Os candidatos a presidente que andam à procura de vices no Brasil

Ciro Gomes formaliza nesta sexta-feira a sua entrada na corrida ao Planalto em convenção do PDT. Seguem-se Bolsonaro, Meirelles, Marina, Alckmin e Álvaro Dias. Em comum, a ausência de número dois.

Ciro Gomes, Jair Bolsonaro, Henrique Meirelles, Marina Silva, Geraldo Alckmin e Álvaro Dias - à exceção do escolhido do PT, ainda dependente da situação jurídico-eleitoral de Lula da Silva, toda a gente conhece o nome dos principais candidatos à presidência do Brasil. E o nome dos vice-presidentes? No dia em que começam as convenções partidárias para formalização das candidaturas ao Palácio do Planalto ainda não se sabe quem serão os concorrentes ao lugar para que Michel Temer foi eleito em 2014. Um dado inédito na história eleitoral do país.

Em outubro de 2013, já se sabia que Dilma Rousseff (PT) e Temer (MDB) se apresentariam juntos às eleições do ano seguinte. Em abril de 2014, Eduardo Campos (PSB), que viria a morrer em desastre de avião durante a campanha, anunciou Marina Silva (Rede) como companheira de lista. Um mês depois, Aécio Neves escolheu Aloysio Nunes, ambos do PSDB, para vice. Em meados de julho de 2018, a menos de três meses da eleição, ainda não há casamentos.

Hoje o PDT, partido de centro-esquerda que abriga Ciro Gomes, vai anunciá-lo como candidato. No domingo é a vez de Jair Bolsonaro ser apresentado como escolha do direitista PSL. No dia 3 de agosto, o MDB, partido no poder, divulga o nome de Henrique Meirelles, e no dia 4 a convenção do ambientalista Rede aclama Marina Silva, a do PSDB, de centro-direita, apresenta Geraldo Alckmin e a do Podemos, também de centro-direita, revela Álvaro Dias. Lula, ou Fernando Haddad, plano B do PT, esperam a melhor oportunidade para o anúncio. Apenas o PSOL, de extrema-esquerda, anuncia amanhã a lista completa, com o líder do Movimento dos Trabalhadores sem Teto Guilherme Boulos e a chefe indígena Sonia Guajajara como candidatos a presidente e vice, respetivamente.

À exceção do PSOL, tudo o que a imprensa e o eleitorado busca saber das convenções dos outros partidos elas não sabem ainda responder: quem serão os vices?

Ciro, o primeiro a entrar em cena, busca a todo o custo ter Josué Gomes, filho de José Alencar, o eterno vice dos governos de Lula, a seu lado. Recém-filiado ao PR, no entanto, o empresário de Minas Gerais é cobiçado quer pelo próprio Lula quer por Bolsonaro, uma vez que o PR ainda equaciona coligação com o partido do capitão do Exército. "Tudo boatos, como militante recente do PR, resta-me ouvir e dialogar", diz o desejado Josué. O campo de Ciro tem como alternativa Benjamin Steinbruch, industrial que poderia atrair o empresariado a uma candidatura vista com desconfiança pelo mercado.

Por sua vez, Bolsonaro, além de Josué, negoceia ainda com Magno Malta, senador evangélico do PR, mas pode ter de contentar-se em elevar a vice o seu nome para a área da defesa, o general Augusto Heleno, comandante das tropas brasileiras no Haiti.

No MDB, como o nome de Meirelles para candidato à presidência gerou inesperado debate, a nomeação de um vice está ainda mais atrasada. Por seu lado, Marina, que sonhou em atrair o antigo presidente do Supremo Joaquim Barbosa para a sua lista, equaciona agora Eduardo Bandeira de Mello, presidente do Flamengo, mais popular clube do Brasil. "Ainda vai passar muita água por baixo da ponte", advertiu, no entanto, Mello. Quem, entretanto, Geraldo Alckmin quer mesmo para seu vice é o presidenciável Álvaro Dias. Mas Dias, que já foi do PSDB de Alckmin, resiste por sentir que pode correr a solo: "Fora de questão", disse em maio ao DN o candidato do Podemos.

Para a indefinição na composição das listas contribuem, de acordo com cientistas políticos, a crise de credibilidade de PT e PSDB, que elegeram os presidentes brasileiros nos últimos 24 anos, e do atual governo, que de tão fraco nem conseguiu dividir as forças entre situação e oposição. "O PT tem o seu líder nada menos do que preso, o PSDB e o MDB viram as suas cúpulas igualmente muito castigadas e os pequenos partidos, alguns também muito visados na Lava-Jato, hesitam entre que polo escolher, o que afeta a dinâmica normal de um período pré-eleitoral", afirmou ao jornal O Globo Fábio Wanderley, da UFMG.

"Ainda há o caso do Lula, que não deve ser candidato mas está na narrativa do PT, o que causa indefinição muito grande", acrescenta Carlos Melo, do Insper, ao jornal O Estado de S. Paulo.

