incêndio

Os tesouros que se salvaram e os que ficaram destruídos em Notre-Dame

Parte das relíquias da catedral, como a coroa de espinhos de Jesus, foi salva por uma "formidável corrente humana".

Quinze longas horas. Os bombeiros deram como extinto o incêndio de Notre-Dame, que começou ontem às 17.50, apenas na manhã desta terça-feira. Horas de aflição, uma corrida contra o tempo para salvar os tesouros guardados na catedral e a estrutura do século XII.

E se boa parte das relíquias foram salvas por uma "formidável corrente humana" de bombeiros e polícias, como lhe chamou a presidente da câmara de Paris, há outras que estarão irremediavelmente perdidas e que nem os 300 milhões de euros já angariados para a reconstrução do monumento conseguirão recuperar.

Pelo meio, há ainda muitas obras de arte que serão analisadas para perceber como foram afetadas pelas chamas, pelo fumo e pela água. "Agora", sublinham os bombeiros, "é a fase dos especialistas"

O que se salvou

A Coroa de Espinhos

Qualquer inventário das relíquias de Notre-Dame tem obrigatoriamente de começar pelo seu maior tesouro e um dos maiores de toda a cristandade. A coroa de espinhos, que os católicos acreditam ter sido colocada na cabeça de Jesus antes da crucificação, foi salva das chamas pelos bombeiros, confirmou a presidente da câmara de Paris. Depois de ter estado em Jerusalém e de ter passado por Constantinopla (atual Istambul), foi levada para Paris em meados do século XIII por Luís IX, o rei francês que mais tarde se tornaria santo. Os seus espinhos originais - embora continue o debate sobre a originalidade da própria coroa - foram distribuídos por relicários de todo o mundo, sendo que em Notre-Dame ficou a coroa, venerada pelos milhões de fiéis que todos os anos visitam a catedral. A relíquia era apresentada ao público na primeira sexta-feira de cada mês e em cada sexta-feira da Quaresma, o período que agora vivemos.

A Túnica de S. Luís

A túnica que terá sido usada em 1238 por Luís IX, o único rei-santo de França, quando levou a coroa de espinhos de Jesus para Paris, também está a salvo. A notícia foi confirmada pelo reitor da catedral e pela presidente da câmara, Anne Hidalgo. Coroado em 1226, Luís IX terá recuperado a coroa de espinhos depois de ter sido usada pelo imperador Balduíno II de Constantinopla como garantia para um empréstimo junto dos venezianos. O rei francês morreu em 1270, durante a oitava cruzada, e foi canonizado em 1297.

O vitral norte

Das três rosáceas que representam as flores do paraíso, construídas no século XIII e restauradas nos séculos seguintes, nomeadamente depois dos tumultos em 1830/31, apenas uma terá escapado ao incêndio desta segunda-feira. O enorme vitral norte, com cerca de 13 metros de diâmetro, contém cenas do Antigo Testamento dispostas em torno da imagem central da virgem e, segundo relatos de jornalistas franceses, "parece ter resistido".

Estátuas dos Apóstolos

Uma operação de restauro, iniciada apenas quatro dias antes do incêndio, salvou 16 estátuas de cobre de Notre-Dame que estavam junto ao pináculo. As obras, que representam os 12 apóstolos e ainda os quatro evangelistas, Mateus, Marcos, Mateus e João, datam do século XIX e tinham sido levadas para serem restauradas em Périgueux, no sudoeste do país.

As torres

Muito provavelmente os elementos mais fotografados do monumento, as duas torres de estilo gótico que marcam a fachada ocidental da catedral mantêm-se intactas, tal como os seus sinos, garantem as autoridades francesas. "Os dois campanários foram salvos", informou Gabriel Plus, porta-voz do Corpo de Bombeiros de Paris, ao início da manhã desta terça-feira. O maior e mais famoso dos dez sinos de Notre-Dame, ao qual Luís XIV colocou o nome de Emannuel no século XVII, está colocado na torre sul e pesa mais de 23 toneladas. Já tinha sobrevivido à Revolução Francesa, período durante o qual outros sinos da catedral foram derretidos, e os especialistas consideram-no um dos exemplares mais importantes da Europa. Victor Hugo e o 'seu' corcunda ajudaram também a cimentar a fama dos sinos de Notre-Dame. Ambas as torres medem 68 metros de altura e a primeira a ser concluída foi a norte, em 1240, tendo os trabalhos na torre sul acabado dez anos depois. Têm 387 degraus cada uma.

