Obama elogia democracia em Atenas e discute sanções contra a Rússia em Berlim

Presidente norte-americano jantou ontem à noite com a chanceler Angela Merkel, com quem tem previsto reunir-se hoje e amanhã

Na despedida de Atenas, o presidente norte-americano, Barack Obama, fez ontem um elogio à democracia, lembrando que apesar de esta ser "imperfeita" ainda é a melhor forma de governo. Num discurso na Fundação Stavros Niarchos deixou também um aviso para o seu sucessor, Donald Trump: "A democracia americana é maior do que qualquer pessoa." Hoje, já em Berlim, tem previsto um encontro com a chanceler alemã, Angela Merkel (com quem já jantou ontem), e amanhã deverá discutir com outros líderes europeus o aumento das sanções contra a Rússia, segundo fontes citadas pela Reuters.

A capital alemã é a última paragem na última visita do presidente à Europa. Num artigo conjunto com Merkel, publicado no semanário Wirtschaftwoche, Obama defendeu a importância do acordo de livre comércio entre os EUA e a União Europeia e a luta conjunta contra as alterações climáticas. "Não haverá um regresso a um mundo pré-globalização", asseguraram ambos no texto, manifestando o seu total apoio a políticas que foram fortemente questionadas pelo futuro hóspede da Casa Branca durante a campanha para as presidenciais.

Amanhã, a britânica Theresa May, o francês François Hollande, o italiano Matteo Renzi e o espanhol Mariano Rajoy juntam-se a Merkel e Obama para discutir a extensão das sanções à Rússia pela sua intervenção na Ucrânia (previstas acabar em janeiro), bem como possíveis sanções pelos bombardeamentos contra rebeldes na Síria. A ideia dos líderes europeus é tornar mais difícil para Trump, que parece ter boa relação com o presidente russo Vladimir Putin, reverter a atual política norte-americana.

Antes de chegar a Berlim, Obama fez um último discurso em Atenas. "Foi aqui, há 25 séculos, nas colinas rochosas desta cidade, que uma nova ideia surgiu. Demokratia. Kratos, o poder, o direito de governar, vem do demos, o povo", afirmou. "A noção de que somos cidadãos, não escravos mas donos da nossa sociedade. O conceito de cidadania, de que temos direitos mas também responsabilidades. A crença na igualdade perante a lei, não apenas para alguns, mas para todos."

Apesar do elogio à democracia, Obama lembrou que "como todas as instituições humanas", ela é "imperfeita". "Pode ser lenta, pode ser frustrante, pode ser difícil, pode ser complicada. Os políticos tendem a ser impopulares nas democracias, independentemente dos partidos porque, por definição, a democracia requer que não possamos ter 100% do que queremos. Requer compromisso." Alertou ainda para os riscos dos nacionalismos e disse que a "desigualdade constitui hoje um dos maiores desafios" à economia e democracia. Num discurso que pareceu um aviso ao sucessor republicano, Obama lembrou que "qualquer ação presidencial ou resultado eleitoral, ou qualquer legislação que tenha falhas, pode ser corrigida através do processo de democracia".

Referindo-se à NATO (que tem atraído muitas críticas de Trump), Obama disse estar confiante que o compromisso dos EUA para com a Aliança Atlântica, que existe há sete décadas, "vai continuar, incluindo a nossa promessa e a nossa obrigação de defender qualquer aliado". Sobre a Europa, e os desafios que o continente enfrenta, Obama disse que "mais do que nunca, o mundo precisa de uma Europa que seja forte e próspera e democrática".

