Odebrecht decide colaborar com a investigação da Lava-Jato

Empresário dizia, em setembro, que não havia matéria para delação mas agora descobriu-se que empresa tinha departamento para pagar subornos a 200 políticos desde os anos 1980

Marcelo Odebrecht e outros executivos da maior construtora brasileira, a Odebrecht, estão disponíveis para fazer acordo de delação premiada com os investigadores da operação que trata do escândalo da Petrobras, a Lava-Jato. A decisão surgiu um dia depois de a polícia desmontar um departamento dentro da própria empresa que se dedicava a pagar subornos. O Palácio do Planalto teme que as novas delações possam atingir o governo, em pleno processo de impeachment da presidente e crise política em torno da nomeação de Lula da Silva para a Casa Civil.

O governo atual e não só: o esquema funcionava desde os anos 80 e entre os 200 nomes de beneficiados de 18 partidos da situação e da oposição estão o ex-presidente José Sarney, o líder do PSDB Aécio Neves, o candidato às eleições de 2014 entretanto falecido Eduardo Campos, os presidentes das duas casas do Congresso Eduardo Cunha e Renan Calheiros ou o barão do PT Jaques Wagner. A Lava-Jato apura quais pagamentos são lícitos e ilícitos.

Depois de já ter assinado um acordo de leniência - o equivalente a delação premiada mas para empresas -, os executivos da Odebrecht decidiram colaborar individualmente com as investigações conduzidas pelo juiz Sergio Moro. Marcelo Odebrecht, o presidente do grupo preso desde junho, é um desses executivos. O anúncio surge no dia seguinte à 26.ª fase da Lava-Jato ter desmantelado o "setor de operações estruturadas", um departamento da empreiteira destinado a efetuar pagamentos de subornos, revelado por Lúcia Tavares, secretária que se encarregava dessas operações, e que continuou a funcionar mesmo após a prisão de Odebrecht.

O dinheiro saía da Odebrecht para doleiros (agentes que trocam reais por dólares) e entrava pelo estrangeiro nas contas de operacionais registados com nomes fictícios como "carioquinha" ou "paulistinha". Só na conta do "paulistinha" estavam 65 milhões de reais [cerca de 15 milhões de euros]. A 13 de novembro de 2014, semanas depois de Dilma Rousseff ter sido reeleita, foi executada uma transferência de um milhão de reais [perto de 250 mil euros] em nome de MBO, as iniciais de Marcelo Bahia Odebrecht, destinada a "feira", a alcunha de João Santana, publicitário do PT, nascido na cidade de Feira de Santana. Até maio de 2015, Odebrecht pagou 22,5 milhões de reais [mais de cinco milhões de euros] a "feira". Para a investigação, os pagamentos da construtora ao marqueteiro eram contrapartida por contratos obtidos na Petrobras. Além deste caso, ficaram expostos alegados favorecimentos em obras como o metropolitano da zona oeste do Rio de Janeiro, o aeroporto de Goiânia e o Itaquerão, a arena do Corinthians, palco da abertura do último mundial de futebol. Segundo o jornal O Globo, havia contabilidade no departamento desde os anos 80, com documentos ainda redigidos à mão.

Em setembro de 2015, Marcelo Odebrecht foi chamado à Comissão Parlamentar de Inquérito da Petrobras, onde o questionaram sobre a eventualidade de assinar uma delação premiada. O empresário disse que não ponderava fazê-lo porque para ""dedurar" é preciso haver algo para "dedudar"", usando a expressão coloquial brasileira "dedurar", que deriva de "dedo duro" e é equivalente a "denunciar". "Aliás", prosseguiu à época Odebrecht, "se numa discussão entre as minhas filhas uma batesse e outra "dedurasse", eu brigaria mais com a que "dedurasse", é uma questão de valores".

Dois meses antes, quando foi preso, o pai de Marcelo, Emílio Odebrecht, foi citado em publicações brasileiras a afirmar que se o filho começasse a falar "cairia a república". Enquanto isso, Lula continua num pingue-pongue entre o Supremo Tribunal e a primeira instância de Curitiba: ou seja, entre o foro privilegiado e o juiz Sérgio Moro. Ontem de manhã, Teori Zavascki, do Supremo, criticou Moro por divulgar uma escuta para a qual "era reconhecidamente incompetente para julgar". O argumento de Moro de que o diálogo revelado entre Lula e Dilma no mesmo dia em que foi efetuado era de interesse público "é descabido", disse Zavascki. Assim sendo, o caso volta ao Supremo. O que não quer dizer que a suspensão da posse de Lula tenha sido levantada: essa decisão, tomada por outro juiz do Supremo, Gilmar Mendes, continua válida e será analisada pelo plenário da corte na próxima semana.

* São Paulo

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