O regresso da diplomacia triangular?

A competição entre EUA, Rússia e China apontam para uma reedição da estratégia diplomática da época de Richard Nixon.

As primeiras páginas dispararam em alvoroço, o mundo susteve a respiração. A visita-surpresa de Richard Nixon a Pequim em fevereiro de 1972 foi um dos momentos de maior suspense da História da Guerra Fria.

As relações entre os dois gigantes comunistas atravessavam dias conturbados desde a rutura sino-soviética no virar dos anos 60 e três anos antes, em 1969, a URSS e a República Popular da China tinham-se mesmo envolvido num conflito fronteiriço. A América viu na tensão entre Kruschev e Mao um trunfo no confronto com a URSS - numa jogada de mestre preparada por uma secreta visita de Henry Kissinger a Pequim um ano antes.

O mundo está hoje longe dos anos de Nixon, mas a relação entre Washington, Moscovo e Pequim continua a ter um peso considerável no quadro internacional. A crescente afirmação da China no plano internacional, as ameaças de Donald Trump de rever a política chinesa dos Estados Unidos, a tensão na península da Coreia e os dias difíceis vividos nas relações entre Moscovo e Washington conferiram súbito relevo ao momentoso "namoro" entre a Rússia e a China nos últimos anos, incluindo uma cooperação militar cada vez mais ostensiva.

Os tempos são outros mas, observa Monish Tourangbam, do Stimson Center de Washington, "tudo indica que os velhos cálculos políticos continuam a não andar longe no século XXI".

Avisos a Pequim

Donald Trump não regateou adjectivos para denunciar apolítica comercial chinesa e os seus efeitos na economia americana. Durante a campanha eleitoral, Trump acusou a China de "roubar empregos aos americanos", de "concorrência desleal", de "devastadora manipulação cambial", de "roubo escandaloso de propriedade intelectual" e ainda de hacking cibernético patrocinado pelo Estado.

Mal instalado na Casa Branca, o novo presidente americano manteve uma longa conversa telefónica com a presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen, e afirmou que os EUA não têm que se sentir obrigados à politica de "Uma China", estabelecida por Nixon há 40 anos, tocando assim numa questão ultrassensível para Pequim.

Três meses depois, Trump recebia o presidente Xi Jinping na estância de Mar-a-Lago na Florida e falava de "tremendos progressos" nas relações entre os dois países e de uma relação de "amizade" com o presidente chinês. Os sorrisos trocados pelos dois líderes não dissiparam ainda assim a incerteza instalada nas relações entre Washington e Pequim.

No momento em que o presidente chinês chegava à América, os EUA tinham acabado de atacar uma base na Síria - uma coincidência vista por muitos analistas como um aviso de que a não haver uma ação mais resoluta de Pequim para pôr termo ao programa nuclear de Kim Jong-un a Coreia do Norte poderia ser o alvo de uma próxima ação militar preventiva dos EUA...

Xi Jinping não tardaria a marcar pontos nos palcos internacionais, por vezes a expensas do seu homólogo americano. Em Davos, em Janeiro, afirmou-se como um campeão da globalização e do comércio livre e de mercados abertos atacando, em confronto implícito, os propósitos protecionistas de Donald Trump. Em maio prometeu defender o acordo de Paris sobre as mudanças climática de 2015 no momento em que Trump considerava retirar-se do mesmo. A CNN comentou a ocasião perguntando-se se Trump não acabara de "oferecer o mundo numa bandeja de prata" ao líder chinês.

A "Nova Rota da Seda"

A subida de Xi Jinping ao poder - assinala Mariola Gomariz Guillén na Presencia Global -coincidiu com uma acentuada quebra no crescimento do país e com uma reformulação da estratégia económica chinesa. Pequim aposta doravante mais na inovação, no investimento, na tecnologia e na ciência e noutros instrumentos de influência, numa "combinação de soft e de hard power".

É neste quadro que surge a iniciativa "One Belt, OneRoad", a "Nova Rota da Seda" - um ambicioso plano de infraestruturas de transporte e de comunicações a nível mundial, lançado em 2013 e anunciado ao mundo com pompa e circunstância num Forum internacional em Pequim em maio deste ano. O "projeto do século", segundo Xi Jinping, que colocaria Pequim no centro de uma vasta rede de comunicações, garantindo ao mesmo tempo novos mercados à produção chinesa.

A par do interesse de muitos países, o projeto chinês gerou muitas reticências, em particular nos EUA. A ascensão económica e política da China é encarada por muitos responsáveis americanos como uma ameaça séria à liderança dos EUA.

Um documento do Departamento da Defesa, Sustaining Global Leadership: Priority for the 21st Century Defense, denunciava em janeiro de 2012 a tentação hegemónica da China na região da Ásia-Pacífico e o risco de surgirem fricções, ou mesmo um choque direto, entre americanos e chineses na região, sublinhando fatores potenciais de tensão como o Estreito de Taiwan ou o Mar do Sul da China.

