"Para muitos, após 8 anos de um negro na Casa Branca, uma mulher nem pensar"

Com a vitória de Trump, o escritor americano Richard Zimler teve uma "sensação física de dor". Do novo presidente receia a influência que terá sobre o Supremo Tribunal e sobre os impostos. Dos democratas espera uma viragem à esquerda.

Os americanos confirmaram que não estão ainda preparados para votar numa mulher?

Acabo de ouvir o discurso de Hillary Clinton, que achei um discurso bonito e emocional. E no fim ela referiu as jovens mulheres e as crianças, dizendo que elas nunca deviam abandonar os seus sonhos e continuar a lutar. Faz parte do meu desapontamento hoje o facto de ainda haver muita gente nos EUA que não quer a igualdade para imigrantes, negros, mulheres e todas as minorias.

Esse foi um fator determinante para a derrota de Hillary?

Continuo a achar que para uma minoria de pessoas - não digo que seja muito grande, mas 5%, 10%, 15% - os oito anos de um negro na Casa Branca chegaram. Agora uma mulher, nem pensar. Há limites na paciência de gente racista e misógina. Eu não estou a dizer que haja 40%, mas há uma minoria significativa de pessoas que pensa assim.

Esta foi também uma derrota de Obama? Ele que foi eleito porque os americanos queriam a mudança, agora vê Trump chegar à Casa Branca porque as pessoas querem mudança?

É um fenómeno sociológico nos Estados Unidos e provavelmente em muitos outros países: os eleitores, não sei porquê, gostam muito de mudar o rumo. De oito em oito anos, de quatro em quatro anos. Eles votam por uma mudança simplesmente para ter uma mudança.

Escreveu no Facebook que a América está moribunda, acha que vai sobreviver a Trump?

Não sei se a América está moribunda. No meu coração está moribunda. O que sinto hoje é o que sinto quando vejo um amigo, uma pessoa amada no hospital, muito doente, e que talvez não vá sobreviver. É aquele nó de tristeza ao ver que tudo vai mudar de aqui em diante. É uma sensação física de dor. E penso que é porque a minha visão da América, que existe na minha cabeça, não consegue encaixar na versão da América proposta por Donald Trump.

O que esperar nos próximos quatro anos? Trump vai cumprir o que disse na campanha?

Eu penso que ele não vai conseguir muita coisa na vida política externa, porque o que os EUA fazem é muito condicionado por acordos e negociações e eu penso que é pouco provável que ele vá mudar a NATO e os acordos com a Europa e a Ásia. Nos EUA, a minha grande questão é o Supremo Tribunal norte-americano, porque provavelmente ele vai poder nomear pelo menos um e talvez até quatro juízes desse tribunal. E são juízes que determinam muitos aspetos da vida quotidiana dos americanos. Por exemplo, descriminalizar o aborto, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a utilização para fins médicos da marijuana. Estas são coisas básicas que afetam o dia-a-dia das pessoas. Esse é o meu grande medo. Outro grande medo tem que ver com as suas propostas para mudar o sistema de impostos. Hoje, o máximo para empresas é de 35% e ele diz que quer baixar para 15%. Mas porque é que uma corporação como a Apple ou Chevron devia pagar menos impostos do que eu? Primeiro. Em segundo, se ele reduzir os impostos de forma dramática, onde é que vai buscar dinheiro para financiar o Orçamento do Estado? Não vai tirar dinheiro do orçamento da Defesa, isso já sabemos. É intocável. Por isso vai ter de tirar dinheiro da Educação, da Ciência, da Cultura. O maior medo para mim é que ele vá aumentar o fosso entre pessoas ricas e pobres e reduzir os programas para todos os americanos.

Ontem vimos no discurso de Trump que estava rodeado de Rudy Giuliani e Chris Christie. Ter essas pessoas na administração vai agudizar o seu lado radical ou suavizar o seu discurso?

Provavelmente os seus ministros, os chamados secretários da administração, vão incluir pessoas mais moderadas e outras mais religiosas. Porque ele vai escolher pessoas do Partido Republicano. Eu sei que ele era um outsider no partido, mas foi eleito por ele. E nós sabemos que é um partido de gente conservadora, religiosa, reacionária. Alguns vão ser mais moderados, mais sensatos, mais intelectuais. Mas outro medo que tenho é que ele vá escolher cristãos fundamentalistas que queiram repor as orações nas escolas públicas.

Depois desta derrota, o Partido Democrata precisa de se renovar?

É verdade. Eu acho que há duas opções. A primeira é virarem à esquerda e tornarem-se um partido mais progressista, ao estilo Bernie Sanders. Eu acho que isso seria o rumo mais inteligente. Porque percebemos pelos resultados que as faixas etárias mais jovens - entre 18 e 45 anos - votaram maciçamente em Hillary Clinton. Dentro de quatro anos, para vencer as eleições, os democratas precisam dos eleitores com 50 anos ou menos e para isso têm de ser mais progressistas. Outra opção para o partido é conseguir o voto dos mais velhos, mais conservadores, e virar à direita. Acho que essa seria uma opção menos feliz do ponto de vista estratégico e humano. Mas é sempre uma opção.

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