País Basco vai a votos e a maioria não quer saber de Rajoy, Sánchez e companhia...

Autonómicas preocupam mais do que indefinição política em Madrid. Longe dos tempos da ETA, maioria quer independência.

Entre as celebrações da Semana Grande de Bilbau (Aste Nagusia Bilbao) e a excitação da passagem da Vuelta, os bascos não têm tempo ou grande interesse na situação política de Espanha. Até porque estão mais preocupados com as eleições autonómicas de dia 25.

Nas ruas fala-se de Mariano Rajoy, chefe do governo espanhol em funções, de Pedro Sánchez, secretário-geral do PSOE, ou de Pablo Iglesias, líder do Podemos, como se fossem líderes de partidos de um país vizinho. "Somos do País Basco", atira o taxista Max Glembloztky à reportagem do DN, defendendo a independência como forma de sobrevivência de uma identidade própria que muito o orgulha (ver ao lado).

Na zona histórica, o Casco Viejo, são mais os turistas encantados com as igrejas, edifícios históricos e bodegas (bares) do que bascos a discutir política. "Enquanto não nos derem a independência não quero saber da política para nada", alega "um reformado sem nome", como se identifica, abrindo o jornal e mostrando as páginas da secção de Desporto. Prefere falar do Athletic e da beleza do novo San Mamés, "um dos estádio mais míticos e bonitos do mundo". Porque "esses sim dão algumas alegrias".

Mesmo sabendo que a reportagem é para Portugal, muitos preferem falar anonimamente. O tempo dos etarras já lá vai, mas a herança dessa época é pesada. E os mais velhos, que hoje gozam a reforma nos jardins à beira-rio a ver passar o tempo, ainda têm memória da longa campanha de atentados da ETA, organização à qual se atribui pelo menos 839 mortos em 40 anos.

A própria Volta a Espanha em bicicleta esteve ausente do País Basco durante anos devido ao medo de atentados. Voltou neste ano depois de cinco anos de ausência e Unai Rementeria, deputado geral de Biscaia, província do País Basco, disse no final da 12.ª etapa, a que o DN assistiu, que falou com o diretor da Vuelta, Javier Guillén, sobre "a possibilidade de receber a última etapa em 2018", justificando que o evento "é bom para a economia local".

O desinteresse político de Bilbau é reflexo do que se passa um pouco por todo o País Basco, comunidade autonómica de Espanha que conta com cerca de 2, 5 milhões de habitantes, os quais se dividem entre nacionalistas pró-independência e separatistas.

Desde as eleições de 2012 que o o voto pró-independência é maioritário, altura em que o PNV obteve 27 dos 75 assentos no Parlamento autonómico, enquanto a esquerda separatista do EH Bildu conseguiu 21. No País Basco, o PP foi apenas a terceira força política e os bascos não nutrem grande respeito por Mariano Rajoy.

Mas nas eleições de dia 25 há que ter em conta a ascensão do Podemos, partido de esquerda radical que defende a organização de um referendo sobre a autodeterminação no País Basco, como na Catalunha, e foi o mais votado na região nas últimas eleições legislativas (29% dos votos). E saber se ultrapassará o PNV ou não.

Depois há a questão de Arnaldo Otegi. Se será ou não candidato pelo Bildu, partido independentista de esquerda, uma vez que foi condenado em 2011 por pertencer ao grupo terrorista ETA e, por isso, proibido de exercer um cargo público até 2021. Otegi recorreu ao tribunal para poder ser candidato, mas viu o juiz negar o pedido em primeira instância. Mas o Bildu ainda não desistiu de o ver chegar ao Palácio Chávarri, sede do Governo Civil, a delegação do governo central espanhol em Biscaia, desde 1943.

