O resistente Geraldo Alckmin anuncia hoje candidatura a 2018

Governador de São Paulo será confirmado em convenção nacional do PSDB. Para ganhar o partido, soube esperar pelos suicídios políticos de Aécio, Serra, Doria e Luciano Huck

Com a confirmação da desistência dos barões Marconi Perillo e Tasso Jereissati da corrida à presidência do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) a favor de Geraldo Alckmin, o atual governador do estado de São Paulo deve tornar-se hoje, durante a convenção nacional em Brasília, o pré-candidato do partido à presidência da República. Considerado um corredor de fundo da política brasileira, o médico anestesista de 65 anos aproveitou a desistência, forçada ou não, de quatro eventuais concorrentes para atingir o objetivo que perseguia desde que em 2006 foi derrotado à segunda volta por Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT).

Ao perder por escassa margem (três milhões de votos num universo de 140 milhões de eleitores), era o senador Aécio Neves que surgia, em 2015, como plano A, B e C dos tucanos, a alcunha dos membros do PSDB, à eleição seguinte. Mas com a revelação da participação em escândalos em série no âmbito da Operação Lava-Jato - responde a nove processos, entre os quais um já deste ano por corrupção e obstrução de justiça por pedir dinheiro ao empresário corrupto Joesley Batista num telefonema tornado público -, Aécio foi o primeiro a ser ultrapassado por Geraldo Alckmin.

José Serra, que renunciou em fevereiro ao cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros no governo de Michel Temer por problemas de saúde e em paralelo foi denunciado como destinatário de cerca de 1,2 milhões de euros ilegais da construtora Odebrecht na Lava-Jato, também foi ficando para trás.

Surgiria, no entanto, João Doria, prefeito eleito em São Paulo com votação expressiva à primeira volta e o patrocínio de Alckmin. Popular e sob a capa de antipolítico, subiu a pique nas sondagens, ultrapassando mesmo o seu criador. Mas o excesso de exposição nas redes sociais traiu-o: no fim de agosto chamou o seu crítico Alberto Goldman, atual presidente interino do PSDB e respeitada figura do partido, de "velho de pijama", causando incómodo no partido. E a seguir criou a farinata, um suposto alimento revolucionário que iria resolver a fome dos paulistanos, mas que sem comprovação técnica de nutrição passou a ser chamada de "ração humana" nos media - assim, evaporou nas sondagens para alívio de Alckmin.

O último a sair de cena foi Luciano Huck, que chegou a ser nomeado candidato pelo seu amigo pessoal Fernando Henrique Cardoso, a reserva moral do PSDB, e a subir nas pesquisas de opinião a números expressivos. Com receio de continuar a ver demasiado exposta a sua vida pessoal e de arruinar a sua carreira milionária na TV Globo, o comunicador, que se situa politicamente na área do PSDB embora não milite em nenhum partido, desistiu e deixou o caminho livre na área para o paciente e perseverante Alckmin - por mais que isso custe aos seus opositores.

Esses opositores preferiam como candidato da marca PSDB alguém com mais apelo popular, como Huck; mais intelectual e académico, na linha de Cardoso; mais urbano, como Serra, nascido e criado em São Paulo; com mais mundo, como o poliglota milionário Doria; ou com mais tradição política familiar, como Aécio, neto de Tancredo Neves.

Caipira, jeca ou picolé de chuchu

Alckmin, nascido numa família de classe média da longínqua Pindamonhangaba em que todos os homens se chamam Geraldo José, como ele, ou José Geraldo, é considerado um caipira ou um jeca, como são chamados os naturais do interior do estado de São Paulo. Católico tenaz, fazia reuniões da Opus Dei no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista, segundo reportagem da revista Época. Foi também alcunhado de "picolé de chuchu" por um humorista - um picolé é um gelado de água, que se pretende doce, e chuchu é um legume sensaborão.

Sensaborão ou não, passou praticamente incólume pela Lava-Jato e venceu no ano passado à primeira volta a eleição para governador do estado de São Paulo, que representa um terço do PIB do país e tem um quinto dos eleitores brasileiros. O médico anestesista de Pindamonhangaba parte, ainda assim, atrás de Lula, Jair Bolsonaro (Patriotas) e Marina Silva (Rede Sustentabilidade) nas sondagens, mas já provou que é um corredor de longas distâncias.

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