Obama volta a falar de esperança mas declara guerra ao Congresso

No seu sétimo e último discurso do estado da União, o presidente democrata voltou a prometer fechar Guantánamo: a primeira promessa que fez quando tomou posse em janeiro de 2009

Está mais grisalho e, atrás dele, em vez de uma Nancy Pelosi sorridente estava um Paul Ryan com cara de poucos amigos. Mas os cabelos brancos e o presidente da Câmara dos Representantes (speaker) não foram as únicas diferenças entre o primeiro - em 2010 - e o último - na madrugada de ontem - estado da União de Barack Obama. O presidente dos EUA, que deixa o cargo em janeiro do próximo ano, recuperou a mensagem de esperança que o elegeu - quem não se lembra do slogan Yes we can! ou Sim, podemos! -, mas já sem a pressão das urnas olha para o futuro a longo prazo, recordando que o seu legado inclui criar 14 milhões de empregos.

Num discurso mais curto do que o primeiro, foi um Obama ao mesmo tempo mais descontraído e mais agressivo que defendeu o seu legado, sublinhando que a economia americana é "a mais forte e a mais duradoura do mundo". Acusou ainda que quem diz que a economia norte-americana está em declínio está a "alimentar uma ficção". E se olharmos para os números, em janeiro de 2010 os EUA tinham uma taxa de desemprego de 9,8%, hoje é de 5%. Obama, que herdou um país em plena crise financeira, deixa o cargo com um crescimento de 2,8% previsto em 2016.

Em seis anos, Obama perdeu muita popularidade. Hoje, segundo a Gallup, só 45% dos norte-americanos acha que o presidente está a ter um bom desempenho, contra 64% no primeiro ano de mandato. Admitindo que não cumpriu a primeira promessa como presidente - encerrar Guantánamo -, Obama jurou continuar a lutar pelo fecho da prisão, famosa pelas torturas a suspeitos de terrorismo, muitos deles detidos sem direito a julgamento.

Consciente de que a maioria republicana no Senado e Câmara dos Representantes bloqueiam qualquer iniciativa que apresente no seu último ano de mandato, Obama não deixou de declarar guerra ao Congresso. Deixou um apelo a "resolver" as divergências partidárias e desafiou os legisladores a "se querem mesmo ganhar a guerra [ao Estado Islâmico, EI] e dar uma mensagem às nossas tropas e ao mundo, devem autorizar o uso de força militar contra o EI".

Apesar de nunca referir os candidatos republicanos às presidenciais de 8 de novembro, Obama não deixou de lançar farpas a alguns. Sobretudo ao milionário Donald Trump. "À medida que a frustração cresce, vão surgir vozes a [...] fazer bodes expiatórios de alguns cidadãos que não se parecem connosco, ou rezam como nós, ou votam como nós ou têm um passado diferente", afirmou, numa clara referência à proposta de Trump para expulsar todos os muçulmanos nos EUA.

Resposta republicana

A resposta republicana ficou a cargo da governadora da Carolina do Sul, Nikki Haley, para a qual a presidência de Obama foi de facto transformadora... mas para pior. Estrela em ascensão do partido, a mais jovem governadora dos EUA (aos 43 anos) garantiu que os dois mandatos do atual chefe do Estado ficaram "muito aquém das suas palavras". Haley criticou uma economia "demasiado fraca para aumentar os níveis de rendimento", uma reforma da segurança social "que tornou os seguros menos acessíveis e os médicos menos disponíveis", além de ter atacado um presidente "que não quer ou não consegue lidar" com "a pior ameaça terrorista à nossa nação desde o 11 de Setembro".

Mas a filha de indianos sikhs também não perdoou a retórica anti-imigração do favorito republicano. E num ataque a Trump, Haley garantiu: "Em tempos de ansiedade, pode ser tentador seguir a chamada das vozes mais iradas. Temos de resistir a essa tentação. Ninguém que esteja disposto a trabalhar duro, obedecer às nossas leis e amar as nossas tradições deve sentir que não é bem-vindo neste país."

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