Obama lembra que ninguém "se pode esconder atrás de muros"

Ex-presidente falou durante 90 minutos e criticou expressamente Donald Trump, mas sem citar o seu nome uma única vez. Estiveram presentes 70 mil pessoas na conferência que assinala a data do início da Reforma há 500 anos.

"Não só amo esta cidade, como um dos parceiros preferidos ao longo da minha presidência está sentada aqui ao meu lado", declarou ontem em Berlim o ex-presidente Barack Obama, falando numa conferência ao ar livre, junto da Porta de Brandenburgo, e tendo ao lado a chanceler alemã, Angela Merkel.

Fortemente aplaudido pelas 70 mil pessoas presentes num local da capital alemã por onde passava o muro que dividiu a cidade entre 1961 e 1989, Obama disse que "se pode haver agitação em alguns países, mau governo, se aí houver guerra ou situações de pobreza, neste novo mundo em que vivemos, não nos podemos isolar". E sem citar uma só vez ao longo da intervenção o nome do sucessor, Donald Trump, afirmou que ninguém "se pode esconder atrás de muros", numa clara referência ao projeto do presidente em construir uma barreira de segurança na fronteira com o México.

Falando pela primeira vez na Europa após deixar a Casa Branca, Obama participou em Berlim no Kirchentag (O Dia da Igreja protestante alemã) que assinala o início do movimento da Reforma, associado a Martinho Lutero, e que este ano cumpre 500 anos. As celebrações decorrem até domingo e entre os convidados para as conferências estão o grande imã da mesquita Al-Azhar no Cairo, xeque Ahmed el-Tayyib, Melinda Gates, filantropista e mulher do fundador da Microsoft, Bill Gates, o escritor israelita Amos Oz e o enviado especial da ONU para a Síria, Staffan de Mistura.

O Kirchentag começou a ser assinalado em 1949, numa iniciativa de Reinold von Thadden, teólogo protestante e opositor declarado a Adolfo Hitler, com o objetivo de distanciar os protestantes da cumplicidade exibida por muitos e pela igreja oficial protestante com o regime nazi. Como recordava ontem Sirkka Jendis, uma das responsáveis da organização, "tirando a Igreja Confessional [movimento de Von Thadden], a Igreja Protestante não teve uma atuação meritória sob o nacional-socialismo".

Encruzilhada

Obama falou durante hora e meia e, além de se pronunciar sobre o balanço da sua presidência, abordou a conjuntura internacional. "O mundo está numa encruzilhada", disse o ex-presidente, explicando que não se tomar a paz e a prosperidade como dados adquiridos. Quanto ao período dos dois mandatos na Casa Branca, mais uma vez sem citar o nome de Trump, declarou-se "orgulhoso do trabalho feito enquanto presidente" e de ter conseguido a aprovação do seu projeto de acesso à saúde, mais conhecido sob a designação Obamacare.

"A minha esperança era conseguir cuidados de saúde para 100% das pessoas. Não foi possível mas conseguimos que 20 milhões, que antes os não tinham, passassem a tê-los". E continuou: "agora, alguns dos progressos feitos estão em perigo", referência ao projeto do atual presidente em revogar a legislação aprovada pelo seu antecessor.

Antes ainda de chegar à Casa Branca, Obama estivera em Berlim em 2008 para falar perante centenas de milhares de pessoas no Parque Tierganten. Em junho de 2013, estaria na Porta de Brandenburgo, no mesmo local onde antes tinham discursado John F. Kennedy e Ronald Reagan, tendo este aqui pronunciado, a 12 de junho de 1987, o histórico discurso em que apelou a Mikhail Gorbatchev a acabar com o muro que dividia então a cidade.

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