Parlamento toma posse hoje, mas Itália ainda sem governo à vista

Primeira tarefa é escolher o presidente do Senado e da Câmara dos Deputados. Sem acordo entre partidos para uma coligação, solução ficará nas mãos do presidente Mattarella.

A presidência da Câmara dos Deputados para o Movimento 5 Estrelas de Luigi Di Maio, a do Senado para a coligação de centro direita (que junta a Liga de Matteo Salvini, o Força Itália de Silvio Berlusconi e os Irmãos de Itália de Giorgia Meloni). A divisão parecia simples, mas como quase tudo na política italiana, não é. O Parlamento saído das eleições de 4 de março toma hoje posse em Roma, mas os partidos parecem longe de um acordo sobre os nomes para liderar as duas câmaras. Mais longe ainda está a formação de um governo, depois de a aliança de direita ter ganho o escrutínio com 37% dos votos, mas o 5 Estrelas ter sido o partido mais votado. Ambos longe da maioria absoluta.

Nos últimos dias, Berlusconi veio a público defender que a direita se pode unir ao 5 Estrelas, num governo com uma agenda pré-determinada. O ex-primeiro-ministro, de 81 anos, garantiu não ter preconceitos em relação ao movimento fundado em 2009 pelo comediante Beppe Grillo e defensor da democracia direta. Segundo o La Repubblica, esta atitude é apenas uma estratégia para passar a bola para Di Maio e colocar nele o ónus se as negociações para formar governo falharem.

Para já, a própria escolha dos presidentes da Câmara e do Senado pode ser demorada. Sobretudo a primeira, uma vez que requer maioria absoluta. Para o Senado, a partir da terceira ronda, basta maioria simples. Se tudo decorrer de forma rápida, o presidente Sergio Mattarella deverá começar a ouvir os partidos logo depois da Páscoa. Após consultar as partes, o chefe do Estado tem de entregar a tarefa de formar governo a uma delas. Segundo uma fonte próxima do Palácio Chigi (a residência oficial do presidente), Mattarella não estará com pressa e admitirá fazer duas ou três rondas de consultas para encontrar uma solução. Em 2013, só passados 40 dias da posse do Parlamento houve governo.

Uma solução política pode ter vários cenários possíveis. Um deles seria uma aliança entre a coligação de direita e o Partido Democrático. Grande derrotada das eleições, onde se ficou pelos terceiro lugar com 22,9%, a formação teve de lidar com a demissão do ex-primeiro-ministro Matteo Renzi da liderança. Mas pode agora ser decisivo para a formação do novo executivo. Outro cenário possível seria, pois, uma aliança PD-5 Estrelas. Impensável há uns tempos, uma coligação 5 Estrelas-Liga - até porque o movimento garantiu durante muito tempo ser contra qualquer aliança - parece hoje ser uma possibilidade. Uma eventual aliança entre 5 Estrelas e Liga (sem a influência moderadora do Força Itália de Berlusconi) é o pior pesadelo tanto de Bruxelas como dos mercados. Os dois partidos juntos teriam deputados suficientes para garantir a maioria parlamentar. E apesar das diferenças, há aspetos comuns nos seus programas - dos cortes nos impostos, ao aumento dos gastos com segurança social passando pela rejeição de certas regras da União Europeia, como o limite do défice nos 3%. No passado ambos defenderam a saída da Itália do euro, apesar de o 5 Estrelas já ter admitido que esta não é um boa altura para o fazer.

Se tudo falhar, Itália arrisca-se a ficar com um governo minoritário, apoiado caso a caso por outros partidos ou grupos no Parlamento. Uma solução tudo menos estável e que dificilmente durará muito.

Em caso de impasse total, Mattarella pode ter de intervir, nomeando um governo de iniciativa presidencial. Composto por tecnocratas, este terá como tarefa urgente trabalhar no orçamento para 2019 e preparar o caminho para novas eleições no próximo ano.

Durante as negociações, o primeiro-ministro Paolo Gentiloni, já demissionário, continuará a garantir os assuntos correntes.

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