Obama, Biden e Bloomberg numa frente unida por Hillary e contra Donald Trump

Candidata democrata devia encerrar a convenção ontem com um discurso de inclusão com o qual sabe que precisa conquistar a confiança dos americanos para vencer em novembro.

Depois de três dias a ouvir discursos de apoio dos democratas, ontem à noite (já madrugada de hoje em Lisboa) chegou a vez de Hillary Clinton subir ao palco do Wells Fargo Center em Filadélfia para aceitar a nomeação como candidata democrata à Casa Branca. A primeira mulher a apresentar-se a umas presidenciais por um dos dois grandes partidos sabe que precisa de explicar aos americanos as suas ideias para o país e para o mundo, traçando um cenário de inclusão e oportunidade em contraste com a imagem negra que o rival Donald Trump apresentou na convenção republicana. Mais: tem de gerar excitação suficiente para mobilizar os apoiantes a ir às urnas a 8 de novembro.

Com o rival a ultrapassá-la nas sondagens nacionais - o último estudo do Los Angeles Times dá 47% das intenções de voto a Trump e 40,4% a Hillary -, a democrata esperava ontem que a prova oral no encerramento da convenção lhe viesse dar o impulso para inverter a tendência nos três meses que faltam para as presidenciais.

Num artigo de análise, a CNN escrevia que a tarefa mais difícil da mulher que já foi primeira-dama, senadora e secretária de Estado e passou décadas no topo da política americana é convencer os americanos que compreende a sua frustração e preocupação com a economia e a segurança. Sobretudo porque as sondagens mostram que mais de metade (59%, segundo um estudo Reuters/Ipsos) acham que "não é honesta ou de confiança".

Ontem de manhã, no programa Good Morning America, da ABC News, Tim Kaine explicou que à noite Hillary ia tentar ganhar a confiança dos eleitores, sublinhando as diferenças em relação a Trump que só pede para "acreditarem nele". Na quarta-feira, o senador da Virgínia, que a ex-primeira-dama escolheu para candidato à vice-presidência, discursou na convenção, tendo centrado a intervenção naqueles que "acreditaram" em Trump e foram enganados. Dos pequenos empreiteiros que o magnata contratou aos pensionistas que lhe compraram casas, passando pelos estudantes da universidade Trump. "Amigos, não podemos acreditar numa única palavra que sai da boca de Donald Trump!", exclamou Kaine. Foi em espanhol que o senador de 58 anos - que aprendeu a língua quando trabalhou com os missionários jesuítas nas Honduras - recordou a uma audiência aos gritos: "Somos americanos todos!"

Num terceiro dia de convenção centrado em questões de segurança nacional e política externa, Kaine também lembrou que o filho Nat "acabou de ser destacado com o seu batalhão de marines para proteger os aliados da NATO que Donald Trump ameaça deixar pendurados".

Quem também falou da família foi Joe Biden. O vice-presidente de Barack Obama recordou o filho Beau, que quando ele assumiu o cargo em 2008 estava prestes a partir para o Iraque e morreu de cancro em 2015, aos 46 anos. Biden começou por elogiar Obama - "um dos melhores presidentes que já tivemos" - e a primeira-dama - "Michelle, miúda, não sei onde estás mas és incrível" - cujo discurso descreveu como "o melhor" da convenção. Lembrando os tempos em que trabalhou com Hillary no Senado, o homem que antes de assumir a vice-presidência foi senador do Delaware durante 36 anos elogiou uma mulher que "está lá sempre para nós". Quanto a Trump, o ataque de Biden foi feroz: "O seu cinismo não tem limites. A sua falta de empatia e compaixão resumem-se numa frase que suspeito que se orgulhe de ter tornado famosa: "Está despedido!" Não estou a brincar. Pensem nisso. Pensem em tudo o que aprenderam em crianças. Como é que alguém pode sentir prazer a dizer "Está despedido!" Ele tenta dizer-nos que se preocupa com a classe média? Poupem-me. Uma série de disparates!"

Um dos discursos mais aguardados da noite foi o de Michael Bloomberg. O ex-mayor de Nova Iorque apresentou-se como outsider, alguém que "já foi democrata, já foi republicano e agora é independente". E foi nessa condição que disse estar ali "para explicar porque acho imperativo eleger Hillary Clinton presidente dos EUA". Apelando aos americanos para se inscreverem para votar, o milionário dono da agência noticiosa com o seu nome sublinhou que é preciso "unirmo-nos em torno da candidata que pode derrotar um perigoso demagogo". Lembrando que também ele começou um negócio bem-sucedido - "e sem um cheque de um milhão passado pelo meu pai" -, o eterno possível candidato à presidência recordou as falências e processos de clientes descontentes que marcam a carreira de Donald Trump. Numa guerra de milionários de Nova Iorque, exclamou: "Ele diz que quer gerir o país como gere os negócios. Deus nos acuda!" E rematou: "Sou nova-iorquino, reconheço um vigarista quando o vejo!"

A noite fechou com Obama a subir ao palco com um apelo aos americanos para "rejeitarem o medo". Garantindo que "nunca houve um homem ou mulher mais qualificado [do que Hillary] para ser presidente dos EUA - nem Bill [Clinton] nem eu", o presidente pediu ainda: "Levem-na à presidência, como fizeram comigo." No fim do discurso, Hillary juntou-se no palco ao ex-rival de 2008, protagonizando um abraço que os republicanos irão com certeza aproveitar para denunciar uma presidência Clinton como um terceiro mandato de Obama.

Em campanha

Terminada a convenção, Hillary e Tim Kaine não perdem tempo e têm já agendado um périplo de autocarro pela Pensilvânia e Ohio, dois swing states (os estados que alternam entre republicanos e democratas, tornando-se decisivos nas presidenciais). Ambos estes estados ficam no chamado Rust Belt, aquela região do nordeste dos EUA onde as indústrias têxtil, metalúrgica ou automobilística têm sofrido com a globalização. E onde Donald Trump e a sua mensagem antissistema é bem aceite pela população maioritariamente branca e de classe média.

Os brancos - 72% dos eleitores em 2012 - votam na sua maioria (56%) nos republicanos; uma tendência que se acentua entre os que não têm uma licenciatura (perto dos 66%). Republicano atípico, Trump defende o aumento do salário mínimo. E ainda na quarta-feira garantia que se for o próximo presidente vai "trazer para a América empregos que hoje estão no México, um país em crescimento".

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Rosália Amorim

Crédito: teremos aprendido a lição?

Crédito para a habitação, crédito para o carro, crédito para as obras, crédito para as férias, crédito para tudo... Foi assim a vida de muitos portugueses antes da crise, a contrair crédito sobre crédito. Particulares e também os bancos (que facilitaram demais) ficaram com culpas no cartório. A pergunta que vale a pena fazer hoje é se, depois da crise e da intervenção da troika, a realidade terá mudado assim tanto? Parece que não. Hoje não é só o Estado que está sobre-endividado, mas são também os privados, quer as empresas quer os particulares.