"Os venezuelanos aprenderam finalmente o que é a saudade"

O Instituto IDL Amaro da Costa trouxe a Lisboa dois políticos venezuelanos que se exilaram em Espanha e uma lusodescendente que trocou Caracas pelo Funchal há 11 anos. Falaram da situação atual na Venezuela e do que se pode esperar.

O historiador Ysrrael Camero trocou a Venezuela por Espanha há seis meses e diz que, hoje, ele e milhões de venezuelanos que vivem fora do seu país natal percebem a "tristeza nostálgica" de que falavam os portugueses com quem cresceram e que até agora não conseguiam compreender: "Os venezuelanos aprenderam finalmente o que é a saudade. É o sentimento que hoje emociona os venezuelanos onde quer que estejam."

O diretor de investigação e desenvolvimento na Assembleia Nacional venezuelana foi um dos convidados da conferência "Venezuela e Portugal - Testemunhos e Respostas", organizada pelo Instituto IDL Amaro da Costa, em Lisboa. No programa estava inicialmente Antonio Ledezma, ex-presidente da região da Grande Caracas, que fugiu da prisão domiciliária e se exilou em Espanha, mas este foi enviado pelo presidente interino venezuelano, Juan Guaidó, para Roma, para tentar convencer um dos poucos países da União Europeia que ainda não o reconheceram oficialmente.

Camero lembrou em Lisboa que a solidariedade entre o povo venezuelano e português é de longa data, tendo agradecido o trabalho dos portugueses que ajudaram a levantar a Venezuela. Estima-se que a comunidade portuguesa e de lusodescendentes chegue aos 400 mil no país.

Sendo historiador, começou por recordar a história: "Em 1998, quando Hugo Chávez chegou à presidência, apanhou uma democracia em crise e converteu-a num processo autoritário. Agora passámos a uma ditadura aberta", explicou, lembrando que o aprofundar do empobrecimento da sociedade venezuelana atingiu particularmente os portugueses, que eram pequenos e médios comerciantes e produtores.

"Em 2015 conquistámos a Assembleia Nacional e é por isso que hoje podemos dar a luta que estamos a dar", disse, referindo-se à vitória que deu a maioria absoluta à oposição. "O assumir da presidência interina por parte de Guaidó não é uma situação de autoproclamação, está na lei. O que está a acontecer é voltar à Constituição", reiterou.

A 23 de janeiro, Guaidó assumiu a presidência interina, desconhecendo o segundo mandato de Nicolás Maduro, que tomou posse a 10 de janeiro. As eleições de maio do ano passado foram consideradas fraudulentas por parte da comunidade internacional, incluindo EUA e União Europeia.

Camero explicou os próximos passos: "A lei do estatuto de transição estabelece o caminho a seguir: fim da usurpação, a criação de um governo de transição para finalmente chegar às eleições livres, democráticas e abertas. A oposição venezuelana lutou sempre por uma solução pacífica, política, democrática, constitucional para a Venezuela", referiu.

Outra lei importante que está a ser discutida é a da amnistia, com o objetivo de "caminhar para um país reconciliado". "A todos os que estejam dispostos a dar um passo em frente e deixar a ditadura para trás, prevemos a amnistia", contou.

A União Europeia não tem falado a uma só voz, com alguns países como Itália a não reconhecer Guaidó. Agradecendo aquilo que já foi feito, Camero explica o que pode a UE fazer mais. "A curto prazo continuar a apoiar a pressão internacional para que o pouco suporte que ainda apoia Maduro se quebre. Pressão financeira e diplomática. Depois, permitir e impulsionar a chegada de ajuda humanitária à Venezuela", disse.

"A médio prazo, o estatuto da transição prevê 12 meses para a realização de eleições livres", explicou, dizendo que a UE pode ajudar na organização do escrutínio. "A longo prazo: a reconstrução da Venezuela futura", indicou, referindo que para isso "é vital a cooperação económica para o desenvolvimento e cooperação técnica para o desenvolvimento". Nesse ponto mostrou-se confiante do apoio de Portugal.

"Este não é um tema de esquerdas ou de direitas, mas de totalitarismo contra a democracia. É um compromisso que requer solidariedade de todos os democratas do mundo", concluiu.

"Não queremos mais polarização, queremos ser só um povo"

O advogado e assessor na Assembleia Nacional venezuelana, Aldo de Santis, já saiu há dois anos da Venezuela. Agora, o seu papel é contar no exterior qual é o plano do presidente interino e da oposição a Maduro. "A política, na Venezuela, é uma profissão de alto risco", explicou.

"A lei de estatuto para a transição é um roteiro constitucional para a transição democrática. O que se procura é o fim da usurpação, um governo de transição e a realização de eleições livres", contou, lembrando que os membros do regime "eram um poder legítimo até dia 10, mas desde então são usurpadores".

"Desde a Assembleia Nacional propomos uma lei de amnistia, porque os venezuelanos precisam de união. A Venezuela tem de enfrentar no futuro uma decisão: uma justiça perseguidora ou uma justiça reparadora. Eu aposto na segunda", explicou. "Não queremos mais polarização, queremos ser um só povo", acrescentou, defendendo que "a diferença que exista seja só entre equipas de baseball". Um desporto mais popular do que o futebol.

De Santis deixou ainda o aviso: "Na questão comunicacional temos de estar preparados, porque o regime de Maduro tem a tendência de fugir para a frente, isto é, de fugir com propostas. Não nos vamos surpreender se a Assembleia Nacional Constituinte dissolver a Assembleia Nacional e convocar eleições. Quer tirar-nos a agenda política, algo que já recuperámos. Não podemos permitir que isso aconteça", afirmou, temendo ainda a possibilidade de a Constituinte aprovar a nova Constituição, através de uma consulta popular, que instaure um Estado autoritário.

