O príncipe árabe que comparou Trump à propaganda do ISIS

Zeid Raad al-Hussein, o alto comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, classificou como "sem consciência" a política de separação de famílias de Trump. Para ele a saída dos EUA DO Conselho dos Direitos Humanos é "uma desilusão mas não uma surpresa".

Bisneto do Xerife de Meca, filho do herdeiro dos tronos da Síria e do Iraque e primo do Rei da Jordânia, o príncipe Zeid Raad al-Hussein gosta de lembrar que é um muçulmano cujo papel é "defender e promover os direitos humanos para cada indivíduo, em toda a parte". Num discurso em 2016 na inauguração da Fundação para a Paz, Justiça e Segurança em Haia, na Holanda, o alto comissário da ONU para os Direitos Humanos lançou um duro ataque contra os "populistas, demagogos e fantasistas políticos" que, segundo ele, usam táticas para espalhar o medo semelhante às do ISIS.

Zeid apressou-se a esclarecer que "certamente não estou a comparar os atos dos demagogos nacionalistas aos do daesh [acrónimo árabe para Estado Islâmico]. Mas na sua forma de comunicação, no seu uso das meias-verdades e das simplificações, a propaganda do Daesh usa táticas semelhantes às dos populistas". E deixou o alerta: essas táticas podem levar à violência.

O diplomata jordano não hesitou em identificar esses "demagogos". A começar por Geert Wilders, o líder da extrema-direita holandesa, que acusou de usar a intolerância como arma política. Mas sublinhou que Wilders não é o único. A ele juntou a líder da Frente Nacional francesa, Marine Le Pen, o ex-líder do UKIP britânico Nigel Farage e o então candidato republicano às presidenciais americana, Donald Trump.

Esta semana, Zeid Raad al-Hussein voltou a atacar o agora presidente, criticando a sua política de separação de famílias. Os EUA têm estado na mira por separar dos pais os filhos que ilegais que tentam entrar no país. As imagens de crianças em jaulas no que os americanos chamam centros de acolhimento têm dado a volta ao mundo e gerado duras críticas. Internacionais e nacionais, com muitas vozes republicanas a juntarem-se às democratas.

Zeid Raad al-Hussein denunciou uma política "sem consciência" por parte do presidente americano. E esta quarta-feira, após o anúncio de que os EUA vão deixar o Conselho dos Direitos Humanos da ONU, a que ele preside, o príncipe afirmou-se "desiludido, mas não verdadeiramente surpreendido".

Descendente do profeta

Muitas vezes Zeid Ra'ad al-Hussein usa a sua história pessoal para justificar as críticas que faz.

"Sou um muçulmano de pele clara, o que confunde os racistas, cuja mãe é europeia e o pai, árabe". O alto comissário da ONU para os Direitos Humanos nasceu em Amã, na Jordânia, há 52 anos, filho de Raad bin Zeid, herdeiro dos tronos da Síria e do Iraque, e da sueca Margaretha Lind, conhecida como Majda Raad.

A sua família, os hachemitas, reclamam-se descendentes do profeta Maomé e chegaram a reinar sobre o Hejaz, onde fica Meca, sobre a Síria, sobre o Iraque e sobre a Jordânia. Atualmente, a família apenas mantém a coroa jordana, com o rei Abdullah II a ser primo de Zeid.

Durante a revolta contra o império Otomano, o bisavô de Zeid, Hussein bin Ali, recebeu ajuda dos britânicos. Parte dessa história é contada no filme Lawrence da Arábia, que retrata a vida de T. E. Lawrence, arqueólogo, militar e diplomata britânico que mais tarde estaria ao lado de Faisal I, tio-avô de Zeid e rei da Síria e depois do Iraque, na assinatura do Tratado de Versalhes, em 1919.

Apesar do sangue real que corre nas suas veias, Zeid gosta de brincar com o facto de ser príncipe, garantindo que é pouco provável que algum dia venha a subir ao trono. Além disso, "estou falido", garantia ao USA Today em 2014 quando foi nomeado alto comissário. Formado em Cambridge, o diplomata trabalhou para a ONU na ex-Jugoslávia nos anos 90, antes de ser nomeado embaixador da Jordânia nos EUA. Antes de assumir o atual cargo, teve ainda um papel essencial na criação do Tribunal Penal Internacional.

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Nuno Artur Silva

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