Os pórticos

Tal como as torres, também os três grandes pórticos da fachada ocidental ficaram a salvo. "O Portal da Virgem", à esquerda, retrata a morte de Maria, a sua ascensão e sua coroação como rainha do céu; ao centro, "O Portal do Julgamento", instalado por volta de 1220; e à direita o "Portal de Santa Ana", que data de 1200.

O que ficou destruído


O pináculo


É o símbolo da tragédia. Cerca de uma hora depois do início do incêndio, o grande pináculo de Notre-Dame - La Fléche, ou a Flecha, em Português - desmoronou-se. Erguido em 1860, na grande campanha de restauração da catedral sob a direção de Viollet-le-Duc, erguia-se a 48 metros de altura e era feito de madeira de carvalho e coberto de chumbo. O primeiro pináculo foi construído por volta de 1250 e desmantelado de 1786 a 1792.

O órgão

Um dos tesouros da catedral e da música europeia estará "quase totalmente destruído". Quem o diz é o vigário geral da arquidiocese de Paris, Benoiste de Sinety. E a causa da sua destruição não terá sido o fogo, mas sim a água usada pelos bombeiros no combate ao incêndio. Começou a ser construído em 1403, sofreu várias ampliações até ao céculo XVIII e outras tantas obras de restauro, a mais recente em 2013. Alguns dos seus cerca de oito mil tubos ainda remontavam à Idade Média. Segundo o site da catedral, atravessou a Revolução sem danos, "graças provavelmente à interpretação da música patriótica". Era o maior dos três órgãos da catedral.

A floresta

"Mais de 100 metros de comprimento, 13 de largura, na nave, 40 metros de cruzamentos [entre vigas] e 10 metros de altura" que desapareceram com as chamas. A estrutura em madeira de suporte à cobertura de Notre-Dame constituía um dos mais antigos testemunhos da carpintaria francesa, com os elementos mais remotos a datar de 1147, segundo a informação publicada no 'site' da catedral. A composição ganhou aliás "o nome romântico de floresta", por causa do grande número de troncos de madeira que tinham de ser usados. "No coro, existia uma primeira armação com madeira de árvores abatidas entre 1160 e 1170", segundo a datação feita, admitindo-se que alguns blocos existentes no edifício "poderiam somar já 300 a 400 anos", na altura da construção, o que estabeleceria a origem mais remota da madeira usada nos "séculos VIII ou IX". "Esta primeira armação [do coro] desapareceu", acrescenta a descrição. "Mas a madeira foi reutilizada numa segunda estrutura construída em 1220", e aí permanecia.

Dúvidas


Pedaço da cruz de Jesus e prego

Se as autoridades se apressaram a garantir que a coroa de espinhos estava a salvo, ainda não houve informação sobre as outras duas relíquias ligadas com a paixão de Cristo que estavam guardadas na catedral: um pedaço de madeira, com 24 centímetros de comprimento, que supostamente terá pertencido à cruz onde Jesus foi executado, e um dos pregos que o prendeu. Ambos os tesouros são guardados em estojos de cristal depositados em relicários e crê-se, tendo em conta as palavras do porta-voz dos bombeiros de Paris - "todas as obras de arte pertencentes ao tesouro da catedral foram salvas", declarou esta terça-feira Gabriel Plus - que também tenham sido preservados.

O Altar

As primeiras fotografias tiradas dentro da nave principal dão a entender que as obras de arte e a cruz do altar-mor da catedral ficaram intactas, embora sejam necessárias observações de especialistas para perceber o seu estado de conservação. Do grupo de esculturas destaca-se, ao centro, "A descida da cruz", de Nicolas Costou (1658-1733), ladeada pelas estátuas de Luís XIII e Luís XIV, ajoelhados.

Estátuas

Tal como acontece com as obras no altar-mor, só avaliações mais detalhadas permitirão perceber o estado de conservação de relíquias como a estátua de Nossa Senhora de Paris, que partilha o seu nome com o da própria catedral. A imagem da Virgem com Jesus ao colo data do século XIV e está em Notre-Dame desde 1818. As mesmas dúvidas se colocam em relação às famosas gárgulas da catedral.

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