O assessor explicou também que esta é uma semana muito importante porque a ajuda humanitária que está à espera de entrar na Venezuela vai tentar fazê-lo, esperando que as Forças Armadas não atuem para o impedir. "As Forças Armadas não são as chefias que estão com Maduro", afirmou, lembrando um rapaz de 9 anos que morreu com uma simples infeção porque não tinha acesso a medicamentos. "Como é possível isto acontecer num dos países mais ricos do continente americano", questionou, pedindo para que a pressão internacional sobre Maduro não pare.

"Venezuelana orgulhosa de ser portuguesa"

Ana Cristina Monteiro trocou Caracas pela Madeira há 11 anos, a fugir da corrupção e da insegurança, apresentando-se como "uma venezuelana orgulhosa de ser portuguesa". Os amigos estranharam que ela, uma mulher citadina, trocasse Caracas por uma ilha pequena. "Mas a Madeira era grande quando comparada com o pequeno mundo em que vivia entre casa, escola e o centro comercial onde fazia as compras", explicou, dizendo que na ilha conquistou a liberdade que não tinha.

Ana Cristina Monteiro é vereador do CDS na Câmara do Funchal e presidente da Venecom, Associação da Comunidade de Imigrantes Venezuelanos na Madeira. "Nunca fui política, mas a Venezuela ensinou-me que todos devemos fazer parte da política", indicou Monteiro.

Sobre a associação, contou como há dois anos "as pessoas começaram a chegar numa situação desesperada, víamos nos olhos delas". Então, junto com outra colega advogada, tiveram a ideia de criar a associação "para ajudar os venezuelanos, transmitindo aos que estão a chegar a experiência que já tínhamos adquirido". O objetivo? "A integração na Madeira, que passa desde a receção ao encaminhamento às instituições adequadas, desde questões burocráticas até às questões sociais, com o encaminhamento para bancos alimentares e outros mecanismos de auxílio", referiu.

E deixou o pedido: "A Venezuela precisa que os países abram as portas e recebam quem está a precisar de ajuda."

"Entre ditadura e democracia"

A conferência foi organizada pelo Instituto IDL Amaro da Costa, ligado ao CDS: "Sabemos de que lado estamos quando está em causa quer a democracia quer a liberdade", disse o presidente do instituto, o ex-deputado Diogo Feio.

Nuno Melo, eurodeputado e cabeça-de-lista do CDS às europeias de maio, lembrou que a Venezuela sempre esteve no centro da ação política do partido, já desde os tempos da "deriva" de Hugo Chávez. "Agora que a ditadura se consolidou", Melo diz que tem repetido os pedidos de ação nas instituições europeias. "Hoje o que está em causa não é uma questão entre esquerda e direita, é uma questão entre ditadura e democracia, entre decência e opressão", referiu. "Não houve um único caso na história em que o comunismo mandasse que não acontecesse o que acontece agora na Venezuela", afirmou, dizendo que a diferença é que hoje há telemóveis a filmar.

Nuno Melo lembrou que a Venezuela é o país com as maiores reservas de petróleo do mundo, indicando que "só por alucinação não se vê o que lá se passa". E passou a enumerar: "Hoje temos um povo à míngua. Faltam medicamentos nas farmácias, as pessoas comem dos caixotes do lixo, nos hospitais não podem ser assistidas. Os opositores são detidos, outros são mortos", indicou o eurodeputado, falando em "mártires". Melo disse que é isto que acontece hoje na Venezuela. "Não se consegue perceber como alguém defenda aquilo que acontece", acrescentou, falando num governo "alucinado" que impede na fronteira a entrara "não de armas, mas de alimentos, de medicamentos".

"Reconhecer Guaidó é defender o reconhecimento da decência e da democracia", disse o eurodeputado, lembrando que o CDS foi o primeiro partido a pedir o seu reconhecimento. E deixou críticas para o PCP e o Bloco de Esquerda, explicando que são partidos que dizem defender a democracia mas que apoiam a ditadura.

"Mas não chega reconhecer Guaidó como presidente interino", alegou Nuno Melo. "É preciso assegurar que a segurança das pessoas e as suas vidas são protegidas", indicou, defendendo uma "transição pacífica" e "sem mais vítimas". E avisou: "Um Estado tem de ser governado com lucidez e na Venezuela há muito que o patamar da lucidez se perdeu."

No final, a presidente do partido, Assunção Cristas, reiterou que "há uma fronteira que é intransponível, aquela que distingue a democracia da ditadura", deixando a crítica ao PCP e ao Bloco de Esquerda. "Isto situa-se para lá da diferença entre partidos, entre direita e esquerda, mas quando vemos partidos no nosso Parlamento a fazer votos de apoio a um regime autoritário, desumano, que tem o seu povo aprisionado, então percebemos que há um combate que precisamos de continuar a travar, a bem da democracia em Portugal e da verdadeira democracia", afirmou.

Sobre os planos do governo português para retirar portugueses e lusodescendentes da Venezuela disse não saber pormenores. "Não conhecemos os pormenores, mas se for igual para todos os partidos, preferimos não conhecer, para que o Partido Comunista também não conheça os planos."

Assunção Cristas contou que a primeira viagem que quis fazer foi à Venezuela, mas que lhe foi dito que não era possível garantir a segurança. Após a transição democrática, que espera seja rápida, a líder do CDS garante que será uma das primeiras a ir ao país para felicitar os venezuelanos.