Partido de Erdogan perde Ancara. Resultado em Istambul ainda incerto

Presidente tinha dramatizado importância das eleições autárquicas. Crise económica ajuda a explicar derrota nas principais cidades. Há ainda 25 mil votos por contar em Istambul, mas maior cidade do país deve ir para a oposição.

O homem que domina a política turca há 16 anos sofreu o maior revés político da sua carreira, com o seu partido AKP a perder o controlo da capital Ancara e possivelmente da maior cidade, Istambul. Com 99% dos votos contados, o partido islamista conservador de Recep Tayyip Erdogan alcançou 44,42% dos votos, um aumento superior a 1,5% em relação às últimas eleições locais. No entanto, como as sondagens já anteviam, perdeu grandes cidades como as já referidas, bem como Adana, Antália e Mersin.

Erdogan fez campanha durante dois meses antes da votação de domingo, que descreveu como uma "questão de sobrevivência" para a Turquia. Nos comícios usou as imagens do atentado terrorista de Christchurch, na Nova Zelândia, e anunciou que a basílica de Santa Sofia, convertido em museu em 1935 pelo fundador da república, Mustafa Kemal Ataturk, vai ser uma mesquita.

A derrota do partido islamista de Erdogan em Ancara é uma perda de grande significado para o presidente, mas perder Istambul - quando faltava contar 25 mil votos a vantagem dos republicanos era de mais de 27 mil votos - onde iniciou a carreira política e foi presidente da Câmara na década de 1990, é um golpe de enorme simbolismo. O AKP chegou a anunciar que o ex-primeiro-ministro Binali Yildirim tinha derrotado o adversário do CHP Ekrem Imamoglu por quatro mil votos.

Nem os comícios diários do presidente, a sua presença na TV e a cobertura parcial dos media - após a tentativa de golpe de 2016, a liberdade de imprensa sofreu um golpe com a prisão de mais de uma centena e meia de jornalistas, o encerramento de 54 jornais, 20 revistas, seis agências de notícias, 23 estações de rádio e 17 de TV - surtiram efeito.

Na capital, onde Erdogan mandou construir um controverso palácio presidencial de mil quartos, o candidato do Partido Popular Republicano (CHP) da oposição secular, Mansur Yavas, obteve uma vitória clara. "O povo votou a favor da democracia, escolheu a democracia", disse o líder da oposição Kemal Kilicdaroglu, ao declarar que o CHP tinha tomado Ancara e Istambul ao Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP) e mantido a sua fortaleza de Esmirna, a terceira maior cidade da Turquia.

No sudeste da Turquia, maioritariamente curdo, a oposição pró-curda do Partido Popular Democrático (HDP) conquistou as maiores cidades que as autoridades tomaram há dois anos quando acusaram o HDP de ligações terroristas. No resto do país o partido não concorreu e o seu eleitorado terá votado no CHP. Ainda no Curdistão, a cidade de Sirnak passou do HDP para o AKP, uma vitória surpreendente, mas que se explica, segundo a oposição a Erdogan, pelo facto de milhares de soldados e polícias terem sido mobilizados para aquele local.

Histórica foi a vitória de um candidato comunista. O feito inédito do TKP ocorreu em Dersim, uma cidade no leste do país com 86 mil habitantes.

Cebolas e beringelas

Erdogan afirmou que a economia é a sua prioridade. "Temos pela frente um longo período de reformas económicas sem comprometer as regras da economia de mercado livre", disse.

A crise monetária após a eleição do ano passado desvalorizou a lira em 30% e colocou a economia em recessão no quarto trimestre. Com a inflação próxima de 20% e o desemprego a aumentar, o AKP pagou a fatura.

"As cebolas e as beringelas tornaram-se produtos de luxo que já não podemos pagar", disse a professora do ensino secundário Ayse ao Le Monde.

"As eleições de hoje são tão históricas quanto as de 1994", tuitou o jornalista Rusen Cakir, referindo-se ao ano em que Erdogan foi eleito presidente da Câmara de Istambul. "É o prenúncio de que uma página aberta há 25 anos está a ser virada."

"Erdogan não se sente confortável em gestão de crise", diz por sua vez Kemal Can, o jornalista da Medyascope.