Papa abre a porta ao uso do preservativo para combater o Zika

Líder do Vaticano assume que entre o "demónio absoluto" que é o aborto e a contraceção, esta é o menos dos males

O Papa Francisco afirmou hoje que, no combate ao vírus Zika, pode ser justificável a utilização de métodos contracetivos, como o preservativo, naquilo que pode ser entendido como um discurso que se afasta da doutrina vigente na Igreja Católica.

Na viagem de regresso à visita ao México, Francisco reiterou a oposição da instituição que lidera ao aborto de fetos com microcefalia, doença que estará ligada à infeção pelo Zika. E acabou por dizer que o recurso a métodos contracetivos artificiais para evitar a gravidez, em situações extremas, será aceitável.

O Papa reiterou que, na sua perspetiva, o aborto é crime em qualquer circunstância - chamou mesmo à interrupção voluntária o "demónio absoluto" - e que "evitar a gravidez não é um mal absoluto" pelo que, em situações de extremo risco, a utilização de métodos contracetivos é "o menor dos males".

O aborto "é matar uma pessoa para salvar a outra. É o que faz a máfia... É o demónio absoluto", disse Francisco, citado pelo jornal britânico The Guardian, que acompanha o sumo pontífice nesta visita.

O Papa fez questão de lembrar que não é a primeira vez que a igreja católica abre a porta, em casos excecionais, à utilização de métodos de contraceção. E referiu Paulo VI que permitiu que freiras em África tomassem a pílula quando estivessem em regiões onde corressem alto risco de serem violadas.

A Organização Mundial de Saúde estima que pelo menos quatro mil bebés nasceram nos últimos meses com microcefalia, doença em que o bebé nasce com a cabeça anormalmente pequena, uma malformação que, segundo vários cientistas, estará ligada à infeção da mãe durante a gravidez pelo vírus Zika.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Henrique Burnay

Discretamente, sem ninguém ver

Enquanto nos Estados Unidos se discute se o candidato a juiz do Supremo Tribunal de Justiça americano tentou, ou não, há 36 anos abusar, ou mesmo violar, uma colega (quando tinham 17 e 15 anos), para além de tudo o que Kavanauhg pensa, pensou, já disse ou escreveu sobre o que quer que seja, em Portugal ninguém desconfia quem seja, o que pensa ou o que pretende fazer a senhora nomeada procuradora-geral da República, na noite de quinta-feira passada. Enquanto lá se esmiúça, por cá elogia-se (quem elogia) que o primeiro-ministro e o Presidente da República tenham muito discretamente combinado entre si e apanhado toda a gente de surpresa. Aliás, o apanhar toda a gente de surpresa deu, até, direito a que se recordasse como havia aqui genialidade tática. E os jornais que garantiram ter boas fontes a informar que ia ser outra coisa pedem desculpa mas não dizem se enganaram ou foram enganados. A diferença entre lá e cá é monumental.

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.