Obama na mesquita: "Ataque contra uma fé é ataque contra todas"

A menos de um ano de deixar a Casa Branca, o presidente fez a primeira visita a uma mesquita em solo americano. Foi em Baltimore.

Foi com mais de uma hora de atraso que Barack Obama começou o discurso na Sociedade Islâmica de Baltimore. Na sua primeira visita a uma mesquita em solo americano, o presidente fez questão de deixar uma clara mensagem contra a "indesculpável retórica política contra os muçulmanos americanos". "Um ataque contra uma fé é um ataque contra todas as fés", garantiu Obama, entre aplausos.

Depois de participar numa mesa-redonda com líderes da comunidade muçulmana local, Obama subiu ao palco para afirmar: "A primeira coisa que quero dizer são duas palavras que os muçulmanos americanos não ouvem muitas vezes: muito obrigado!" Sem sapatos, em sinal de respeito, o presidente condenou a vaga de ataques e agressões contra muçulmanos e os seus locais de culto que se seguiram aos atentados de Paris, em novembro de 2015, mas sobretudo ao tiroteio em San Bernardino, na Califórnia, um mês depois. Nesse dia, um casal de muçulmanos americanos, ambos de origem paquistanesa, matou 14 pessoas e fez 21 feridos numa festa de Natal.

Obama discursou descalço em sinal de respeito

Desde os atentados de 11 de setembro de 2001 que a comunidade muçulmana - menos de 1% dos americanos - se tornou alvo de ataques frequentes. Mas nos últimos meses, a retórica anti-islão tem dominado o discurso político, sobretudo na corrida à nomeação republicana para as presidenciais de 8 de novembro. O expoente máximo foi Donald Trump: o magnata, que continua a liderar as sondagens, propôs banir a entrada de todos os muçulmanos nos EUA.

A menos de um ano de deixar a presidência, Obama lembrou: "Vimos crianças perseguidas, mesquitas vandalizadas." E acrescentou: "Somos uma grande família americana. E quando uma parte começa a sentir-se posta de parte ou secundarizada, é um ataque ao coração da nossa nação."

O presidente admitiu que os muçulmanos americanos têm sido "atacados e acusados devido aos atos de uma minoria". E lamentou que "muitos só oiçam falar de muçulmanos e do islão nas notícias depois de um ato de terrorismo".

Obama deixou a primeira visita a uma mesquita em solo americano para o fim do mandato

Nos últimos cinco anos, houve uma média de 150 crimes de ódio contra muçulmanos por mês nos EUA cujos autores Obama sublinhou que têm de "ser punidos" de forma a garantir que "os direitos cívicos de todos os americanos são respeitados". Num relatório do Conselho para as Relações América-Islão, Ibrahim Hooper garantiu que "nunca houve tanto sentimento de medo e apreensão na comunidade muçulmana dos EUA".

E enquanto muitos elogiavam a visita de Obama a uma mesquita nos EUA, também houve quem criticasse o facto de o presidente a ter deixado para "o último momento" da sua presidência, como lembrou o professor de Estudos Islâmicos Akbar Ahmed.

Suspeitas de ser muçulmano

Acusado de ser muçulmano pelos adversários durante a campanha para as presidenciais de 2008 - o pai era queniano e o avô, sim, era muçulmano - , Obama visitou várias mesquitas nas suas viagens ao estrangeiro. No Egito (onde fez um discurso ao mundo muçulmano) e na Turquia, logo em 2009, na Indonésia, um ano depois, ou na Malásia em 2014. Ainda em setembro, uma sondagem da CNN/ORC revelava que 29% dos americanos acreditam que o presidente, cujo nome do meio é Hussein e que em criança viveu quatro anos na Indonésia com

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