Pedido de prisão de Lula criticado até pela oposição

Aécio Neves, do PSDB, considera a decisão dos procuradores "exagero precipitado". Juízes da Lava-Jato também se irritaram. PT diz que é "uma situação tresloucada"

No dia seguinte ao pedido de prisão preventiva de Lula da Silva quem sofreu condenação geral foram os procuradores do Ministério Público (MP) que a sugeriram: do Partido dos Trabalhadores (PT), de Lula e Dilma Rousseff, ao Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), principal força da oposição, toda a gente criticou a decisão. Até os juízes da Operação Lava-Jato consideram o pedido descabido e prejudicial às investigações sobre a propriedade dos imóveis do ex-presidente.

"É um exagero precipitado", disse Aécio Neves, presidente do PSDB e candidato derrotado por Dilma nas últimas presidenciais, para quem o Brasil "precisa é de serenidade". O seu vice-presidente Carlos Sampaio considerou a medida "inusual" e um dos líderes parlamentares dos tucanos, Cássio Cunha Lima, não viu "fundamentos para tanto, uma vez que o MP e a Polícia Federal fizeram buscas muito recentemente".

No Folha de S. Paulo, elementos da Operação Lava-Jato disseram de forma reservada que a decisão do MP perturba as investigações em torno do escândalo da Petrobras. Tanto os juízes de Curitiba como a cúpula do PSDB sublinham ainda que a situação tem potencial para alimentar a tese de perseguição a Lula. A esmagadora maioria dos representantes de associações de magistrados ouvidos por rádios e televisões também não viram motivos para o uso da medida.

Já o PT, como seria de esperar, atacou a decisão sem piedade. "É um pedido tresloucado", disse o presidente do partido, Rui Falcão. Segundo o Instituto Lula, a decisão é parcial, até porque um dos juízes já a havia tornado pública há dois meses em reportagem da revista Veja, por tradição hostil ao governo. O partido do ex-presidente e os seus advogados acreditam agora que a juíza que vai decidir sobre a matéria não dê sequência à intenção dos procuradores.

Trechos do texto que sustentava o pedido do MP para prender Lula preventivamente por lavagem de dinheiro e falsificação ideológica ao ocultar um tríplex no Guarujá foram ainda alvo de chacota nas redes sociais. Lê-se no pedido que "Marx e Hegel se envergonhariam da conduta do torneiro mecânico que chegou à presidência", numa confusão entre Engels, coautor do Manifesto Comunista, e o filósofo Georg Hegel.

Dilma não renuncia
A presidente, que aumentou o coro dos que criticaram os procuradores ao declarar que "não há qualquer motivo para pedir prisão do presidente Lula", afirmou que não vai renunciar, como vem sendo sugerido por políticos da oposição. "Quem me conhece sabe que pelo meu carácter e pela minha honradez não sou pessoa de me demitir", disse. "E quem pede isso é, afinal, quem entende que o pedido de impeachment não tem razões para existir, caso contrário esperariam o processo prosseguir."

A presidente recusou-se a comentar um eventual convite a Lula da Silva para integrar o seu governo, mas foi admitindo que seria uma honra. A ideia está em cima da mesa, proposta por membros do governo como Ricardo Berzoini, ministro chefe da Secretaria de Governo, para quem "ninguém pode recusar ter um Pelé na sua equipa". Uma vez no governo, o ex-presidente ficaria com foro privilegiado, como todos os titulares de cargos públicos, só podendo ser julgado pelo Supremo Tribunal Federal.
Quem está a discutir sair do governo é o Partido do Movimento da Democracia Brasileira (PMDB), em teoria o principal aliado do PT, durante a sua convenção. Com Dilma cada vez mais desgastada, dirigentes do PMDB têm mantido reuniões com o PSDB.

Em São Paulo

Ler mais

Exclusivos