Os Jogos do ouro de Rosa Mota, do adeus da URSS e do triunfo da democracia na Coreia do Sul

Jogos Olímpicos de Inverno em PyongChang servem este ano para aproximar as duas Coreias, mas já em 1988 a competição de verão, realizada em Seul, teve um grande peso político na evolução da península dividida.

Perguntem a um português aquilo que de mais importante aconteceu em Seul 1988 e claro que a vitória de Rosa Mota na maratona será a resposta. Afinal, foi a segunda medalha olímpica de ouro de Portugal e a primeira para uma mulher. Já os mais atentos às rivalidades geopolíticas transvestidas em desporto se lembrarão da luta entre a União Soviética, os Estados Unidos e a RDA para conquistar lugares no pódio e sobretudo fazer tocar o hino nacional. Acabaram por se destacar os soviéticos, com 132 medalhas, das quais 55 de ouro, seguidos por uma formidável Alemanha comunista, com 102 medalhas. Mas talvez só os sul-coreanos se recordem como esses Jogos Olímpicos de Verão de há 30 anos foram decisivos não só para a afirmação do país (excelente organizador e quarto no medalheiro) como ajudaram ao triunfo da democracia, pondo fim a relativismos em relação à Coreia do Norte, regime comunista encabeçado por Kim Il-sung, o avô do atual líder.

O nome de Rosa Mota é ainda relembrado por muitos sul-coreanos dado o carinho especial que têm pela maratona por razões históricas. Um dos momentos altos dos Jogos de Seul aconteceu logo na cerimónia de abertura, quando entrou no estádio um homem de 76 anos, vestido de branco, com a tocha olímpica. Para os milhares de sul-coreanos na assistência, o reconhecimento foi imediato: tratava-se de Sohn Kee-chung, que nos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936, vencera a maratona mas correndo sob as cores do Japão, que então colonizava a Península Coreana. Mais tarde, nos Jogos de Barcelona 1992, um discípulo de Sohn (Hwang Young-cho) finalmente poria o país no historial das vitórias olímpicas na maratona, pois o Comité Olímpico Internacional, fiel às suas regras políticas, ignorou sempre as pressões sul-coreanas para ficar com o triunfo de 1936, admitindo, porém, que no registo oficial a versão japonesa do nome de Sohn, Son Kitei , fosse substituída.

O êxito organizativo e desportivo dos Jogos de Seul, os primeiros que contaram com americanos e soviéticos desde os boicotes trocados de Moscovo 1980 e Los Angeles 1984, tem um significado especial à luz da história sul-coreana porque 1988 foi também o ano das primeiras eleições livres no país.

Criada em 1948 na parte meridional da península (a metade abaixo do paralelo 38 onde no final da Segunda Guerra Mundial os americanos aceitaram a rendição japonesa), a Coreia do Sul resistiu com a ajuda dos Estados Unidos e de tropas da ONU à tentativa de reunificação pela força lançada em 1950 pela Coreia do Norte (apoiada pela União Soviética e pela China), mas transformou-se pouco depois numa ditadura militar liderada quase duas décadas por Park Chung-hee. Depois do assassínio do pai do milagre económico sul-coreano em 1979, seguiram-se outros generais, até que em 1987 grandes protestos na rua, com os colarinhos brancos a juntarem-se aos habituais manifestantes operários e estudantes, e greves obrigaram o regime a prometer mudanças constitucionais, com a libertação dos presos políticos e a organização de eleições livres. Em troca, e para salvar a imagem do país e manter a organização dos Jogos Olímpicos, a oposição aceitou uma espécie de trégua. E se a sua divisão nas presidenciais de dezembro 1987 (semanas depois de um atentado norte-coreano derrubar um avião sul-coreano) permitiu ainda a vitória de Roh Tae-woo, o último militar a governar, já nas legislativas de abril de 1988, apesar do triunfo do partido do regime, a maioria dos assentos no Parlamento passou a ser da oposição. Esta, em 1992, elegeria por fim um presidente, Kim Young-sam.

Esses Jogos de Seul, realizados entre 17 de setembro e 2 de outubro, pareceram ainda muito marcados pelo espírito da Guerra Fria, com o despique entre os hinos soviético, alemão oriental e americano a dar o tom. Mas logo no ano seguinte caiu o Muro de Berlim, em 1990 desapareceu a RDA e em 1991 extinguiu-se a União Soviética. Da Guerra Fria hoje resta a DMZ, a fronteira entre as Coreias que acompanha grosso modo o paralelo 38 indiferente à Guerra de 1950-1953. Apesar do diálogo intercoreano surgido agora com os Jogos de Inverno de PyongChang, tudo continua a opor a Coreia do Sul próspera e democrática ( o país presidido por Moon Jae-in é a 11.ª economia mundial) a essa Coreia do Norte liderada por Kim Jong-un nuclear mas empobrecida.

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