Os tentáculos da Odebrecht alastram pela América Latina

A empresa reconheceu o pagamento de subornos em dez países da região e as consequências começam a fazer-se sentir

No final de dezembro, a construtora brasileira Odebrecht assinou um acordo nos EUA em que admitia o pagamento de subornos no valor de 735 milhões de dólares em dez países latino-americanos, que se traduziu em contratos que renderam mais de 2,8 mil milhões. Com o processo ainda em segredo de justiça no Brasil, onde 77 funcionários da empresa, incluindo o presidente Marcelo Odebrecht (neto do fundador), fizeram acordos de delação premiada, os tentáculos do escândalo de corrupção alastram pela região e já ameaçam ex-presidentes.

Foi a investigação à petrolífera brasileira Petrobras, no centro da Lava-Jato, que deixou a maior construtora da América Latina em xeque - fundada nos anos 1940 empregava 128 mil pessoas e tinha lucros de 40 mil milhões de dólares. Apesar de Odebrecht ter sido detido em junho de 2015, foi a prisão da sua secretária, Maria Lúcia Tavares, há um ano, que permitiu descobrir que a empresa tinha um "departamento de subornos". Através do Setor de Operações Estruturadas, terão sido pagos subornos a políticos da região - normalmente dinheiro para as campanhas eleitorais, em troca de contratos públicos com as faturas inflacionadas. Os países nomeados no processo nos EUA - além dos dez na América Latina, houve pagamentos em Angola e Moçambique - estão a investigar o caso.

Estas investigações chegam a ex-presidentes. No Peru, por exemplo, a justiça emitiu um mandato de captura internacional contra Alejandro Toledo, no poder de 2001 a 2006, que é suspeito de ter recebido 20 milhões de dólares. E o atual presidente, Pedro Pablo Kuczynski, que foi primeiro-ministro e ministro das Finanças de Toledo, nega qualquer ligação ao caso. Na Colômbia, é o presidente Juan Manuel Santos que foi acusado de receber dinheiro para a campanha da sua reeleição.

No imediato, as investigações do Banco Nacional de Desenvolvimento do Brasil, através do qual se processava o financiamento dos projetos em toda a América Latina, resultaram na suspensão de 16 obras, algumas em países onde nem há relato do pagamento de subornos, como Cuba ou Honduras. E países como Equador, Panamá ou República Dominicana (onde há denúncias desses pagamentos) proibiram a construtora - que já demitiu mais de metade dos funcionários - de licitar em novas obras.

Com o acordo nos EUA, a empresa aceitou pagar uma multa de 3,5 mil milhões de dólares a este país, ao Brasil e à Suíça, tendo já aceitado em processos distintos pagar também ao Panamá e à República Dominicana. No Brasil, as revelações da "delação do fim do mundo" são esperadas a qualquer momento - só falta levantar o segredo de justiça.

Argentina

A construtora pagou subornos de 35 milhões de dólares entre 2007 e 2014, durante a presidência de Cristina Kirchner, tendo ganho 278 milhões. O atual diretor da agência de informação, Gustavo Arribas, amigo do presidente Maurício Macri, é um dos que estão a ser investigados.

Brasil

Foi a investigação ao escândalo da Lava-Jato, que continua a abalar o país, que destapou a existência de um esquema concertado de subornos na construtora brasileira. A Odebrecht pagou 349 milhões de dólares em subornos e ganhou mais de 1,9 mil milhões.

Colômbia

O presidente Juan Manuel Santos negou ter recebido um milhão de dólares da construtora na campanha de 2014. Um ex-senador e um antigo vice-ministro de Álvaro Uribe estão presos por contratos ligados à construção de autoestradas. No total, a Odebrecht terá pago 11 milhões de dólares em subornos, ganhando 50 milhões.

Equador

A Odebrecht pagou 33,5 milhões de dólares entre 2007 e 2016 a "funcionários do governo", tendo ganho 116 milhões com esses subornos.

Guatemala

A ex-vice-presidente Roxana Baldetti (já detida por fuga ao fisco) é um dos nomes que estão a ser investigados. A construtora brasileira admitiu ter pago 18 milhões de dólares entre 2013 e 2015, ganhando em troca 38 milhões.

México

A construtora admitiu ter pago subornos no valor de 10,5 milhões de dólares entre 2010 e 2014, beneficiando de um retorno de 39 milhões. Um dos contratos investigados é o do novo aeroporto da capital.

Panamá

Os dois sócios da Mossack Fonseca (no centro do escândalo dos Papéis do Panamá) foram detidos e há outras 17 pessoas acusadas - incluindo o irmão e o filho do ex-presidente Ricardo Martinelli (investigado por outro caso). A Odebrecht vai devolver 59 milhões de dólares - o valor dos subornos pagos entre 2010 e 2014 que garantiram um retorno de 175 milhões.

Peru

Já foi emitido um mandado de captura internacional contra Alejandro Toledo, presidente de 2001 a 2006, que é acusado de receber 20 milhões de dólares da Odebrecht e estaria ontem a caminho de Israel. O caso pode manchar o atual presidente, Pedro Pablo Kuczynski, seu ex-primeiro-ministro e titular das Finanças - a ser investigado por uma lei que beneficiou as construtoras. Já Ollanta Humala (2006-2011) é suspeito de receber três milhões de dólares para a campanha. A Odebrecht admitiu ter pago 29 milhões entre 2005 e 2014, ganhando 116 milhões.

República Dominicana

Ao longo de oito anos, a Odebrecht vai pagar 184 milhões de dólares em compensações pelos subornos que pagou - 92 milhões de dólares que renderam 163 milhões. O dinheiro terá sido pago ao empresário Ángel Rondón, que é próximo de vários políticos, incluindo do presidente Danilo Medina.

Venezuela

Depois do Brasil, é o país que recebeu mais subornos: 98 milhões de dólares a membros do governo e intermediários entre 2006 e 2015 (não se conhece o valor do retorno). A Assembleia Nacional (onde a oposição tem maioria) quer investigar caso.

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