Em Bilbau

A jornalista viajou a convite da Eurosport para acompanhar uma etapa da Vuelta

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Catarina Carvalho

Arnaldo, Rui e os tuítes

Arnaldo Matos descobriu o Twitter (ou Tuiter, como ele dizia), em 2017. Rui Rio, em 2018. A ambos o destino juntou nesta edição. Por causa da morte do primeiro, que o trouxe à nostálgica ordem do dia, e por o segundo se ter rendido à tecnologia da transmissão de ideias que são as redes sociais. A política não nasceu para as ideias simples com as redes sociais. Mas as redes sociais vieram dar uma ajuda na rapidez ao passar as mensagens. E a chegar a mais gente. E da forma desejada, sem a, por vezes incómoda, mediação jornalística. É isso mesmo que diz, e sem vergonha, note-se, uma fonte do PSD, no trabalho sobre a presença de Rui Rio no Twitter. "É uma via para dizer exatamente o que pensa e dar a opinião, sem descontextualizações." O jornalismo como descontextualização. Ou seja, os políticos que aderem às redes sociais fazem-no no mesmo pressuposto da propaganda. E têm bons exemplos a seguir, como Trump, mestre nos 280 carateres que o ajudaram a ganhar eleições. Foi o Twitter que trouxe Arnaldo Matos das trevas da extrema-esquerda para o meio mediático. Regressou como fenómeno, não apenas pelas polémicas intervenções no velho partido, o MRPP, onde promoveu rixas, expulsou camaradas por desvios de direita, mas, sobretudo, pela excelente adaptação à forma que a tecnologia do Twitter lhe proporcionava para passar a sua mensagem política dura, rápida, cruel e, sim, simplista. Para quem não quer perder muito tempo com explicações, o Twitter é ideal. Numa prosa publicada na página do partido, Luta Popular, Arnaldo Matos fazia o que sabia fazer, doutrina, sobre o assunto. Dizia que as suas publicações, batendo "todos os recordes em Portugal", se tornavam "tão virais" que já nem ele as controlava E sem nenhum recuo ou consideração sobre a origem "capitalista" desta transmissão informativa queixava-se de as mensagens não serem vistas pelos "camaradas do partido". Resumindo: "Os tuítes são pequenas peças de agitação e de propaganda políticas, que permitem aos militantes do PCTP/MRPP manter uma informação permanente sobre a vida política nacional e internacional." Dizia também que este método "fornece uma enorme quantidade de temas que armam a classe operária para a difusão de opiniões que caracterizam os seus pontos de vista de classe". Ninguém diria melhor do que um "educador" de classe, operária ou outra, e nem mesmo Jack Dorsey ou Noah Glass ou Biz Stone, ou Evan Williams, os fundadores da rede social, a saberiam defender de forma tão eficaz. E enganadora. A forma como Arnaldo Matos usava o Twitter era um pouco menos benévola do que podia parecer destas palavras. Zurziu palavras simples e fortes contra velhos ódios: contra o "putedo" da esquerda, o "monhé" António Costa, os sociais-fascistas do PCP e, até, justificando ataques terroristas como os do Bataclan em Paris. Mandava boutades que no ciberespaço se chamam posts. E, depois, os jornalistas faziam o resto, amplificando a mensagem nos órgãos de comunicação social tradicionais. Na reportagem explica-se que o objetivo dos tuítes de Rui Rio é, também, que os jornalistas "peguem" nas mensagens e as ampliem. Até porque ele tem apenas cerca de três mil seguidores - o que não é pouco, tendo em conta a fraca penetração da rede em Portugal. Rio muda quando está no Twitter. É mais contundente e certeiro. Arnaldo Matos era como sempre foi, cruel e populista. Ambos perceberam o funcionamento das redes sociais, que beneficiam os políticos, mas prejudicam a democracia. Porque incentivam ao "tribalismo", juntando quem pensa igual e silenciando quem acha diferentes. Que contribuem para a diluição das mediações que leva com ela o pensamento, a crítica, e traz consigo a ilusão da "democracia direta" que mais não é do que outra forma de totalitarismo. Estas últimas ideias são roubadas da apresentação de Pacheco Pereira na conferência sobre o perigo das fake news organizada nesta semana pela agência Lusa. Dizia ele que não devemos ter complacência com a ignorância - que é a base do espalhar de notícias falsas. Talvez os políticos devessem ser os primeiros a temê-la, à ignorância.