Por isso, a eleição de 2018 só tem paralelo na de 1989, que elegeu Collor de Mello, após número recorde de candidaturas. Na ocasião, o vice-presidente, Itamar Franco, acabaria por subir ao Planalto, por impeachment de Collor, o que atesta a importância do cargo.

FORMALIZAÇÃO DAS CANDIDATURAS ÀS PRESIDENCIAIS DE 7 DE OUTUBRO

Sexta-feira dia 20: Ciro Gomes (PDT)
Sábado dia 21: Guilherme Boulos e Sonia Guajajara (PSOL)
Domingo dia 22: Jair Bolsonaro (PSL)
3 de agosto: Henrique Meirelles (PMDB)
4 de agosto: Marina Silva (Rede), Geraldo Alckmin (PSDB), Álvaro Dias (Podemos)
A designar: Lula da Silva ou Fernando Haddad (PT)

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Catarina Carvalho

Arnaldo, Rui e os tuítes

Arnaldo Matos descobriu o Twitter (ou Tuiter, como ele dizia), em 2017. Rui Rio, em 2018. A ambos o destino juntou nesta edição. Por causa da morte do primeiro, que o trouxe à nostálgica ordem do dia, e por o segundo se ter rendido à tecnologia da transmissão de ideias que são as redes sociais. A política não nasceu para as ideias simples com as redes sociais. Mas as redes sociais vieram dar uma ajuda na rapidez ao passar as mensagens. E a chegar a mais gente. E da forma desejada, sem a, por vezes incómoda, mediação jornalística. É isso mesmo que diz, e sem vergonha, note-se, uma fonte do PSD, no trabalho sobre a presença de Rui Rio no Twitter. "É uma via para dizer exatamente o que pensa e dar a opinião, sem descontextualizações." O jornalismo como descontextualização. Ou seja, os políticos que aderem às redes sociais fazem-no no mesmo pressuposto da propaganda. E têm bons exemplos a seguir, como Trump, mestre nos 280 carateres que o ajudaram a ganhar eleições. Foi o Twitter que trouxe Arnaldo Matos das trevas da extrema-esquerda para o meio mediático. Regressou como fenómeno, não apenas pelas polémicas intervenções no velho partido, o MRPP, onde promoveu rixas, expulsou camaradas por desvios de direita, mas, sobretudo, pela excelente adaptação à forma que a tecnologia do Twitter lhe proporcionava para passar a sua mensagem política dura, rápida, cruel e, sim, simplista. Para quem não quer perder muito tempo com explicações, o Twitter é ideal. Numa prosa publicada na página do partido, Luta Popular, Arnaldo Matos fazia o que sabia fazer, doutrina, sobre o assunto. Dizia que as suas publicações, batendo "todos os recordes em Portugal", se tornavam "tão virais" que já nem ele as controlava E sem nenhum recuo ou consideração sobre a origem "capitalista" desta transmissão informativa queixava-se de as mensagens não serem vistas pelos "camaradas do partido". Resumindo: "Os tuítes são pequenas peças de agitação e de propaganda políticas, que permitem aos militantes do PCTP/MRPP manter uma informação permanente sobre a vida política nacional e internacional." Dizia também que este método "fornece uma enorme quantidade de temas que armam a classe operária para a difusão de opiniões que caracterizam os seus pontos de vista de classe". Ninguém diria melhor do que um "educador" de classe, operária ou outra, e nem mesmo Jack Dorsey ou Noah Glass ou Biz Stone, ou Evan Williams, os fundadores da rede social, a saberiam defender de forma tão eficaz. E enganadora. A forma como Arnaldo Matos usava o Twitter era um pouco menos benévola do que podia parecer destas palavras. Zurziu palavras simples e fortes contra velhos ódios: contra o "putedo" da esquerda, o "monhé" António Costa, os sociais-fascistas do PCP e, até, justificando ataques terroristas como os do Bataclan em Paris. Mandava boutades que no ciberespaço se chamam posts. E, depois, os jornalistas faziam o resto, amplificando a mensagem nos órgãos de comunicação social tradicionais. Na reportagem explica-se que o objetivo dos tuítes de Rui Rio é, também, que os jornalistas "peguem" nas mensagens e as ampliem. Até porque ele tem apenas cerca de três mil seguidores - o que não é pouco, tendo em conta a fraca penetração da rede em Portugal. Rio muda quando está no Twitter. É mais contundente e certeiro. Arnaldo Matos era como sempre foi, cruel e populista. Ambos perceberam o funcionamento das redes sociais, que beneficiam os políticos, mas prejudicam a democracia. Porque incentivam ao "tribalismo", juntando quem pensa igual e silenciando quem acha diferentes. Que contribuem para a diluição das mediações que leva com ela o pensamento, a crítica, e traz consigo a ilusão da "democracia direta" que mais não é do que outra forma de totalitarismo. Estas últimas ideias são roubadas da apresentação de Pacheco Pereira na conferência sobre o perigo das fake news organizada nesta semana pela agência Lusa. Dizia ele que não devemos ter complacência com a ignorância - que é a base do espalhar de notícias falsas. Talvez os políticos devessem ser os primeiros a temê-la, à ignorância.