Pablo Casado: um conservador de 37 anos para endireitar o PP

Novo líder representa uma mudança geracional no PP, mas também é visto como um regresso ao passado. Quer um partido que não tem medo de ser de direita e espera fazer esquecer os escândalos da era Rajoy.

Para "tentar reconquistar o coração dos espanhóis, é preciso voltar a recuperar a nossa identidade", disse Pablo Casado no seu discurso de vitória, após ser eleito para suceder a Mariano Rajoy na liderança do Partido Popular espanhol. A identidade que o novo líder defende para renovar o partido é uma que não tem medo de ser de direita: "O PP está de volta."

Aos 37 anos, o até agora vice-secretário do PP conquistou 57,2% dos votos dos delegados no XIX Congresso Extraordinário, derrotando a antiga número dois de Rajoy, Soraya Sáenz de Santamaría. A sua eleição representa uma mudança geracional na liderança do PP. Mas também é visto como um defensor de um partido mais conservador.

No discurso de vitória, como antes na apresentação das suas propostas aos delegados,saiu em defesa das famílias "sem complexos", dizendo que "não há nada mais progressista" do que defender a vida, a natalidade, opondo-se a uma lei de eutanásia "injusta e desnecessária" e criticando a lei do aborto. Um discurso que já tinha quando entrou para a política, aos 22 anos.

Defendeu ainda uma "regeneração política" com uma reforma eleitoral que recompense o vencedor "de forma a não dependermos de nacionalistas nem de nenhum partido que prejudique o nosso projeto", mas também uma diminuição dos impostos sobre as empresas e "reforçar o Código Penal para evitar qualquer desafio secessionista".

Perfil

Casado nasceu em Palencia, na comunidade de Castela e Leão, a 1 de fevereiro de 1981. Estudou Direito, mas o seu mestrado ficou debaixo de suspeita depois do caso com Cristina Cifuentes (ex-presidente do governo de Madrid, obrigada a demitir-se por causa do escândalo sobre o curso). Casado fez o mesmo mestrado em Direito Autonómico e Local, na Universidade Rei Juan Carlos, em Madrid, sem ir às aulas e quase sem apresentar trabalhos. Há ainda uma investigação aberta sobre o caso.

Filiado no PP desde os 22 anos, Casado foi líder da juventude popular - Nuevas Generaciones - em Madrid de 2005 a 2013. Uma das suas mentoras é a ex-presidente da Comunidade de Madrid Esperanza Aguirre, tendo sido também próximo do ex-primeiro-ministro espanhol José María Aznar.

"É o único que defendeu os valores e os princípios do partido de que, infelizmente, parece que nos tínhamos esquecido", afirmou Aguirre, ao declarar o seu apoio. Quanto a Aznar, escolheu-o para ser seu chefe de gabinete na FAES, o think tank que criou após deixar o governo, cargo que Casado ocupou entre 2009 e 2012.

O ex-primeiro-ministro foi um dos convidados do casamento de Casado com Isabel Torres Orts, em 2009. O casal tem dois filhos, um deles nasceu prematuro, com apenas 25 semanas de gestação e 700 gramas. Os quatro meses que passou nos cuidados intensivos foram um dos momentos mais difíceis da sua vida.

Deputado na Assembleia Regional de Madrid entre 2007 e 2009, seria eleito deputado nacional por Ávila, a partir de 2011. Mariano Rajoy, que agora lhe passou a pasta, foi buscá-lo em 2015 para ser vice-secretário para a Comunicação do PP.

Antídoto a Rivera

"O Congresso da renovação não podia ser ganho pela governanta de Rajoy. Casado teve muito mais consciência não só da mensagem, da oratória, da mimese macroniana - nas formas -, mas também dos eleitores a que se dirigia", escreveu Rubén Amón, numa análise no El País.

No texto, o jornalista fala da vitória de Casado como o regresso do PP à sua essência. "Um partido liberal, patriótico, católico". Desta forma, refere, "a sua vitória parece mais uma regressão do que uma renovação, mas inclui uma mudança geracional e predispõe a um cenário político excitante".

Isto porque, explica, "Casado é um antídoto absoluto a Albert Rivera", o líder do Ciudadanos (que tem vindo a subir nas sondagens e já chegou a estar em primeiro), e porque "a viagem à direita necessária para a vitória neste Congresso dará provavelmente lugar a uma moderação cujas ambições aspiram a complicar as coisas a [Pedro] Sánchez". O primeiro-ministro socialista que chegou à Moncloa após uma moção de censura a Rajoy e que conta com o apoio do Podemos e de vários partidos nacionalistas.

No El Mundo, o responsável pela secção de opinião, Jorge Bustos, diz que "Casado conseguiu desenhar num mês e meio uma liderança própria porque tinha um líder dentro dele, há muito tempo pensado, que o tampão marianista [numa referência a Mariano Rajoy] impedia de sair".

Na sua opinião, "o congresso foi um julgamento ao marianismo, e o marianismo foi condenado à morte", com Bustos a dizer que Rajoy fez um favor a Casado ao nomeá-lo para um cargo secundário, porque assim o deixou à distância necessária para poder agora desferir os seus golpes.

Sobre o futuro, escreve Bustos que o novo presidente tem de escolher: "Se continua no essencialismo, o Ciudadanos vai tornar-se forte ao centro. Se modera a mensagem, corre o risco de desmobilizar aqueles a quem acaba de devolver a esperança."

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