. "Rivera arrasta o PSOE para o seu campo, a partir de onde estendem a mão ao PP. Primeiro passo para a grande coligação da restauração. Isto não é mudança", escreveu no Twitter Íñigo Errejón, número dois do Podemos.

Não entendo de onde tira Iglesias tanto ódio e rancor contra o PSOE

"Não entendo de onde tira Iglesias tanto ódio e rancor contra o PSOE", diz Sánchez numa entrevista ao El País, explicando que pensou que a "afinidade ideológica tornaria mais fácil o diálogo com o Podemos". Sobre Rivera diz que ele "antepôs os interesses gerais aos do partido". Em relação a Rajoy, Sánchez repetiu que o PSOE não o vai apoiar, "nem a nenhum outro candidato do PP".

Combateremos sempre a opção PSOE-Podemos. É letal para Espanha", lançou Rajoy, que parece já preparar-se para o cenário mais provável: o de novas eleições. "É preciso pôr fim ao espetáculo."

A primeira votação de investidura de Sánchez, no dia 2 deste mês, marcou o início da contagem dos prazos para a convocação de novas eleições. Os partidos precisam de chegar a acordo até 2 de maio, caso contrário são dissolvidas ambas as câmaras do Parlamento espanhol e marcadas as novas eleições.

Situação inédita

Sendo uma situação inédita em Espanha (nunca antes um candidato havia falhado a investidura), não é claro que procedimentos devem ocorrer a seguir. O artigo 99 da Constituição diz apenas que "haverá sucessivas propostas na forma prevista", isto é, depois de o rei ouvir os partidos propõe um candidato ao debate de investidura. Na primeira votação precisará de maioria absoluta para vencer mas, caso falhe, na segunda só precisará de maioria simples (mais "sins" do que "nãos").

O rei Felipe VI vai receber amanhã o presidente do Congresso dos Deputados, o socialista Patxi López, que lhe comunicará oficialmente o resultado dos debates de investidura de Sánchez. O monarca poderia optar por voltar a ouvir os partidos e propor um novo candidato, mas tudo indica que esperará as propostas dos partidos antes de tomar essa decisão.

Amanhã haverá também uma reunião da Comissão Permanente da Direção do PSOE para examinar a situação, após a fracassada investidura de Sánchez. Segundo o El País, apesar de ter saído derrotado do hemiciclo, o líder socialista saiu reforçado na direção do partido - depois de muitos dirigentes terem defendido publicamente a sua saída. Até porque as sondagens indicam que o processo de negociações foi bem visto pelos espanhóis e a consulta aos militantes do PSOE, sobre o acordo com o Ciudadanos, serviu para o consolidar como líder.

O ex-presidente da Generalitat, Artur Mas, instou ontem Rajoy a seguir o seu exemplo e afastar-se para facilitar a formação de um novo governo. Após as eleições na Catalunha, a coligação independentista de Mas não teve maioria e precisou de negociar com a Candidatura de Unidade Popular. O problema é que o partido antissistema e independentista recusava, já desde a campanha, reeleger o presidente da Generalitat. Próximo do fim do prazo, Mas acabou por ceder e permitir a eleição de Carles Puigdemont. "Se Espanha fosse a Catalunha, o primeiro-ministro estaria a pensar em dar um passo ao lado", disse ontem.

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