Entre os analistas americanos, como notou Alexander Gabuiev no South China Morning Post, especula-se mesmo que uma das razões que levavam Donald Trump a defender uma aproximação com Moscovo seria a ideia de conter a China em ascensão, relançando de algum modo o padrão da "triangular diplomacy" de Kissinger e Nixon.

Convergências russo-chinesas

A tensão crescente nas relações com a Europa e os EUA, em particular depois da crise da Ucrânia de 2014, levou o Kremlin a rever os dois conceitos que guiaram a política externa de Moscovo desde o colapso da URSS - observa Dmitri Trenin, da Carnegie Moscow: a integração no Ocidente - aproximação à Europa e parceria "de igual para igual" com os EUA, e os esforços de reconstituição do espaço da URSS.

Desfeitas as ambições a Ocidente, a águia bicéfala russa perscrutou novos horizontes a Oriente. Moscovo intensificou os laços económicos com o Sudeste asiático (ASEAN), apostou no relançamento das relações com a Índia, manifestou um novo interesse pelo Afeganistão e aproximou-se do Paquistão.

A China desempenha um papel particularmente importante nesta aposta. Entre as elites russas viu-se em Beijing um potencial aliado no confronto com a hegemonia americana e alimentou-se mesmo a expectativa de que que a China poderia substituir o Ocidente como fonte de crédito, de investimento em larga escala, de tecnologia avançada e como mercado para as exportações russas.

Moscovo e Pequim intensificaram as trocas no domínio energético. A cooperação russo-chinesa no quadro da Organização de Xangai (SCO), alargou-se a novos domínios como as operações "manutenção da paz". A Rússia parece ter vencido enfim a sua relutância e forneceu à China equipamentos militares de ponta como o caça Su-35 e o sistema antiaéreo S-400.

As perspetivas de Pequim e Moscovo convergem em dossiers que entram em desafio com o Ocidente, e em particular os EUA, como o espaço cibernético e a "governança" global da Net. A declaração conjunta que rematou a visita de Xi Jinping a Moscovo em junho, nas vésperas da cimeira do G20, defende uma gestão da Internet que coloca em primeiro a soberania nacional.

Face às ameaças americanas a Pyongyang, Pequim e Moscovo anunciaram iniciativas diplomáticas destinadas a reduzir a tensão na Península da Coreia. Os "falcões" dos aparelhos de segurança nacional de Moscovo e Pequim, como assinalou Alexander Gabuev no Financial Times, suspeitam que Washington se serve das ambições nucleares de Pyongyang para aumentar a sua pressão militar na área.

As manobras conjuntas de unidades navais russas no cenário hipersensível do Báltico - uma área em que a Rússia e a NATO concentraram um forte dispositivo bélico, em junho último, vieram conferir uma nova dimensão ao "namoro" entre Moscovo e Pequim.

O "fator Trump"

Entre os defensores da estratégia Trump, desdramatiza-se o alcance deste "namoro" entre Moscovo e Pequim apontando a ausência de um verdadeiro clima de confiança entre russos e chineses.

Moscovo olha com interesse, mas também com alguma inquietação, o peso económico, demográfico e militar e as crescentes ambições geopolíticas da China. A Rússia teme a pressão demográfica chinesa sobre as regiões escassamente povoadas do Extremo Oriente russo e da Sibéria. Moscovo olha com preocupação o rápido crescimento da influência chinesa na Ásia Central - influência que a One Belt poderá acentuar - e reagiu negativamente ao projeto chinês de criação de um banco regional, avançado por Pequim em 2010.

A verdade, assinala Dmitri Trenin, é que "a China já conseguiu grande parte do que queria de Moscovo, como o fornecimento de energia e de tecnologia militar de ponta". Em suma, a Rússia e a China estabeleceram uma entente mas estão longe da "parceria estratégica" invocada em Moscovo.

As elites chinesas veem na América o grande obstáculo a uma maior afirmação da China no plano global e desde o início dos anos 1990 juntou a sua voz a Moscovo na denúncia da hegemonia americana na ordem planetária. A China parece porém ter optado por uma política pudente e que evite choques com os EUA" e não parece interessada em "integrar qualquer frente contra a hegemonia americana" - observou Rosemary Foot na International Affairs.

Nem por isso a aproximação entre Moscovo e Pequim representa menos um desafio para Washington. Russos e chineses partilham inquietações comuns face à América. Defendem ambos uma ordem internacional baseada nas soberanias nacionais e que rejeite a ingerência nos assuntos internos de cada estado, assinala Aleksandr Gabuev. E a política errática de Trump acaba por constituir um fator de aproximação entre as duas capitais.

A cooperação entre Moscovo e Pequim estará sem dúvida caucionada pelas assimetrias entre os dois países e por alguma desconfiança histórica. O "namoro" russo-chinês terá em boa medida uma dimensão conjuntural. Nem por isso representa menos um enorme desafio geoestratégico para a América.

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