O Papa e as igrejas queimadas na terra do conflito mapuche

Francisco, que segue depois para o Peru, testemunhou clima de tensão entre povos indígenas e Estado chileno

Igrejas incendiadas, três helicópteros de empresas florestais quase ou totalmente destruídos, uma emboscada contra a polícia, com um dos agentes ferido a tiro. Este é o balanço da violência registada estes dias na região de Araucanía, o berço da etnia mapuche, cuja capital, Temuco, recebeu ontem a visita do Papa. Este foi o último dia de Francisco no Chile. Hoje chega ao Peru.

Os ataques a igrejas naquela região não são, apesar de tudo, uma novidade nem o alvo são sempre as igrejas católicas. Entre 2014 e 2016, noticiou a Efe, foram incendiadas 12 igrejas nas terras que os mapuches reclamam como suas por direito ancestral: dez eram católicas e duas protestantes. Metade delas ficavam em Ercilla, precisamente em Araucanía. Em julho do ano passado foi também noticiado que um grupo radical de índios mapuche tinha incendiado uma igreja evangélica em Vilcun, nessa mesma região.

Ontem citado pela Efe, o porta-voz do Conselho de Todas as Terras, Aucán Huilcamán, falou em representação de uma parte dos mapuches, expressando o seu mal-estar em relação ao "genocídio dos povos indígenas com o apoio do catolicismo", em consequência da colonização europeia da América Latina, há mais de 500 anos. Exigiu, assim, ao Papa que "reconheça esta matança" e impulsione, a partir do Vaticano, uma política de reparação. Os mapuches exigem ao Estado chileno a restituição de terras ancestrais que estão nas mãos de latifundiários e empresas florestais.

"É muito importante fazer ver que esta zona é bastante mais do que um mero conflito", declarou o bispo de Temuco, Héctor Vargas, segundo o qual os mais de 957 mil habitantes daquela região vivem estigmatizados por causa de situações de violência. Num relatório que enviou em dezembro ao Vaticano, o religioso reconhece "a existência de uma dívida histórica e de assuntos pendentes para com o povo mapuche". Por isso, instou o Papa Francisco a fazer "um apelo ao diálogo e ao abandono do lado das trincheiras".

Na homilia que deu no aeroporto de Maquehue, que no tempo da ditadura de Augusto Pinochet foi usado como centro de tortura e de detenção, o Papa argentino afirmou: "A defesa da cultura do reconhecimento mútuo não pode ser construída com base na violência e destruição que custa vidas humanas. Não se pode pedir um reconhecimento aniquilando um outro."

Perante milhares de pessoas, Francisco saudou "de forma especial o povo mapuche, assim como todos os povos indígenas que vivem nestas terras ancestrais, como os rapanui [da ilha de Páscoa], aymara, quechua, atacamenhos, como tantos outros". E pronunciou algumas palavras na língua mapudungun: "Mari Mari, Küme tünngün ta niemün" (bom dia, que a paz esteja convosco).

Segundo a agência Ecclesia, o Papa almoçou ontem também com oito membros da comunidade mapuche, na Casa Madre de la Santa Cruz, em Araucanía, no âmbito da viagem ao Chile e ao Peru.

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