Ler mais

Exclusivos

Premium

Catarina Carvalho

Arnaldo, Rui e os tuítes

Arnaldo Matos descobriu o Twitter (ou Tuiter, como ele dizia), em 2017. Rui Rio, em 2018. A ambos o destino juntou nesta edição. Por causa da morte do primeiro, que o trouxe à nostálgica ordem do dia, e por o segundo se ter rendido à tecnologia da transmissão de ideias que são as redes sociais. A política não nasceu para as ideias simples com as redes sociais. Mas as redes sociais vieram dar uma ajuda na rapidez ao passar as mensagens. E a chegar a mais gente. E da forma desejada, sem a, por vezes incómoda, mediação jornalística. É isso mesmo que diz, e sem vergonha, note-se, uma fonte do PSD, no trabalho sobre a presença de Rui Rio no Twitter. "É uma via para dizer exatamente o que pensa e dar a opinião, sem descontextualizações." O jornalismo como descontextualização. Ou seja, os políticos que aderem às redes sociais fazem-no no mesmo pressuposto da propaganda. E têm bons exemplos a seguir, como Trump, mestre nos 280 carateres que o ajudaram a ganhar eleições. Foi o Twitter que trouxe Arnaldo Matos das trevas da extrema-esquerda para o meio mediático. Regressou como fenómeno, não apenas pelas polémicas intervenções no velho partido, o MRPP, onde promoveu rixas, expulsou camaradas por desvios de direita, mas, sobretudo, pela excelente adaptação à forma que a tecnologia do Twitter lhe proporcionava para passar a sua mensagem política dura, rápida, cruel e, sim, simplista. Para quem não quer perder muito tempo com explicações, o Twitter é ideal. Numa prosa publicada na página do partido, Luta Popular, Arnaldo Matos fazia o que sabia fazer, doutrina, sobre o assunto. Dizia que as suas publicações, batendo "todos os recordes em Portugal", se tornavam "tão virais" que já nem ele as controlava E sem nenhum recuo ou consideração sobre a origem "capitalista" desta transmissão informativa queixava-se de as mensagens não serem vistas pelos "camaradas do partido". Resumindo: "Os tuítes são pequenas peças de agitação e de propaganda políticas, que permitem aos militantes do PCTP/MRPP manter uma informação permanente sobre a vida política nacional e internacional." Dizia também que este método "fornece uma enorme quantidade de temas que armam a classe operária para a difusão de opiniões que caracterizam os seus pontos de vista de classe". Ninguém diria melhor do que um "educador" de classe, operária ou outra, e nem mesmo Jack Dorsey ou Noah Glass ou Biz Stone, ou Evan Williams, os fundadores da rede social, a saberiam defender de forma tão eficaz. E enganadora. A forma como Arnaldo Matos usava o Twitter era um pouco menos benévola do que podia parecer destas palavras. Zurziu palavras simples e fortes contra velhos ódios: contra o "putedo" da esquerda, o "monhé" António Costa, os sociais-fascistas do PCP e, até, justificando ataques terroristas como os do Bataclan em Paris. Mandava boutades que no ciberespaço se chamam posts. E, depois, os jornalistas faziam o resto, amplificando a mensagem nos órgãos de comunicação social tradicionais. Na reportagem explica-se que o objetivo dos tuítes de Rui Rio é, também, que os jornalistas "peguem" nas mensagens e as ampliem. Até porque ele tem apenas cerca de três mil seguidores - o que não é pouco, tendo em conta a fraca penetração da rede em Portugal. Rio muda quando está no Twitter. É mais contundente e certeiro. Arnaldo Matos era como sempre foi, cruel e populista. Ambos perceberam o funcionamento das redes sociais, que beneficiam os políticos, mas prejudicam a democracia. Porque incentivam ao "tribalismo", juntando quem pensa igual e silenciando quem acha diferentes. Que contribuem para a diluição das mediações que leva com ela o pensamento, a crítica, e traz consigo a ilusão da "democracia direta" que mais não é do que outra forma de totalitarismo. Estas últimas ideias são roubadas da apresentação de Pacheco Pereira na conferência sobre o perigo das fake news organizada nesta semana pela agência Lusa. Dizia ele que não devemos ter complacência com a ignorância - que é a base do espalhar de notícias falsas. Talvez os políticos devessem ser os primeiros a temê-la, à ignorância.