Papa debaixo de fogo recorre ao maior perito em crimes sexuais do Vaticano

O arcebispo de Malta, Charles Scicluna, vai ao Chile ouvir as denúncias contra o bispo Juan Barros, acusado de ter encoberto os crimes do seu mentor. Na sua recente viagem ao país, Francisco defendeu-o com unhas e dentes

O Papa Francisco, que sempre disse ter "tolerância zero" para com os abusos sexuais, foi criticado até pelos seus aliados mais próximos depois da sua viagem ao Chile. Tudo porque defendeu com unhas e dentes o bispo Juan Barros, acusado de ter encoberto os crimes do seu antigo mentor, o padre Fernando Karadima. Agora, para se tentar redimir e numa altura em que surgem novas provas comprometedoras, Francisco vai enviar para o país o arcebispo de Malta, Charles Scicluna, conhecido como o maior perito em crimes sexuais do Vaticano.

"O Papa envia a cavalaria para se salvar a si mesmo", dizia o título de um artigo de opinião publicado no site do Religion News Service sobre a decisão de enviar o "verdugo de Maciel" para o Chile. Scicluna, de 58 anos, foi o responsável por preparar o processo contra o padre mexicano Marcial Maciel, fundador dos Legionários de Cristo, afastado pelo Papa Bento XVI em 2005 após décadas de abusos sexuais contra menores e seminaristas. Foi condenado a "uma vida de oração e penitência", acabando por morrer em 2008.

A mesma pena foi ditada em 2011 contra Karadima, que tem 87 anos e vive num lar para sacerdotes em Santiago do Chile. Padre no bairro de El Bosque, um dos mais exclusivos da capital chilena, foi afastado por abusos de adolescentes durante as décadas de 1980 e 1990. Um processo no qual também participou Scicluna, que no total já esteve envolvido em mais de três mil investigações canónicas contra membros da Igreja desde que entrou para a Congregação para a Doutrina da Fé, em 2001.

Nascido em Toronto (Canadá) a 15 de maio de 1959, Scicluna ainda não tinha um ano quando os pais regressaram ao país natal: Malta. Estudou Direito e Teologia e foi ordenado padre em 1986, tendo também um doutoramento em Direito Canónico tirado em Roma. Em 1995 começou a carreira no Vaticano, primeiro como procurador adjunto destacado para o Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica e depois na Congregação para a Doutrina da Fé, então dirigida pelo cardeal Joseph Ratzinger (futuro Papa Bento XVI). Em janeiro de 2015, um mês antes de se tornar arcebispo de Malta, o Papa nomeou-o presidente da equipa que, dentro da Congregação, é responsável pelas denúncias de abusos perpetrados por membros da Igreja.

Aquele que é considerado o maior perito em crimes sexuais do Vaticano terá agora de ouvir o testemunho das vítimas de Karadima, que acusam Barros de ter testemunhado os abusos sem nada fazer. Em 2015, apesar das denúncias, Francisco nomeou Barros bispo da região de Osorno, no Sul do Chile, e por duas vezes rejeitou os seus pedidos de demissão. Karadima sempre negou os crimes e Barros ter estado ao corrente do que se passava.

No Chile, o Papa apelidou de "calúnias" as acusações contra o bispo (esteve na primeira fila em todas as missas que Francisco celebrou), dizendo que "no dia em que vir provas" contra Barros "então falará". Os comentários geraram críticas generalizadas, levando até o cardeal de Boston Sean O"Malley, responsável pela Comissão Pontifícia para a Proteção de Menores (criada para dar resposta aos abusos), a dizer que tinham causado "grande dor".

No avião de volta a Roma, Francisco pediu desculpas às vítimas (encontrou-se com duas na viagem, mas não das que denunciaram Barros), substituindo a palavra "provas" por "evidências", mas insistindo na inocência do bispo. No final de janeiro, o Vaticano anunciou que ia enviar Scicluna para ouvir "quem mostrou vontade de dar a conhecer os elementos que possui". Contudo, antes de ir até Santiago do Chile, o arcebispo vai passar primeiro por Nova Iorque, a 17 de fevereiro.

É nos EUA que vive uma das vítimas de Karadima que, depois de ouvir as palavras do Papa a pedir "provas", veio a público revelar a carta de oito páginas que lhe enviou em 2015. Nela Juan Carlos Cruz descrevia de forma detalhada como o padre chileno abusou dele e como Barros e outros sabiam e nada fizeram. "Mais difícil era quando estávamos no quarto de Karadima e Juan Barros - se não estava a beijar o Karadima - ficava a ver enquanto o Karadima nos tocava - aos menores - e nos obrigava a beijá-lo", diz a missiva, a que a agência AP teve acesso. "Barros testemunhou isto inúmeras vezes, não apenas comigo, mas com outros", acrescentou.

A carta foi entregue em mãos a O"Malley que se comprometeu a entregá-la a Francisco e que, dias depois, confirmou que o tinha feito. Daí que tenha causado raiva o facto de o Papa dizer que nunca tinha ouvido nenhuma vítima falar de Barros. Este é mais um episódio negativo a juntar-se à lentidão com que avançam os esforços de Francisco de lutar contra os abusos na Igreja.

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