Orbán recusa demitir-se após referendo inválido

Oposição, dos socialistas à extrema-direita, exige que primeiro-ministro Viktor Orbán faça o mesmo que David Cameron

A oposição húngara desafiou ontem o primeiro-ministro do país a demitir-se depois de o referendo que convocou sobre as quotas de refugiados ser declarado inválido: a taxa de participação foi de 43%, quando tinha de ser mais de 50%. Mesmo assim Viktor Orbán preferiu declarar-se vencedor, realçando o facto de 98,3% dos eleitores que foram às urnas terem votado contra a política de quotas da União Europeia. O político conservador recusa deixar o poder e promete travar a entrada de refugiados na Hungria por outra via: a alteração da Constituição.

"Orbán marcou um autogolo", declarou o líder do Jobbik, partido de extrema-direita húngaro. "Desde ontem tornou-se um político falhado que não será mais levado a sério pelos burocratas de Bruxelas. Irão explorar a sua irresponsabilidade e o seu erro. O mínimo que poderia fazer era desculpar-se. Em termos legais Orbán ainda é o primeiro-ministro da Hungria, mas em termos políticos já não o é", sublinhou Gabor Vona, que pediu ao chefe do governo que faça "o mesmo que fez David Cameron" após perder o referendo do brexit no dia 23 de junho.

O líder dos socialista considerou o referendo "um dos pontos mais baixos da história da Hungria" e "uma sondagem muito cara". Gyula Molnar classificou a campanha feita pelo governo de Orbán como "vergonhosa e odiosa". O líder da Coligação Democrática, o ex-primeiro-ministro Ferenc Gyurcsány, afirmou que o facto de o referendo ser inválido constitui uma vitória para a democracia, para o país e também para a oposição. "Orbán jogou com a questão das quotas e sofreu um enorme revés. Não só não ganhou o referendo, como quem ganhou foi a oposição democrática", declarou, apelando igualmente à demissão do primeiro-ministro húngaro.

Orbán, porém, não vê as coisas da mesma maneira. E considera que saiu reforçado na sua liderança pela vontade expressa naquela consulta popular por mais de três milhões de eleitores. "Há quem tente reduzir e anular a vontade de 3,3 milhões de votantes... Contudo, nenhum representante eleito deixará que ela seja anulada", declarou o também líder do Fidesz. O seu partido e os seus aliados cristãos democratas, disse, "acreditam que o passo seguinte mais honesto e apropriado é dar valor legal à vontade do povo. Por isso, vou iniciar uma emenda da Constituição".

Orbán não explicou, porém, como será feita a alteração, mas é possível que tente inscrever na lei fundamental o direito da Hungria a rejeitar a entrada de cidadãos estrangeiros no seu território - algo que o Jobbik defende. "Parece que Viktor Orbán quer continuar a sua luta com a União Europeia em relação à política migratória e a emenda constitucional é a forma de o fazer, algo que poderá desencadear guerras legais", afirmou à AFP o analista Bulcsu Hunyadi.

O primeiro-ministro húngaro, que mandou erguer uma vedação de 175 quilómetros para travar a entrada de migrantes e refugiados vindos pela rota dos Balcãs, opôs-se desde o primeiro momento à fixação de quotas para distribuir esses mesmos refugiados pelos Estados membros da UE. O acordo prevê a recolocação de um total de 160 mil refugiados, sobretudo os que fogem da guerra na Síria. A quota inicial da Hungria era de 54 mil refugiados. Mas Orbán recusa aceitá-los no país. Em direção contrária está por exemplo Portugal, que está entre os quatro países da UE que mais refugiados tem recolocado desde o acordo.

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