Os 499 quilómetros que ameaçam o acordo entre Londres e a UE

Ministro do Brexit, David Davis, disse que Irlanda do Norte não ficaria no mercado único, mas que todo o Reino Unido teria um alinhamento regulatório.

Para quem percorre a autoestrada entre Dublin e Belfast, o único sinal de que já atravessou a fronteira são as placas que deixam de assinalar as distâncias em milhas e passam a fazê-lo em quilómetros. Longe vão os tempos em que os 499 km de linha fronteiriça que separam a República da Irlanda da Irlanda do Norte eram símbolo dos Troubles, os confrontos entre unionistas e republicanos que durante três décadas fizeram mais de 3500 mortos e terminaram com o Acordo de Sexta-Feira Santa. Hoje não há bombas do IRA mas a fronteira volta a estar no centro das notícias.

Tudo porque uma das exigências da Irlanda - apoiada pelos 26 outros membros da União Europeia - é que o brexit não implique o regresso a uma fronteira rígida (hard border) com a Irlanda do Norte. O acordo de 1998 aboliu os postos fronteiriços, tornando a separação invisível - uma realidade que teria de mudar com o regresso dos controlos aduaneiros. A solução encontrada por Londres passaria por manter a Irlanda do Norte no mercado único após a saída do resto do Reino Unido. Opção que os unionistas norte-irlandeses do DUP - de cujos dez deputados depende o governo conservador de Theresa May para ter maioria absoluta no Parlamento - rejeitaram, sublinhando a líder, Arlene Foster: A Irlanda do Norte tem de deixar a UE nos mesmos termos do resto do Reino Unido.

Parte da preocupação é política: Dublin não quer perder a aproximação a Belfast. Outra parte é económica: Irlanda e Irlanda do Norte têm economias muito interdependentes, com enormes quantidades de bens e serviços a atravessar a fronteira todos os dias sem qualquer controlo. Além disso, 30 mil pessoas atravessam também diariamente para ir trabalhar no país vizinho.

Ora, mal se soube da exceção aberta para a Irlanda do Norte, Escócia, País de Gales e até Londres, através do seu mayor, Sadiq Khan, exigiram tratamento igual.

Perante tanta dificuldade, o acordo entre Londres e a UE para passar à fase 2 das negociações após o Conselho Europeu de dias 14 e 15 não avançou, apesar de Jean-Claude Juncker, o presidente da Comissão Europeia, ter recusado falar em fracasso, e May se ter dito otimista, após um encontro entre os dois na segunda-feira em Bruxelas.

O tempo aperta. Ontem, May recebeu o homólogo espanhol, Mariano Rajoy, em Downing Street mas a primeira-ministra passou o dia a tentar salvar o acordo. Sem grandes avanços conhecidos. Em declarações à televisão irlandesa RTE, Arlene Foster explicou ter passado cinco semanas a tentar chegar a um rascunho de acordo e, quando na segunda-feira o viu pela primeira vez, a líder do DUP diz ter tido um grande choque. Em entrevista à Sky News, garantiu que a decisão de se opor a um estatuto de exceção para a Irlanda do Norte é inequívoca.

Ouvido no Parlamento, o ministro para o brexit, David Davis, tentou explicar que Londres não está a dar um estatuto diferente à Irlanda do Norte. E garantiu que o que está em causa é um alinhamento regulatório que se aplicaria a todo o Reino Unido. Reitero: alinhamento não é harmonização, não tem exatamente as mesmas regras. É por vezes ter regras mutuamente reconhecidas, inspeções mutuamente reconhecidas, todas essas coisas. É isso que desejamos, afirmou Davis, rejeitando a ideia de a Irlanda do Norte se manter no mercado único, ficando de fora de parte do brexit.

Com a libra a cair perante esta incerteza, a primeira-ministra escocesa, Nicola Sturgeon, aproveitou a discussão em torno da fronteira irlandesa para defender um soft brexit, enquanto Ruth Davidson, a lí-der dos conservadores escoceses, apoiada pelos 13 deputados que tem no Parlamento de Londres, exigiu que qualquer estatuto especial dado à Irlanda do Norte deve ser aplicado também à Escócia, onde a maioria votou pela permanência na UE no referendo de junho de 2016.

Com May esperada em Bruxelas hoje ou amanhã para novas negociações, os trabalhistas de Jeremy Corbyn falam num embaraço para a primeira-ministra e exigem que esta volte a pôr a permanência do Reino Unido no mercado único em cima da mesa.

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